Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

Voltar ao Menu
Para certas pessoas convencidas da existência dos Espíritos ─ e aqui não cogito de outras ─ deve ser motivo de espanto que, como nós, os Espíritos tenham as suas habitações e as suas cidades. Não me pouparam críticas: “Casas de Espíritos em Júpiter!... Que piada!...”

Piada ─ seja. Mas eu nada tenho com isso. Se aqui, na verossimilhança das explicações, não encontra o leitor uma prova suficiente de sua veracidade; se, como nós, não se surpreende com a perfeita concordância entre estas revelações dos Espíritos e os dados mais positivos da Astronomia; se, numa palavra, não vê mais que hábil mistificação nos detalhes que se seguem e no desenho que os acompanha, eu o convido a se explicar com os Espíritos, de quem apenas sou eco fiel e instrumento. Que se evoquem Pallissy ou Mozart ou um outro habitante desse mundo feliz; que sejam interrogados; que minhas asserções sejam controladas pelas suas; que, enfim, discutam com eles, porque, quanto a mim, mais não faço do que apresentar aquilo que me é dado e repetir aquilo que me é dito; e, por esse papel absolutamente passivo, julgo-me ao abrigo da censura, tanto quanto do elogio.

Feita esta ressalva e admitida a confiança nos Espíritos, se se aceitar como verdadeira a única doutrina realmente bela e sábia até aqui revelada pela evocação dos mortos, isto é, a migração das almas de planeta a planeta, suas encarnações sucessivas e seu progresso incessante pelo trabalho, os habitantes de Júpiter não nos devem mais causar admiração. Desde o momento em que um Espírito se encarna num mundo como o nosso, submetido a uma dupla revolução, isto é, à alternativa dos dias e das noites e ao retorno periódico das estações e desde que possui um corpo, esse envoltório material, por mais frágil que seja, não somente requer alimentação e vestuário, mas um abrigo ou, pelo menos, um lugar de repouso e, consequentemente, uma habitação.

É exatamente o que nos foi dito. Como nós, e melhor do que nós, os habitantes de Júpiter têm seus lares comuns e suas famílias, grupos harmoniosos de Espíritos simpáticos, unidos no triunfo, como o foram na luta. Daí as moradas tão espaçosas que merecem exatamente o nome de palácios.

Ainda como nós, os Espíritos têm as suas festas, suas cerimônias, suas reuniões públicas. Daí certos edifícios destinados especialmente a essas finalidades. É preciso estar preparado para encontrar, nessas regiões superiores, uma Humanidade ativa e laboriosa como a nossa, como nós submetida às suas leis, às suas necessidades, aos seus deveres, apenas com a diferença de que o progresso, rebelde aos nossos esforços, torna-se fácil conquista para os Espíritos desprendidos, como eles são, de nossos vícios terrenos.

Eu não deveria ocupar-me aqui da arquitetura de suas habitações. Mas, para a boa compreensão dos detalhes que se seguem, não será inútil uma palavra de explicação.

Se Júpiter só é habitável por bons Espíritos, não se segue que sejam todos do mesmo grau de excelência: entre a bondade do homem simples e a do homem de gênio, podem contar-se muitas nuanças. Ora, toda a organização social desse mundo superior repousa precisamente sobre essa variedade de inteligências e de aptidões e, por efeito de leis harmoniosas cuja explicação aqui seria muito longa, cabe aos Espíritos mais elevados e mais depurados, a alta direção de seu planeta. Essa supremacia não para aí. Ela se estende até os mundos inferiores, onde esses Espíritos, por sua influência, favorecem e incessantemente ativam o progresso religioso, gerador de todos os demais. É preciso acrescentar que para esses Espíritos depurados não haveria senão trabalhos intelectuais, pois suas atividades se exercem apenas no campo do pensamento e eles já adquiriram bastante domínio sobre a matéria para não serem senão ligeiramente limitados por ela no livre exercício de sua vontade.

