Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

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Bernard Palissy (9 de março de 1958)

NOTA: Por evocações anteriores, sabíamos que Bernard Palissy, o célebre oleiro do século XVI, habita Júpiter. As respostas que se seguem confirmam, em todos os pontos, quanto nos foi dito sobre esse planeta, em várias ocasiões, por outros Espíritos e através de diferentes médiuns. Pensamos que serão lidas com interesse, como complemento do quadro que traçamos em nosso último número. A identidade que apresentam com as descrições anteriores é um fato notável que vale pelo menos como uma presunção de exatidão.

  • 1. ─ Para onde foste ao deixar a Terra?
  • ─ Ainda me demorei nela.
  • 2. Em que condições estavas aqui?
  • ─ Sob o aspecto de uma mulher amorosa e dedicada. Era uma simples missão.
  • 3. ─ Essa missão durou muito?
  • ─ Trinta anos.
  • 4. ─ Lembras-te do nome dessa mulher?
  • ─ Era obscuro.
  • 5. ─ Agrada-te a estima em que são tidas as tuas obras? Isto te compensa os
  • sofrimentos que suportaste?
  • ─ Que me importam as obras materiais de minhas mãos? O que me importa é o
  • sofrimento que me elevou.
  • 85
  • 6. ─ Com que fim traçaste, pela mão do Sr. Victorien Sardou27 os admiráveis
  • desenhos que nos deste sobre o planeta Júpiter, onde habitas?
  • ─ Com o fim de vos inspirar o desejo de vos tornardes melhores.
  • 7. ─ Tendo em vista que vens com frequência a esta Terra que habitaste várias
  • vezes, deves conhecer bastante o seu estado físico e moral para estabelecer uma
  • comparação entre ela e Júpiter. Pediríamos que nos elucidasses sobre diversos
  • pontos.
  • ─ Ao vosso globo venho apenas como Espírito. O Espírito não tem mais
  • sensações materiais.

Descrição de Jupíter

NOTA: Por evocações anteriores, sabíamos que Bernard Palissy, o célebre oleiro do século XVI, habita Júpiter. As respostas que se seguem confirmam, em todos os pontos, quanto nos foi dito sobre esse planeta, em várias ocasiões, por outros Espíritos e através de diferentes médiuns. Pensamos que serão lidas com interesse, como complemento do quadro que traçamos em nosso último número. A identidade que apresentam com as descrições anteriores é um fato notável que vale pelo menos como uma presunção de exatidão.


  • 1. ─ Para onde foste ao deixar a Terra?
  • ─ Ainda me demorei nela.
  • 2. Em que condições estavas aqui?
  • ─ Sob o aspecto de uma mulher amorosa e dedicada. Era uma simples missão.
  • 3. ─ Essa missão durou muito?
  • ─ Trinta anos.
  • 4. ─ Lembras-te do nome dessa mulher?
  • ─ Era obscuro.
  • 5. ─ Agrada-te a estima em que são tidas as tuas obras? Isto te compensa os
  • sofrimentos que suportaste?
  • ─ Que me importam as obras materiais de minhas mãos? O que me importa é o
  • sofrimento que me elevou.
  • 85
  • 6. ─ Com que fim traçaste, pela mão do Sr. Victorien Sardou27 os admiráveis
  • desenhos que nos deste sobre o planeta Júpiter, onde habitas?
  • ─ Com o fim de vos inspirar o desejo de vos tornardes melhores.
  • 7. ─ Tendo em vista que vens com frequência a esta Terra que habitaste várias
  • vezes, deves conhecer bastante o seu estado físico e moral para estabelecer uma
  • comparação entre ela e Júpiter. Pediríamos que nos elucidasses sobre diversos
  • pontos.
  • ─ Ao vosso globo venho apenas como Espírito. O Espírito não tem mais
  • sensações materiais.


