Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

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ENVENENAMENTO DO DUQUE DE GUYENNE

...Ocupei-me depois da Guyenne. Odet d’Aidies, senhor de Lescun, que se tinha desentendido comigo, conduzia os preparativos da guerra com uma vivacidade maravilhosa. Era com muito esforço que alimentava o ardor belicoso de meu irmão, o Duque de Guyenne. Ele tinha de combater um adversário temível no espírito de meu irmão: a Senhora Thouars, amante de Carlos, Duque de Guyenne.

Essa mulher não procurava senão tirar partido do poder que exercia sobre o jovem duque, a fim de desviá-lo da guerra, pois não ignorava que a guerra tinha por objetivo o casamento do seu amante. Seus inimigos secretos tinham afetado, em sua presença, louvar a beleza e as brilhantes qualidades da noiva. Isto foi suficiente para persuadi-la de que sua desgraça seria certa se aquela princesa desposasse o Duque de Guyenne. Certa da paixão de meu irmão, recorreu às lágrimas, às preces e a todas as extravagâncias de uma mulher perdida em semelhante situação. O pusilânime Carlos cedeu e comunicou suas novas resoluções a Lescun. Lescun imediatamente preveniu o Duque de Bretanha e os interessados, os quais, alarmados, mandaram representações a meu irmão. Estas, porém, não surtiram senão o efeito de mergulhálo novamente em suas dúvidas.

Entretanto, a favorita conseguiu, não sem dificuldade, dissuadi-lo novamente da guerra e do casamento. A partir de então, a morte da favorita foi decidida por todos os príncipes.

Com receio de que meu irmão viesse atribuí-la a Lescun, cuja antipatia pela Senhora Thouars lhe era conhecida, decidiram conquistar Jean Faure Duversois, monge beneditino, confessor de meu irmão e abade de Saint-Jean d’Angély. Esse homem era um dos maiores entusiastas da Senhora de Thouars e ninguém ignorava o ódio que votava a Lescun, cuja influência política invejava. Não era provável que meu irmão lhe atribuísse a morte da amante, pois aquele sacerdote era um dos favoritos que maior confiança lhe mereciam. Desde que apenas a sede de grandeza o ligava à favorita, deixou-se facilmente corromper.

Durante muito tempo eu tentei seduzir o abade, mas ele sempre repelia minhas ofertas. Entretanto, deixava-me a esperança de atingir o meu objetivo.

Ele facilmente percebeu a situação em que se meteria prestando aos príncipes o serviço que lhe pediam, pois sabia que não lhes era difícil desembaraçar-se de um cúmplice. Por outro lado, conhecia a inconstância de meu irmão e temia tornar-se sua vítima.

Para conciliar sua segurança com seus interesses, resolveu sacrificar seu jovem senhor. Tomando tal partido, tinha tantas chances de êxito quantas de fracasso. Para os príncipes, a morte do jovem Duque de Guyenne deveria ser o resultado de um erro ou de um incidente imprevisto. Mesmo quando imputada ao Duque da Bretanha e seus comparsas, a morte da favorita teria passado despercebida, por assim dizer, pois que ninguém teria descoberto os motivos que lhe emprestavam uma importância real, do ponto de vista político.

Admitindo que pudessem ser acusados pela morte de meu irmão, achar-se-iam eles expostos aos maiores perigos, porque teria sido meu dever castigá-los rigorosamente. Sabiam que não era boa vontade que me faltava e que no caso o povo poderia voltar-se contra eles. Então o próprio Duque de Borgonha, alheio ao que se tramava em Guyenne, teria sido forçado a aliar-se a mim, sob pena de se ver acusado de cumplicidade. Mesmo nesta última hipótese, tudo teria resultado em meu favor. Eu poderia fazer que Carlos, o Temerário, fosse declarado criminoso de lesamajestade e levar o Parlamento a condená-lo à morte, pelo assassinato de meu irmão. Tais condenações, pronunciadas por aquele alto tribunal, tinham sempre grandes resultados, sobretudo quando eram de uma incontestável legitimidade.

Vê-se facilmente que interesse tinham os príncipes em manejar o abade. Por outro lado, nada mais fácil do que desfazer-se dele em segredo.

Mas comigo o abade de Saint-Jean tinha maiores chances de impunidade. O serviço que prestava era-me da maior importância, sobretudo naquele momento, porque a liga formidável que se formava e da qual o Duque de Guyenne era o centro deveria perder-me infalivelmente. O único meio de destruí-la seria a morte de meu irmão, o que representava a minha salvação. Ele aspirava o favor de Tristão, o Eremita, pensando que, por esse meio, elevar-se-ia acima dele ou pelo menos partilharia minhas boas graças e minha confiança nele. Aliás, os príncipes tinham cometido a imprudência de lhe deixar em mãos provas incontestes de sua culpabilidade: eram diversos escritos, e como estavam redigidos em termos muito vagos, não era difícil substituir a pessoa de meu irmão pela de sua favorita, ali designada nas entrelinhas. Entregando-me esses documentos, ele afastava de mim qualquer dúvida relativa à minha inocência; por isto subtraía-se ao único perigo que corria ao lado dos príncipes e, provando que de nenhum modo eu me achava envolvido no envenenamento, deixava de ser meu cúmplice e me isentava de qualquer interesse em mandar matá-lo.