O corpo desses Espíritos, como aliás de todos os habitantes de Júpiter, é de tão pouca densidade que só pode ser comparada à dos nossos fluidos imponderáveis. Um pouco maior que o nosso corpo, cuja forma reproduz exatamente, entretanto mais bela e mais pura, ele teria, para nós, a aparência de um vapor ─ e aqui emprego contrafeito um vocábulo que designa uma substância ainda muito grosseira ─ de um vapor, dizia eu, intangível e luminoso... luminoso sobretudo nos contornos do rosto e da cabeça, pois aí a inteligência e a vida irradiam como um foco muito ardente. É exatamente esse brilho magnético, entrevisto pelos visionários cristãos, que os nossos pintores traduziam como o nimbo ou auréola dos santos.

Compreende-se que tal corpo não dificulta senão muito pouco as comunicações extramundanas desses Espíritos e que lhes permite, no seu próprio planeta, um deslocamento rápido e fácil. Ele se subtrai tão facilmente à atração planetária, e sua densidade difere tão pouco da densidade atmosférica, que ali pode movimentar-se, ir e vir, subir e descer, ao capricho do Espírito e sem outro esforço além da vontade. Assim, alguns personagens que Palissy houve por bem fazer-me desenhar são representados rasando o solo ou na superfície das águas ou ainda muito elevados no ar, com toda a liberdade de ação e de movimento que nós atribuímos aos anjos. Essa locomoção é tanto mais fácil quanto mais depurado é o Espírito, o que se compreende sem esforço. Assim, nada é mais fácil aos habitantes do planeta do que determinar, logo à primeira vista, o valor de um Espírito que passa. Dois sinais o delatam: a altura de seu voo e a luz mais ou menos brilhante de sua auréola.

Em Júpiter, como por toda parte, os que voam mais alto são mais raros. Abaixo deles existem várias categorias de Espíritos inferiores, quer em virtude, quer em poder, mas naturalmente livres para os igualar um dia, pelo aperfeiçoamento. Escalonados e classificados segundo os seus méritos, dedicam-se mais particularmente aos trabalhos que interessam ao próprio planeta e não exercem sobre os mundos inferiores a autoridade todo-poderosa dos primeiros. É verdade que respondem a uma evocação com revelações sábias e boas, mas, pela pressa que demonstram em nos deixar, como pelo laconismo de suas respostas, compreende-se facilmente que têm alhures muito o que fazer e que ainda não se encontram suficientemente desembaraçados a fim de poderem irradiar, simultaneamente, em dois pontos tão distantes um do outro. Enfim, seguindo os menos perfeitos desses Espíritos, mas deles separados por um abismo, vêm os animais que, como únicos criados e únicos operários do planeta, merecem referência muito especial.

Se designamos pelo nome de animais os seres bizarros que ocupam os limites inferiores da escala, é que os próprios Espíritos admitiram o uso e ainda porque a nossa linguagem não possui um termo mais adequado. Essa designação os degrada bastante; entretanto, chamá-los homens seria elevá-los demais. São, na verdade, Espíritos destinados à animalidade, talvez por longo tempo, talvez para sempre, pois nesse ponto os Espíritos não estão todos de acordo e a solução do problema parece pertencer a mundos mais elevados que Júpiter. Contudo, seja qual for o seu futuro, não há equívoco quanto ao seu passado: tais Espíritos, antes de irem para lá, migraram, seguidamente, em nossos mundos inferiores, do corpo de um ao de outro animal, por uma escala de aperfeiçoamento perfeitamente graduada. O estudo atento de nossos animais terrestres, seus costumes, seus caracteres individuais, sua ferocidade longe do homem e sua domesticação lenta, mas sempre possível, tudo indica suficientemente a realidade dessa ascensão animal.

Assim, para qualquer lado que nos voltemos, a harmonia do Universo se resume sempre numa lei única: o progresso por toda parte e para todos, para o animal como para a planta, para a planta como para o mineral. A princípio, um progresso puramente material, nas moléculas insensíveis do metal ou do seixo e cada vez mais inteligente, à medida que subimos na escala dos seres e que a individualidade tende a desembaraçar-se da massa, a se afirmar, a se conhecer.