Estado físico do globo

  • 8. ─ Pode-se comparar a temperatura de Júpiter à de uma de nossas latitudes?
  • ─ Não. Ela é suave e temperada; é sempre igual, enquanto a vossa varia.
  • Lembrai-vos dos Campos Elíseos, cuja descrição já vos fizeram.
  • 9. ─ O quadro que os Antigos nos deram dos Campos Elíseos seria resultado do
  • conhecimento intuitivo que eles tinham de um mundo superior, tal como Júpiter, por
  • exemplo?
  • ─ Do conhecimento positivo. A evocação permanecia nas mãos dos sacerdotes.
  • 10 ─ A temperatura, como aqui, varia conforme a latitude?
  • ─ Não.
  • 11. ─ Segundo os nossos cálculos, o Sol deve aparecer aos habitantes de Júpiter
  • em tamanho muito pequeno e, consequentemente, dar muito pouca luz. Podes dizernos
  • se a intensidade da luz é ali igual à da Terra ou se é menos forte?
  • ─ Júpiter é cercado de uma espécie de luz espiritual, em relação com a essência
  • de seus habitantes. A luz grosseira de vosso Sol não foi feita para eles.
  • 12. ─ Há uma atmosfera?
  • ─ Sim.
  • 13. ─ A atmosfera de Júpiter é formada dos mesmos elementos que a atmosfera
  • terrestre?
  • ─ Não. Os homens não são os mesmos. Suas necessidades mudaram.
  • 14. ─ Lá existe água e mares?
  • ─ Sim.
  • 15. ─ A água é formada dos mesmos elementos que a nossa?
  • ─ Mais etérea.
  • 16. ─ Há vulcões?
  • ─ Não. Nosso globo não é atormentado como o vosso. Lá a Natureza não teve
  • suas grandes crises. É a morada dos bem-aventurados. Nele, a matéria quase não
  • existe.
  • 17. ─ As plantas têm analogia com as nossas?
  • ─ Sim, mas são mais belas.


