Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

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1. ─ Por que motivo o homem que tem a firme intenção de se matar revoltar-seia contra a ideia de ser morto por outro e defender-se-ia contra os ataques, no mesmo instante em que vai cumprir o seu desígnio?

─ Porque o homem tem sempre medo da morte. Quando se suicida, está superexcitado, com a cabeça transtornada, e realiza esse ato sem coragem nem medo e, por assim dizer, sem ter conhecimento do que faz, ao passo que se lhe fosse dado raciocinar, não veríamos tantos suicídios. O instinto do homem leva-o a defender a própria vida e, durante o tempo que decorre entre o momento em que o seu semelhante se aproxima para matá-lo e o momento em que o ato é cometido, tem ele sempre um movimento de repulsa instintiva da morte, que o leva a repelir esse fantasma que só é apavorante para o Espírito culpado. O homem que se suicida não experimenta tal sentimento porque se acha cercado de Espíritos que o impelem, que o ajudam em seus desejos e lhe fazem perder completamente a lembrança do que não seja ele mesmo, isto é, dos pais, daqueles que o amam e de outra existência. Nesse momento o homem é todo egoísmo.


2. ─ Aquele que está desgostoso da vida mas não quer suicidar-se e deseja que sua morte sirva para alguma coisa será culpado se a buscar no campo de batalha, defendendo o seu país?

─ Sempre. O homem deve seguir o impulso que lhe é dado. Seja qual for a carreira que abrace; seja qual for a vida que leve, é sempre assistido por Espíritos que o conduzem e o dirigem, malgrado seu. Ora, procurar agir contra os seus conselhos é um crime, porque eles aí estão para nos dirigir e quando queremos agir por nós mesmos, esses bons Espíritos estão prontos a ajudar-nos. Entretanto, se o homem, arrastado por seu próprio Espírito, quer deixar esta vida, é abandonado. Mais tarde reconhece sua falta, quando se vê obrigado a recomeçar numa outra existência. Para elevar-se, deve o homem ser provado. Impedir sua ação e pôr um entrave em seu livre-arbítrio seria ir contra Deus e neste caso as provas tornar-seiam inúteis, porque os Espíritos não cometeriam faltas. O Espírito foi criado simples e ignorante. Para chegar às esferas felizes, é necessário que ele progrida e que se eleve em conhecimento e sabedoria, e é somente na adversidade que ele adquire um coração elevado e melhor compreende a grandeza de Deus.

3. ─ Um dos assistentes observou que notava uma contradição entre estas últimas palavras de São Luís e as precedentes, quando disse que o homem pode ser arrastado ao suicídio pelos Espíritos que a isto o excitam. Neste caso cederia a um impulso estranho.

─ Não existe contradição. Quando eu disse que o homem impelido ao suicídio era cercado de Espíritos que a isto o solicitavam, não me referia aos bons Espíritos, que fazem todo esforço para dissuadi-lo; isto deveria estar subentendido. Sabemos todos que temos um anjo da guarda ou, se preferis, um guia familiar. Ora, o homem tem o seu livre-arbítrio; se, a despeito dos bons conselhos que lhe são dados, persevera nessa ideia criminosa, ele a realiza, no que é ajudado pelos Espíritos levianos e impuros, que o cercam e que se sentem felizes por ver que ao homem, ou Espírito encarnado, também falta a coragem para seguir conselhos de seu bom guia e por vezes de Espíritos de parentes mortos que o rodeiam, sobretudo em circunstâncias semelhantes.

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