Esse pensamento é elevado e consolador, como nunca havia sido, porque nos prova que nada é sacrificado; que a recompensa é sempre proporcional ao progresso realizado. Por exemplo: o devotamento do cão que morre por seu dono não é estéril para o seu Espírito, pois terá seu justo salário além deste mundo.

É o caso dos Espíritos animais que povoam Júpiter. Aperfeiçoaram-se ao mesmo tempo que nós, conosco e com a nossa ajuda. A lei é ainda mais admirável: ela tanto faz de seu devotamento ao homem a primeira condição para sua ascensão planetária, que a vontade de um Espírito de Júpiter pode chamar para si todo animal que, numa de suas vidas anteriores, lhe houver dado provas de afeição. Essas simpatias, que lá no alto formam famílias de Espíritos, também agrupam em torno das famílias todo um cortejo de animais dedicados. Consequentemente, nosso apego por um animal, aqui em baixo; o cuidado que temos em amansá-lo e humanizá-lo, tudo tem sua razão de ser, tudo será pago: é um bom serviçal que preparamos antecipadamente para um mundo melhor.

Será assim um operário, pois aos seus semelhantes fica reservado todo trabalho material, todo esforço corporal: carga ou construção, semeadura ou colheita. Para tudo isto a Suprema Inteligência preparou um corpo que participa simultaneamente das vantagens do animal e das do homem. Podemos fazer uma ideia por um esboço de Palissy, representando alguns desses animais muito entretidos a jogar bola. A melhor comparação que poderia fazer seria com os faunos e os sátiros da Fábula. O corpo levemente peludo, apruma-se, no entanto, como o nosso; nalguns, as patas desapareceram, dando lugar a certas pernas que lembram ainda a forma primitiva e a dois braços robustos, singularmente implantados e terminados por duas verdadeiras mãos, se considerarmos a oposição dos polegares. Singularmente, a cabeça não é tão aperfeiçoada quanto o resto. Assim, a fisionomia reflete algo de humano, mas o crânio, o maxilar e sobretudo a orelha, em nada diferem sensivelmente daqueles dos animais terrestres. É, pois, fácil distingui-los entre si: este é um cão, aquele um leão.

Adequadamente vestidos de blusas e vestes muito semelhantes às nossas, só lhes falta a palavra para se parecerem com alguns homens daqui: eis precisamente o que lhes falta e aquilo que eles não poderiam fazer. Hábeis para se entenderem entre si, por meio de uma linguagem que nada tem da nossa, não mais se enganam quanto às intenções dos Espíritos que os dirigem: um olhar, um gesto lhes é bastante. A certos impulsos magnéticos, cujo segredo já conhecem os nossos domadores de feras, o animal adivinha e obedece sem murmurar e, o que é mais importante, voluntariamente, porque está fascinado. É assim que lhe é imposta toda tarefa pesada e que, com seu auxílio, tudo funciona regularmente, de um a outro extremo da escala social: o Espírito elevado pensa e delibera; o Espírito inferior age por sua própria iniciativa e o animal executa. Assim, a concepção, a execução e o fato se unem numa mesma harmonia e levam todas as coisas à sua conclusão, com mais rapidez e pelos meios mais simples e mais seguros.

Peço desculpas por esta digressão: ela era indispensável ao assunto que agora podemos abordar.

Enquanto esperamos os mapas prometidos, que facilitarão singularmente o estudo de todo o planeta, podemos, pelas descrições feitas pelos Espíritos, fazer uma ideia de sua grande cidade, da cidade por excelência, desse foco de luz e de atividade que eles concordam em chamar ─ o que nos parece estranho ─ pelo nome latino de Julnius.