Estado físico dos habitantes


  • 18. ─ A conformação do corpo dos seus habitantes tem relação com a nossa?
  • ─ Sim, ela é a mesma.
  • 19. ─ Podes dar-nos uma ideia de sua estatura, comparada com a dos habitantes
  • 27 Victorien Sardou, médium psicógrafo que trabalhou com Allan Kardec. Embora não soubesse desenho, foi o
  • instrumento para os esplêndidos quadros de cenas de outros planetas. Foi membro da Academia Francesa e um dos mais
  • fecundos comediógrafos franceses. (N. do T.)
  • 86
  • da Terra?
  • ─ Grandes e bem proporcionados. Maiores que os vossos maiores homens. O
  • corpo do homem é como o molde de seu espírito: belo, onde ele é bom. O envoltório
  • é digno dele: não é mais uma prisão.
  • 20. ─ Lá os corpos são opacos, diáfanos ou translúcidos?
  • ─ Há uns e outros. Uns têm tal propriedade, outros têm outra, conforme a sua
  • finalidade.
  • 21. ─ Compreendemos isto em relação aos corpos inertes. Mas nossa pergunta
  • refere-se aos corpos humanos.
  • ─ O corpo envolve o Espírito sem ocultá-lo, como um tênue véu lançado sobre
  • uma estátua. Nos mundos inferiores o envoltório grosseiro oculta o Espírito aos seus
  • semelhantes. Mas os bons nada mais têm a ocultar: cada um pode ler no coração dos
  • outros. Que aconteceria se assim fosse aqui?
  • 22. ─ Lá existe diferença de sexo?
  • ─ Sim, há por toda parte onde existe a matéria; é uma lei da matéria.
  • 23. ─ Qual é a base da alimentação dos habitantes? É animal e vegetal como
  • aqui?
  • ─ Puramente vegetal. O homem é o protetor dos animais.
  • 24. ─ Disseram-nos que parte de sua alimentação é extraída do meio ambiente,
  • cujas emanações eles aspiram. É verdade?
  • ─ Sim.
  • 25. ─ Comparada com a nossa, a duração da vida é mais longa ou mais curta?
  • ─ Mais longa.
  • 26. ─ Qual é a duração média da vida?
  • ─ Como medir o tempo?
  • 27. ─ Não podes tomar um dos nossos séculos como termo de comparação?
  • ─ Creio que mais ou menos cinco séculos
  • 28. ─ O desenvolvimento da infância é proporcionalmente mais rápido que o
  • nosso?
  • ─ O homem conserva sua superioridade: a infância não comprime a
  • inteligência nem a velhice a extingue.
  • 29. ─ Os homens são sujeitos a doenças?
  • ─ Não estão sujeitos aos vossos males.
  • 30. ─ A vida está dividida entre o sono e a vigília?
  • ─ Entre a ação e o repouso.
  • 31. ─ Poderias dar-nos uma ideia das várias ocupações dos homens?
  • ─ Teria que falar muito. Sua principal ocupação é o encorajamento dos
  • Espíritos que habitam os mundos inferiores, a fim de que perseverem no bom
  • caminho. Não havendo entre eles infortúnios a serem aliviados, vão procurá-los
  • onde esses existem: são os bons Espíritos que vos amparam e vos atraem para o bom
  • caminho.
  • 32. ─ Lá são cultivadas algumas artes?
  • ─ Lá elas são inúteis. As vossas artes são brinquedos que distraem as vossas
  • dores.
  • 33. ─ A densidade específica do corpo humano permite ao homem transportarse
  • de um a outro ponto, sem ficar, como aqui, preso ao solo?
  • ─ Sim.
  • 34. ─ Existem lá o tédio e o desgosto da vida?
  • ─ Não. O desgosto da vida origina-se no desprezo de si mesmo.
  • 35. ─ Sendo o corpo dos habitantes de Júpiter menos denso que os nossos, é
  • formado de matéria compacta e condensada ou vaporosa?
  • ─ Compacta para nós, mas não para vós. Ela é menos condensada.
  • 36. ─ O corpo, considerado como feito de matéria, é impenetrável?
  • ─ Sim.
  • 37. ─ Os habitantes têm, como nós, uma linguagem articulada?
  • ─ Não. Há entre eles a comunicação pelo pensamento.
  • 38. ─ A segunda vista é, como nos informaram, uma faculdade normal e
  • permanece entre vós?
  • ─ Sim. O Espírito não conhece entraves. Nada lhe é oculto.
  • 39. ─ Se nada é oculto ao Espírito, conhece ele o futuro? (Referimo-nos aos
  • Espíritos encarnados em Júpiter).
  • ─ O conhecimento do futuro depende do grau de perfeição do Espírito: isto tem
  • menos inconvenientes para nós do que para vós; é-nos mesmo necessário, até certo
  • ponto, para a realização das missões de que nos incumbem. Mas dizer que
  • conhecemos o futuro sem restrições seria nivelar-nos a Deus.
  • 40. ─ Podeis revelar-nos tudo quanto sabeis sobre o futuro?
  • ─ Não. Esperai até que tenhais merecido sabê-lo.
  • 41. ─ Comunicai-vos mais facilmente que nós com os outros Espíritos?
  • ─ Sim; sempre. Não existe mais a matéria entre eles e nós.
  • 42. ─ A morte inspira o mesmo horror e pavor que entre nós?
  • ─ Por que seria ela apavorante? Entre nós já não existe o mal. Só o mau se
  • apavora ante o seu último instante. Ele teme o seu juiz.
  • 43. ─ Em que se transformam os habitantes de Júpiter depois da morte?
  • ─ Crescem sempre em perfeição, sem passar por mais provas.
  • 44. ─ Não haverá em Júpiter Espíritos que se submetam a provas a fim de
  • cumprir uma missão?
  • ─ Sim, mas não é uma prova. Só o amor do bem os leva ao sofrimento.
  • 45. ─ Podem eles falhar em sua missão?
  • ─ Não, porque são bons. Só existe fraqueza onde há defeitos.
  • 46. ─ Poderias nomear alguns dos Espíritos habitantes de Júpiter que tenham
  • desempenhado uma grande missão na Terra?
  • ─ São Luís.
  • 47. ─ Não poderias nomear outros?
  • ─ Que vos importa? Há missões desconhecidas, cujo objetivo é a felicidade de
  • um só. Por vezes são as maiores e as mais dolorosas.
Dos animais