Restava provar que ele próprio não estava metido nisso. Esta era uma dificuldade menor. Para começar, ele estava seguro de minha proteção; depois, os príncipes não tinham provas de sua culpabilidade, e ele poderia devolver-lhes as acusações, a título de calúnias.

Tudo bem ponderado, enviou-me um emissário que fingiu ter vindo espontaneamente dizer-me que o Abade de Saint-Jean estava descontente com meu irmão. Vi imediatamente todo o partido que poderia tirar de tal disposição e caí na armadilha preparada pelo astuto abade. Não suspeitando que aquele homem tivesse sido enviado por ele, despachei um de meus espiões de confiança. Saint-Jean representou tão bem o seu papel, que o emissário foi enganado. Baseado em seu relatório, escrevi ao abade, a fim de conquistá-lo. Ele aparentou muitos escrúpulos, mas eu triunfei, embora com alguma dificuldade. Concordou em ficar encarregado do envenenamento de meu jovem irmão. Eu estava tão pervertido que não hesitei em cometer esse crime horrível.

Henri de la Roche, escudeiro da repostaria do duque, ficou encarregado de preparar um pêssego que seria oferecido pelo próprio abade à Sra. de Thouars, enquanto merendava à mesa de meu irmão. A beleza desse fruto era notável. Ela chamou a atenção do príncipe e o partilhou com ele. Apenas tinham ambos comido, a favorita sentiu dores violentas nas entranhas e dentro em pouco expirou no meio de atrozes sofrimentos. Meu irmão experimentou os mesmos sintomas, mas com muito menor violência.

Talvez pareça estranho que o abade se tivesse servido de tal meio para envenenar o seu jovem senhor. Na verdade, o menor incidente poderia prejudicar o seu plano. Era, entretanto, o único que a prudência poderia autorizar: ele admitia a possibilidade de um engano. Tocada pela beleza do pêssego, era muito natural que a Sra. de Thouars chamasse a atenção de seu amante e lhe oferecesse a metade; ele não poderia deixar de aceitá-la e de comer um pouco, ainda que por consideração. Admitindo que comesse apenas um pedacinho, isto seria suficiente para provocar os primeiros sintomas necessários; um envenenamento posterior poderia determinar a morte, como consequência do primeiro.

Os príncipes ficaram tomados de terror assim que souberam das consequências funestas do envenenamento da favorita. Eles não tiveram a menor suspeita da premeditação do abade. Pensaram apenas em dar todas as aparências de naturalidade à morte da jovem senhora e à doença de seu amante. Nenhum deles tomou a iniciativa de oferecer um contra-veneno ao infeliz príncipe, com receio de se comprometer. Realmente tal atitude daria a entender que o veneno era conhecido e, consequentemente, que alguém era cúmplice do crime.

Graças à sua juventude e à força de seu temperamento, Carlos resistiu ao veneno por algum tempo. Seus sofrimentos físicos não fizeram outra coisa senão reconduzi-lo aos antigos projetos com mais ardor. Temendo que a doença diminuísse o zelo de seus oficiais, quis que esses renovassem o juramento de fidelidade. Como ele exigia que eles se engajassem a seu serviço, contra tudo e contra todos, mesmo contra mim, alguns dentre eles, temerosos de sua morte, que parecia próxima, recusaram-se a fazê-lo e passaram para a minha corte.

OBSERVAÇÃO: No número anterior vimos os detalhes interessantes, dados por Luís XI, relativamente à sua morte. O fato que acabamos de relatar não é menos notável sob o duplo ponto de vista da História e do fenômeno das manifestações. Aliás, só tínhamos dificuldades quanto à escolha: a vida desse rei, tal qual foi ditada por ele próprio, é incontestavelmente a mais completa que possuímos e, podemos dizer, a mais imparcial. O estado do espírito de Luís XI lhe permite hoje apreciar as coisas em seu justo valor. Pelos três fragmentos escolhidos, pode-se ver como faz o próprio julgamento. Ele explica sua política melhor que qualquer de seus historiadores. Não se absolve de sua conduta e, em sua morte, tão triste e tão vulgar para um monarca algumas horas antes todo-poderoso, vê um castigo antecipado.

Como fenômeno de manifestações, este trabalho oferece um interesse especial. Ele prova que as comunicações espíritas podem esclarecer-nos sobre a História, desde que nos saibamos colocar em condições favoráveis. Fazemos votos para que a publicação da vida de Luís XI, bem como a não menos interessante de Carlos VIII, igualmente concluída, venham em breve colocar-se ao lado da de Joana d’Arc.


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