“No maior de nossos continentes”, diz Palissy, “num vale de setecentas a oitocentas léguas de largura, para utilizar vosso sistema de medidas, um rio magnífico desce das montanhas do norte e, aumentado por uma porção de torrentes e ribeirões, forma em seu percurso sete ou oito lagos dos quais o menor mereceria entre vós o nome de mar. Foi sobre as bordas do maior desses lagos, batizado com o nome de a Pérola, que os nossos antepassados lançaram os alicerces de Julnius. Essa cidade primitiva ainda existe, venerada e guardada como preciosa relíquia. Sua arquitetura muito difere da vossa. Tudo isto eu te explicarei a seu tempo: saiba apenas que a cidade moderna fica a algumas centenas de metros da antiga. Apertado entre altas montanhas, o lago se derrama no vale por oito enormes cataratas, que formam outras tantas correntes isoladas e dispersas em todas as direções. Com o auxílio dessas correntes nós cavamos na planície uma porção de regatos, de canais e de lagos, reservando o solo firme apenas para as casas e os jardins. Daí resulta uma espécie de cidade anfíbia, como a vossa Veneza e da qual, à primeira vista, não se poderia dizer se foi construída sobre a terra ou sobre a água. Hoje nada te digo sobre quatro edifícios sagrados construídos a montante das cataratas, de modo que a água jorra em catadupa de seus próprios pórticos. Essas obras vos pareceriam incríveis por sua grandeza e por sua ousadia.

“Aqui descrevo a cidade terrestre, de certo modo material, cidade das ocupações planetárias, enfim aquela a que chamamos a Cidade Baixa. Tem suas ruas, ou melhor, os seus caminhos traçados para o serviço interno; tem suas praças públicas, seus pórticos e suas pontes lançadas sobre os canais, para a passagem dos serviçais. Mas a cidade inteligente, a cidade espiritual, a verdadeira Julnius, enfim, não deve ser procurada no solo. Ela está no ar.

“Para o corpo material de nossos animais incapazes de voar[1] é necessária a terra firme, mas o nosso corpo fluídico e luminoso exige um alojamento aéreo como ele próprio, quase impalpável e móvel à nossa vontade. Nossa habilidade resolveu esse problema com o auxílio do tempo e das condições privilegiadas que o Grande Arquiteto nos concedeu. Bem compreendes que essa conquista dos ares era indispensável a Espíritos como os nossos. Nosso dia é de cinco horas e nossa noite igualmente de cinco, mas tudo é relativo, e para seres prontos a pensar e agir como nós; para Espíritos que se compreendem pela linguagem dos olhos e que sabem comunicar-se magneticamente à distância, nosso dia de cinco horas equivaleria a uma semana de vossas atividades. Isso tudo ainda era muito pouco, em nossa opinião. A imobilidade da morada, o ponto fixo do lar eram um entrave para todas as nossas grandes obras. Hoje, pelo fácil deslocamento dessas moradas de pássaros, pela possibilidade de nos transportarmos, assim como aos nossos, para qualquer lugar do planeta, à hora que bem quisermos, nossa existência no mínimo duplicou, e com ela, tudo quanto ela pode produzir de útil e de grande.

“Em certas épocas do ano”, acrescenta o Espírito, “em certas festas, por exemplo, verás aqui o céu obscurecido pela nuvem de habitações que vêm de todos os pontos do horizonte. É um curioso ajuntamento de moradias esbeltas, graciosas, leves, de todas as formas, de todas as cores, equilibradas em diversas alturas e continuamente em marcha, da cidade baixa para a cidade celeste. Alguns dias depois, faz-se o vazio pouco a pouco e todos esses pássaros se vão.”

Nada falta a essas moradas flutuantes, nem mesmo o encanto da verdura e das flores. Falo de uma vegetação sem similar entre vós, de plantas e até de arbustos que, pela natureza de seus órgãos, vivem, respiram, alimentam-se e se reproduzem no ar.