  • 48. ─ O corpo dos animais é mais material que o dos homens?
  • ─ Sim. O homem é o rei, o deus planetário.
  • 49. ─ Há animais carnívoros?
  • ─ Os animais não se estraçalham mutuamente. Vivem todos submetidos ao
  • homem e se amam entre si.
  • 50. ─ Há porém animais que escapam à ação do homem, assim como os
  • insetos, os peixes e os pássaros?
  • ─ Não. Todos lhe são úteis.
  • 51. ─ Disseram-nos que os animais são os operários e os capatazes que
  • executam os trabalhos materiais, constroem as habitações, etc. É exato?
  • ─ Sim. O homem não mais se rebaixa para servir ao semelhante.
  • 52. ─ Os animais servidores estão ligados a uma pessoa ou família, ou são
  • tomados e trocados à vontade, como aqui?
  • ─ Todos estão ligados a uma família particular. Vós mudais à procura do
  • melhor.
  • 53. ─ Os animais servidores vivem em escravidão ou no estado de liberdade?
  • São uma propriedade, ou podem, à vontade, mudar de patrão?
  • ─ Estão no estado de submissão.
  • 88
  • 54. ─ Os animais trabalhadores recebem alguma remuneração por seus
  • trabalhos?
  • ─ Não.
  • 55. ─ As faculdades dos animais são desenvolvidas por uma espécie de
  • educação?
  • ─ Eles as desenvolvem por si mesmos.
  • 56. ─ Têm os animais uma linguagem mais precisa e caracterizada que a dos
  • animais terrenos?
  • ─ Certamente.
Estado moral dos habitantes



  • 57. ─ As habitações de que nos deste uma mostra nos teus desenhos estão
  • reunidas em cidades como aqui?
  • ─ Sim. Aqueles que se amam se reúnem. Só as paixões estabelecem a solidão
  • em torno do homem. Se o homem ainda mau procura o seu semelhante, que é para
  • ele um instrumento de dor, por que o homem puro e virtuoso deveria fugir de seu
  • irmão?
  • 58. ─ Os Espíritos são iguais ou de várias graduações?
  • ─ De diversos graus, mas da mesma ordem.
  • 59. ─ Pedimos que te reportes especialmente à escala espírita que demos no
  • segundo número da Revista e que nos digas a que ordem pertencem os Espíritos
  • encarnados em Júpiter.
  • ─ Todos bons, todos superiores. Por vezes o bem desce até o mal; entretanto, o
  • mal jamais se mistura com o bem.
  • 60. ─ Os habitantes formam diferentes povos como aqui na Terra?
  • ─ Sim, mas todos unidos entre si pelos laços do amor.
  • 61. ─ Sendo assim, as guerras são desconhecidas?
  • ─ Pergunta inútil.
  • 62. ─ O homem poderá chegar, na Terra, a um tal grau de perfeição que a
  • guerra fosse desnecessária?
  • ─ Ele chegará a isto, sem a menor dúvida. A guerra desaparecerá com o
  • egoísmo dos povos e à medida que melhor seja compreendida a fraternidade.
  • 63. ─ Os povos são governados por chefes?
  • ─ Sim.
  • 64. ─ Em que consiste a autoridade dos chefes?
  • ─ No seu grau superior de perfeição.
  • 65. ─ Em que consiste a superioridade e a inferioridade dos Espíritos em
  • Júpiter, de vez que todos são bons?
  • ─ Eles têm maior ou menor soma de conhecimentos e de experiência; depuramse
  • à medida que se esclarecem.
  • 66. ─ Como aqui na Terra, lá existem povos mais ou menos avançados que
  • outros?
  • ─ Não, mas entre os povos há diversos graus.
  • 67. ─ Se o povo mais adiantado da Terra fosse transportado para Júpiter, que
  • posição ocuparia?
  • ─ A que entre vós é ocupada pelos macacos.
  • 68. ─ Lá os povos se regem por leis?
  • ─ Sim.
  • 69. ─ Há leis penais?
  • ─ Não há mais crimes.
  • 89
  • 70. ─ Quem faz as leis?
  • ─ Deus as fez.
  • 71 ─ Há ricos e pobres? Por outras palavras: há homens que vivem na
  • abundância e no supérfluo e outros a quem falta o necessário?
  • ─ Não. Todos são irmãos. Se um possuísse mais do que o outro, com esse
  • repartiria; não seria feliz quando seu irmão fosse necessitado.
  • 72. ─ De acordo com isso as fortunas de todos seriam iguais?
  • ─ Eu não disse que todos são igualmente ricos. Perguntaste se haveria gente
  • com o supérfluo enquanto a outros faltasse o necessário.
  • 73. ─ As duas respostas se nos afiguram contraditórias. Pedimos que
  • estabeleças a concordância.
  • ─ A ninguém falta o necessário; ninguém tem o supérfluo. Por outras palavras,
  • a fortuna de cada um está em relação com a sua condição. Estais satisfeito?
  • 74. ─ Agora compreendemos. Mas te perguntamos, entretanto, se aquele que
  • tem menos não é infeliz em relação àquele que tem mais?
  • ─ Ele não pode sentir-se infeliz, se nem é invejoso nem ciumento. A inveja e o
  • ciúme produzem mais infelizes que a miséria.
  • 75. ─ Em que consiste a riqueza em Júpiter?
  • ─ Em que isto vos importa?
  • 76. ─ Há desigualdades sociais?
  • ─ Sim.
  • 77. ─ Em que estas se fundam?
  • ─ Nas leis da sociedade. Uns são mais adiantados que outros na perfeição. Os
  • superiores têm sobre os outros uma espécie de autoridade, como um pai sobre os
  • filhos.
  • 78. ─ As faculdades do homem são desenvolvidas pela educação?
  • ─ Sim.
  • 79. ─ Pode o homem adquirir bastante perfeição na Terra para merecer passar
  • imediatamente a Júpiter?
  • ─ Sim. Mas na Terra o homem é submetido a imperfeições a fim de estar em
  • relação com os seus semelhantes.
  • 80. ─ Quando um Espírito deixa a Terra e deve reencarnar-se em Júpiter, fica
  • errante durante algum tempo, até encontrar o corpo a que se deve unir?
  • ─ Fica errante durante algum tempo, até que se tenha livrado das imperfeições
  • terrenas.
  • 81. ─ Há várias religiões?
  • ─ Não. Todos professam o bem e todos adoram um só Deus.
  • 82. ─ Há templos e um culto?
  • ─ Por templo há o coração do homem; por culto, o bem que ele faz.