Diz ainda o mesmo Espírito:

“Temos esses tufos de flores enormes, cujas formas e nuanças nem podeis imaginar, e de uma textura tão delicada, que as torna quase transparentes. Balouçando-se no ar, onde largas folhas as sustêm, providas de gavinhas semelhantes às da videira, reúnem-se em nuvens de mil tons ou se dispersam ao sabor do vento e oferecem um espetáculo encantador aos transeuntes da cidade baixa... Imagina a graça dessas jangadas de verdura, desses jardins flutuantes que nossa vontade pode fazer e desfazer e que por vezes duram toda uma estação! Longos rastilhos de lianas e de ramos floridos se destacam dessas alturas e descem até o solo; cachos enormes se agitam, exalando perfume das pétalas que se destacam... Os Espíritos que viajam pelo ar aí estacionam: é um lugar de repouso e de reencontro e, se assim o desejarem, um meio de transporte para terminar uma viagem sem fadigas e em boa companhia.”

Um outro Espírito estava sentado sobre uma dessas flores no momento em que o evoquei. Disse-me ele:

“Neste instante é noite em Julnius e me acho sentado à distância, numa dessas flores do ar que só se abrem aqui à claridade de nossas luas. A meus pés dormita toda a cidade baixa; mas acima da minha cabeça e em volta de mim, a perder de vista, só há movimento e alegria no espaço. Dormimos pouco: nossa alma é muito desprendida, de modo que as necessidades do corpo não a tiranizam. A noite é feita mais para os nossos servos do que para nós. É a hora das visitas, das conversas longas, dos passeios solitários, dos devaneios, da música. Só vejo moradas aéreas resplendentes de luz ou jangadas de folhas e de flores carregadas de bandos alegres... A primeira de nossas luas ilumina toda a cidade baixa: é uma luz suave, comparável à dos vossos luares; mas, da margem do lago eleva-se a segunda, a de reflexos esverdeados, que dão a todo o rio o aspecto de um vasto gramado...”

É sobre a margem direita desse rio, “cuja água, diz o Espírito, dar-te-ia a impressão da consistência de um vapor muito leve”[2], que está construída a casa de Mozart, cujo desenho Palissy teve a bondade de me fazer reproduzir sobre cobre.

Apresento aqui apenas a fachada do lado sul. A grande entrada fica à esquerda, olhando a planície; à direita fica o rio; ao norte e ao sul estão os jardins. Perguntei a Mozart quem eram seus vizinhos.

─ Mais acima e mais abaixo, dois Espíritos que não conheces, mas à esquerda apenas um grande prado me separa do jardim de Cervantes.

A casa tem quatro faces, como as nossas, mas seria erro considerar isto como regra geral. É construída com uma certa pedra que os animais tiram das pedreiras do norte e cuja cor o Espírito compara aos tons esverdeados que por vezes toma o azul do céu, ao pôr do sol. Quanto a sua dureza, pode-se fazer uma ideia por esta comparação de Palissy: “que ela fundir-se-ia sob a pressão de nossos dedos humanos tão rapidamente quanto um floco de neve, posto seja uma das matérias mais resistentes daquele planeta! Nessas paredes os Espíritos esculpiram ou incrustaram estranhos arabescos que o desenho procura reproduzir. São ornamentos gravados na pedra e depois coloridos, ou incrustações feitas na solidez da pedra verde por um processo atualmente muito em voga e que mantém toda a graça dos contornos dos vegetais, toda a delicadeza de seus tecidos e toda a riqueza de seu colorido. “Uma descoberta”, acrescentou o Espírito, “que fareis um dia e que entre vós mudará muitas coisas.”

A grande janela da direita apresenta um exemplo desse gênero de ornatos: uma de suas bordas mais não é que um enorme caniço, cujas folhas foram conservadas. O mesmo ocorre no coroamento da janela principal, que imita a forma da clave de sol: são plantas sarmentosas enlaçadas e petrificadas. É por tal processo que eles obtêm a maior parte dos coroamentos dos edifícios, dos portões, das balaustradas, etc. Por vezes a planta é colocada na parede, com suas raízes, em condições de crescer livremente. Ela cresce, desenvolve-se, suas flores se espalham ao acaso, e o artista não as petrifica no lugar senão quando adquiriram todo o desenvolvimento desejado para a ornamentação do edifício. A casa de Palissy é quase que inteiramente decorada por esse processo.