Mehmet-Ali, antigo pachá do Egito (16 de março de 1858)


  • 1. ─ O que vos induziu a atender ao nosso apelo?
  • ─ Vim para vos instruir.
  • 28 Mehemet-Ali nasceu em 1769 em Kavala, na Romélia. Em 1805 foi feito paxá do Egito. Participou, ao lado do
  • sultão, ao qual há uma alusão neste diálogo, da guerra greco-turca. Depois se voltou contra o sultão, em duas guerras
  • contra a Porta, em 1832 e 1839. Vitorioso, com a ajuda de seu filho Ibrahim, foi aquele sultão obrigado a reconhecer a
  • hereditariedade do paxalato do Egito. Para tanto, destruiu a milícia turca do Cairo, em 1811; organizou o Estado à
  • maneira europeia, principalmente a agricultura, as indústrias e o exército. Faleceu em 1849. Foi o verdadeiro criador do
  • Egito moderno. (N. do T.)
  • 90
  • 2. ─ Estais contrariado por vir até nós e por terdes de responder às perguntas
  • que desejamos fazer?
  • ─ Não. Desejo mesmo responder às que tiverem por fim a vossa instrução.
  • 3. ─ Que provas poderemos ter de vossa identidade? Como é possível saber que
  • não foi um outro Espírito que tomou o vosso nome?
  • ─ Qual seria a vantagem?
  • 4. ─ Sabemos por experiência que muitas vezes os Espíritos inferiores tomam
  • nomes supostos. Eis por que vos fizemos essa pergunta.
  • ─ Eles tomam também os elementos de prova. Mas o Espírito que põe uma
  • máscara também se revela pelas próprias palavras.
  • 5. ─ Sob que forma e em que lugar vos encontrais entre nós?
  • ─ Sob aquela que tem o nome de Mehemet-Ali; perto de Ermance.
  • 6. ─ Gostaríeis que vos déssemos um lugar especial?
  • ─ Sim. A cadeira vazia.
  • OBSERVAÇÃO: Havia uma cadeira vaga, a que ninguém havia prestado
  • atenção.
  • 7. ─ Tendes uma lembrança nítida de vossa última existência corpórea?
  • ─ Não a tenho ainda nítida, pois a morte me deixou sua perturbação.
  • 8. ─ Sois feliz?
  • ─ Não. Sou desgraçado.
  • 9. ─ Estais errante ou reencarnado?
  • ─ Errante.
  • 10. ─ Recordais-vos daquilo que fostes na existência anterior a esta?
  • ─ Eu era um pobre na Terra. Invejei as grandezas terrenas e subi para sofrer.
  • 11. ─ Se puderdes renascer na Terra, que condição escolhereis de preferência?
  • ─ A obscura: os deveres são menores.
  • 12. ─ Que pensais agora da posição que ocupastes ultimamente na Terra?
  • ─ Pura vaidade! Quis conduzir os homens. Sabia eu conduzir-me a mim
  • mesmo?
  • 13. ─ Dizia-se que já há algum tempo a vossa razão estava alterada. É verdade?
  • ─ Não.
  • 14. ─ A opinião pública aprecia aquilo que fizestes pela civilização do Egito e
  • por isso vos coloca entre os grandes príncipes. Ficais satisfeito com isso?
  • ─ Que me importa? A opinião dos homens é o vento do deserto que levanta o
  • pó.
  • 15. ─ Vedes com prazer os vossos descendentes seguindo o mesmo caminho?
  • Os seus esforços vos interessam?
  • ─ Sim, porque eles têm por objetivo o bem comum.
  • 16. ─ Entretanto sois acusado de atos de grande crueldade. Agora os lamentais?
  • ─ Eu os expio.
  • 17. ─ Vedes aqueles a quem mandastes massacrar?
  • ─ Sim.
  • 18. ─ Que sentimento experimentam eles a vosso respeito?
  • ─ Ódio e piedade.
  • 19. ─ Desde que deixastes essa vida não mais revistes o sultão Mahmud?
  • ─ Sim. Em vão fugimos um do outro.
  • 20. ─ Que sentimento experimentais reciprocamente?
  • ─ O de aversão.
  • 21. ─ Qual a vossa opinião atual sobre as penas e recompensas que nos
  • esperam depois da morte?
  • ─ A expiação é justa.
  • 91
  • 22. ─ Qual o maior obstáculo que tivestes de vencer para a realização de vossos
  • planos progressistas?
  • ─ Eu reinava sobre escravos.
  • 23. ─ Pensais que se o povo que tivestes de governar fosse cristão, teria sido
  • menos rebelde à civilização?
  • ─ Sim. A religião cristã eleva a alma; a maometana apenas fala à matéria.
  • 24. ─ Quando vivo, vossa fé na religião muçulmana era absoluta?
  • ─ Não. Eu considerava Deus maior.
  • 25. ─ Que pensais agora dessa religião?
  • ─ Ela não forma os homens.
  • 26. ─ Na vossa opinião, Maomé tinha missão divina?
  • ─ Sim, mas a desvirtuou.
  • 27. ─ Em que a desvirtuou?
  • ─ Ele quis reinar.