Inicialmente destinado só aos móveis, depois aos batentes das portas e das janelas, esse gênero de ornamento aperfeiçoou-se pouco a pouco e acabou por invadir toda a arquitetura. Hoje não são petrificados apenas as flores e os arbustos, mas as próprias árvores, da raiz até a copa. Os palácios, como outros edifícios, praticamente não têm outras colunas.

Uma petrificação da mesma natureza serve também à decoração das janelas. Flores ou folhas muito grandes são habilmente despojadas de sua parte carnuda. Não resta mais que um feixe de fibras, tão finas quanto a mais fina musselina. Cristalizam-nas, e dessas folhas reunidas com arte constroem toda a janela, que apenas filtra para o interior uma luz muito suave. Também as impregnam de uma espécie de vidro líquido e colorido de todos os matizes, que endurece no ar e que transforma a folha numa espécie de vidraça. Do arranjo dessas folhas nas janelas resultam encantadores ramos transparentes e luminosos.

Quanto às dimensões dessas aberturas e a inúmeros outros detalhes que, à primeira vista, podem surpreender, vejo-me obrigado a uma explicação: a história da arquitetura em Júpiter exigiria um volume inteiro. Também desisto de falar no mobiliário, para me restringir, aqui, à disposição geral da casa.

Depois do que precede, o leitor deve ter compreendido que a casa do continente não deve ser para o Espírito mais que uma espécie de pousada.

A cidade baixa quase que só é frequentada por Espíritos de segunda categoria, encarregados dos interesses planetários, da agricultura, por exemplo, ou das trocas e da boa ordem que deve ser mantida entre os serviçais. Assim, todas as casas que estão no solo, geralmente dispõem de um pavimento térreo e um superior, o térreo destinado aos Espíritos que atuam sob a direção do senhor, também acessível aos animais; o outro reservado unicamente ao Espírito, que aí mora apenas ocasionalmente. Eis o que explica o fato de vermos nas diversas casas de Júpiter, nesta, por exemplo, como na de Zoroastro, uma escadaria e até uma rampa. Aquele que rasa a água, como uma andorinha e que pode correr sobre as hastes do trigo sem curvá-las, pode perfeitamente dispensar a escadaria e a rampa para penetrar na sua casa. Mas os Espíritos inferiores não têm o voo tão fácil. Não se elevam senão por movimentos irregulares e nem sempre a rampa lhes é inútil. Enfim, a escadaria é de absoluta necessidade para os animais serviçais, que apenas andam como nós. Estes últimos também possuem seus pavilhões, aliás muito elegantes, e que fazem parte de todas as grandes habitações, mas suas funções os chamam, constantemente, à casa do senhor, e é necessário facilitar-lhes a entrada e o trânsito interno. Daí essas construções originais, cuja base assemelha-se aos nossos edifícios terrestres e dos quais diferem inteiramente na parte superior.

Esta se distingue por uma originalidade que seríamos absolutamente incapazes de imitar. É uma espécie de flecha aérea que balança no topo do edifício, acima da grande janela e de seu original coroamento. A essa gávea delicada e fácil de deslocar está determinado, entretanto, no pensamento do artista, permanecer no lugar que lhe foi definido porque, sem repousar em coisa alguma no frontão, completa-lhe a decoração. Lamentavelmente a dimensão da prancha não permitiu encontrar espaço para ela.

Quanto à morada aérea de Mozart, cabe aqui apenas constatar a sua existência. Os limites deste artigo não permitem que me estenda sobre o assunto.

Não concluirei, entretanto, sem me explicar, de passagem, sobre o gênero de ornamentos que o grande artista escolheu para a sua morada. É fácil identificar-lhe a semelhança com a nossa música terrestre: a clave de sol é ali repetida com frequência e ─ coisa original ─ nunca a clave de fá! Na decoração do rés do chão encontramos um arco de violino, uma espécie de tiorba ou bandolim, uma lira e uma pauta de música. Mais acima há uma grande janela que lembra vagamente a forma de um órgão; as outras têm a aparência de grandes notas, mas as notas pequenas são abundantes por toda a fachada.