  • 28. ─ Que pensais de Jesus?
  • ─ Esse vinha de Deus.
  • 29. ─ Na vossa opinião, quem fez mais pela felicidade humana: Jesus ou
  • Maomé?
  • ─ Por que o perguntais? Qual o povo que foi regenerado por Maomé? A
  • religião cristã saiu pura das mãos de Deus; a maometana é obra de um homem.
  • 30. ─ Credes que uma dessas duas religiões esteja destinada a apagar-se da face
  • da Terra?
  • ─ O homem progride sempre. A melhor perdurará.
  • 31. ─ Que pensais da poligamia, consagrada pela religião muçulmana?
  • ─ É um dos laços que retêm na barbárie os povos que a professam.
  • 32. ─ Credes que a escravidão da mulher seja conforme os desígnios de Deus?
  • ─ Não. A mulher é igual ao homem, de vez que o Espírito não tem sexo.
  • 33. ─ Diz-se que o povo árabe não pode ser conduzido senão pelo rigor. Não
  • pensais que os maus tratos, em vez de o submeterem, apenas o embrutecem?
  • ─ Sim. Este é o destino do homem. Ele se avilta quando escravizado.
  • 34. ─ Podeis transportar-vos à Antiguidade, quando o Egito era florescente, e
  • dizer-nos as causas de sua decadência moral?
  • ─ A corrupção dos costumes.
  • 35. ─ Parece que ligais pouca importância aos monumentos históricos que
  • cobrem o solo do Egito. Não podemos compreender tal indiferença por parte de um
  • príncipe amigo do progresso.
  • ─ Que importa o passado! O presente não o substituiria.
  • 36. ─ Poderíeis explicar-vos mais claramente?
  • ─ Sim. Era desnecessário relembrar ao egípcio degradado um passado muito
  • brilhante, pois não o teria compreendido. Desdenhei aquilo que me parecia inútil. Eu
  • não podia enganar-me?
  • 37. ─ Os sacerdotes do antigo Egito conheciam a Doutrina Espírita?
  • ─ Era a deles.
  • 38. ─ Eles recebiam manifestações?
  • ─ Sim.
  • 39. ─ As manifestações recebidas pelos sacerdotes egípcios tinham a mesma
  • fonte que as recebidas por Moisés?
  • ─ Sim. Ele foi iniciado por aqueles.
  • 40. ─ Por que, então, as manifestações recebidas por Moisés eram mais
  • potentes que as recebidas pelos sacerdotes egípcios?
  • ─ Moisés queria revelar, enquanto os sacerdotes egípcios queriam apenas
  • ocultá-las.
  • 41. ─ Pensais que a doutrina dos sacerdotes egípcios tinha alguma ligação com
  • 92
  • a dos indianos?
  • ─ Sim. Todas as religiões-mães estão ligadas entre si por laços quase invisíveis.
  • Elas procedem de uma mesma fonte.
  • 42. ─ Dessas duas religiões, isto é, a dos egípcios e a dos indianos, qual a
  • matriz?
  • ─ Elas são irmãs.
  • 43.─ Como é que vós, que em vida éreis tão pouco esclarecido sobre estes
  • assuntos, podeis agora responder com tanta profundidade?
  • ─ Outras existências me ensinaram.
  • 44. ─ No estado de erraticidade em que agora vos encontrais, tendes pleno
  • conhecimento de vossas existências anteriores?
  • ─ Sim, salvo da última.
  • 45. ─ Vivestes, então, no tempo dos Faraós?
  • ─ Sim. Três vezes vivi na terra egípcia: como sacerdote, como mendigo e como
  • príncipe.
  • 46. ─ Sob que reinado fostes sacerdote?
  • ─ Já faz tanto tempo! O príncipe era o vosso Sesóstris.
  • 47. ─ Assim sendo, dir-se-ia que não progredistes, pois que agora expiais os
  • erros de vossa última existência.
  • ─ Sim, mas progredi lentamente. Acaso eu era perfeito por ser um sacerdote?
  • 48. ─ É porque fostes sacerdote naqueles tempos que nos pudestes falar com
  • conhecimento de causa da antiga religião dos Egípcios?
  • ─ Sim, mas não sou suficientemente perfeito para tudo saber. Outros leem o
  • passado como num livro aberto.
  • 49. ─ Poderíeis explicar-nos o motivo da construção das pirâmides?
  • ─ É muito tarde.
  • NOTA: Eram quase onze horas da noite.
  • 50. ─ Não vos faremos senão esta pergunta. Pedimos que tenhais a bondade de
  • respondê-la.
  • ─ Não. É muito tarde. Esta pergunta traria outras mais.
  • 51. ─ Poderíeis fazer-nos o favor de responder em outra ocasião?
  • ─ Não me comprometo.
  • 52. ─ Não obstante, nós vos agradecemos a benevolência com que nos
  • respondestes às outras perguntas.
  • ─ Bem! Eu voltarei.

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