Seria erro concluir que a música de Júpiter seja comparável à nossa e que se represente pelos mesmos sinais. Mozart explicou-se sobre isto, de maneira a não deixar dúvidas. Mas, na decoração de suas casas, os Espíritos lembram a missão terrestre que lhes deu o mérito da encarnação em Júpiter e que resume magnificamente a feição de sua inteligência. Assim, na casa de Zoroastro são os astros e a chama que constituem todos os elementos decorativos.

Além disto, parece que esse simbolismo tem suas regras e seus segredos. Esses ornamentos todos não se dispõem ao acaso. Eles têm sua ordem lógica e sua significação precisa, mas é uma arte que os Espíritos de Júpiter se abstêm de fazernos compreender, pelo menos por enquanto, e sobre a qual não se explicam de bom grado.

Nossos antigos arquitetos também empregavam o simbolismo na decoração de suas catedrais. A Torre de São Tiago é um poema hermético, se dermos crédito à tradição. Portanto, não há motivo para nos admirarmos da originalidade da decoração arquitetônica em Júpiter. Se ela contraria as nossas ideias sobre a arte humana é que, na verdade, existe um abismo entre uma arquitetura que vive e fala e uma alvenaria inexpressiva como a nossa. Nisto, como em tudo o mais, a prudência nos permite evitar esse erro do relativismo, que quer reduzir tudo às proporções e aos hábitos do homem terreno. Se os habitantes de Júpiter morassem como nós, comessem, vivessem, dormissem e andassem como nós, não haveria muita vantagem em ir para lá. É porque o seu planeta difere muito do nosso que desejamos conhecê-lo e sonhamos com ele como nossa futura morada.

De minha parte, penso que não perdi meu tempo e ficaria muito feliz por me haverem os Espíritos escolhido para seu intérprete se os seus desenhos e as suas descrições inspirarem a um só crente o desejo de subir mais rapidamente para Julnius e a coragem de tudo fazer para consegui-lo.

VICTORIEN SARDOU

***

O autor desta interessante descrição é um desses adeptos fervorosos e esclarecidos que não temem confessar alto e bom som as suas crenças e colocam-se acima da crítica daqueles que não creem em nada além do seu círculo de ideias. Ligar seu nome a uma doutrina nova, desafiando sarcasmos, é uma coragem que não é dada a todos. Felicitamos ao Sr. V. Sardou porque a possui. Seu trabalho revela o distinto escritor que, jovem ainda, já conquistou um lugar de honra na literatura e alia ao talento de escritor profundos conhecimentos de sábio. É mais uma prova de que o Espiritismo não recruta entre os tolos e ignorantes. Fazemos votos para que o Sr. Sardou complete o mais breve possível o seu trabalho tão auspiciosamente começado. Se os astrônomos nos desvendam, por sábias pesquisas, o mecanismo do Universo, por suas revelações os Espíritos nos dão a conhecer o seu estado moral e, como eles mesmos dizem, é com o objetivo de motivar-nos ao bem, a fim de merecermos uma vida melhor.

ALLAN KARDEC.[3]

[1] Entretanto há que excetuar certos animais alados e destinados ao serviço do ar e aos trabalhos que entre nós exigiriam carpinteiros. É uma transformação da ave, como os animais acima descritos são uma transformação dos quadrúpedes.


[2] A densidade de Júpiter é de 0,23, ou seja, pouco mais ou menos um quarto da densidade da Terra. Tudo quanto o Espírito diz aqui é muito verossímil. Compreende-se que tudo é relativo e que nesse globo etéreo, tudo, como ele, seja etéreo.




[3] Paris. Tipografia de Cosson & Cia, Rua do Four-Saint-Germain, 43.



TEXTOS RELACIONADOS

Mostrar itens relacionados
Aguarde, carregando...