Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1858

Allan Kardec

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1. ─ O que vos induziu a atender ao nosso apelo?
─ Vim para vos instruir.

2. ─ Estais contrariado por vir até nós e por terdes de responder às perguntas que desejamos fazer?
─ Não. Desejo mesmo responder às que tiverem por fim a vossa instrução.

3. ─ Que provas poderemos ter de vossa identidade? Como é possível saber que não foi um outro Espírito que tomou o vosso nome?
─ Qual seria a vantagem?

4. ─ Sabemos por experiência que muitas vezes os Espíritos inferiores tomam nomes supostos. Eis por que vos fizemos essa pergunta.
─ Eles tomam também os elementos de prova. Mas o Espírito que põe uma máscara também se revela pelas próprias palavras.

5. ─ Sob que forma e em que lugar vos encontrais entre nós?
─ Sob aquela que tem o nome de Mehemet-Ali; perto de Ermance.

6. ─ Gostaríeis que vos déssemos um lugar especial?
─ Sim. A cadeira vazia.

OBSERVAÇÃO: Havia uma cadeira vaga, a que ninguém havia prestado atenção.

7. ─ Tendes uma lembrança nítida de vossa última existência corpórea?
─ Não a tenho ainda nítida, pois a morte me deixou sua perturbação.

8. ─ Sois feliz?
─ Não. Sou desgraçado.

9. ─ Estais errante ou reencarnado?
─ Errante.

10. ─ Recordais-vos daquilo que fostes na existência anterior a esta?
─ Eu era um pobre na Terra. Invejei as grandezas terrenas e subi para sofrer.

11. ─ Se puderdes renascer na Terra, que condição escolhereis de preferência?
─ A obscura: os deveres são menores.

12. ─ Que pensais agora da posição que ocupastes ultimamente na Terra?
─ Pura vaidade! Quis conduzir os homens. Sabia eu conduzir-me a mim mesmo?

13. ─ Dizia-se que já há algum tempo a vossa razão estava alterada. É verdade?
─ Não.

14. ─ A opinião pública aprecia aquilo que fizestes pela civilização do Egito e por isso vos coloca entre os grandes príncipes. Ficais satisfeito com isso?
─ Que me importa? A opinião dos homens é o vento do deserto que levanta o
pó.

15. ─ Vedes com prazer os vossos descendentes seguindo o mesmo caminho? Os seus esforços vos interessam?
─ Sim, porque eles têm por objetivo o bem comum.

16. ─ Entretanto sois acusado de atos de grande crueldade. Agora os lamentais?
─ Eu os expio.

17. ─ Vedes aqueles a quem mandastes massacrar?
─ Sim.

18. ─ Que sentimento experimentam eles a vosso respeito?
─ Ódio e piedade.

19. ─ Desde que deixastes essa vida não mais revistes o sultão Mahmud?
─ Sim. Em vão fugimos um do outro.

20. ─ Que sentimento experimentais reciprocamente?
─ O de aversão.

21. ─ Qual a vossa opinião atual sobre as penas e recompensas que nos esperam depois da morte?
─ A expiação é justa.


22. ─ Qual o maior obstáculo que tivestes de vencer para a realização de vossos planos progressistas?
─ Eu reinava sobre escravos.

23. ─ Pensais que se o povo que tivestes de governar fosse cristão, teria sido menos rebelde à civilização?
─ Sim. A religião cristã eleva a alma; a maometana apenas fala à matéria.

24. ─ Quando vivo, vossa fé na religião muçulmana era absoluta?
─ Não. Eu considerava Deus maior.

25. ─ Que pensais agora dessa religião?
─ Ela não forma os homens.

26. ─ Na vossa opinião, Maomé tinha missão divina?
─ Sim, mas a desvirtuou.

27. ─ Em que a desvirtuou?
─ Ele quis reinar.

28. ─ Que pensais de Jesus?
─ Esse vinha de Deus.

29. ─ Na vossa opinião, quem fez mais pela felicidade humana: Jesus ou Maomé?
─ Por que o perguntais? Qual o povo que foi regenerado por Maomé? A religião cristã saiu pura das mãos de Deus; a maometana é obra de um homem.

30. ─ Credes que uma dessas duas religiões esteja destinada a apagar-se da face da Terra?
─ O homem progride sempre. A melhor perdurará.

31. ─ Que pensais da poligamia, consagrada pela religião muçulmana?
─ É um dos laços que retêm na barbárie os povos que a professam.

32. ─ Credes que a escravidão da mulher seja conforme os desígnios de Deus?
─ Não. A mulher é igual ao homem, de vez que o Espírito não tem sexo.

33. ─ Diz-se que o povo árabe não pode ser conduzido senão pelo rigor. Não pensais que os maus tratos, em vez de o submeterem, apenas o embrutecem?
─ Sim. Este é o destino do homem. Ele se avilta quando escravizado.

34. ─ Podeis transportar-vos à Antiguidade, quando o Egito era florescente, edizer-nos as causas de sua decadência moral?
─ A corrupção dos costumes.

35. ─ Parece que ligais pouca importância aos monumentos históricos que cobrem o solo do Egito. Não podemos compreender tal indiferença por parte de um príncipe amigo do progresso.
─ Que importa o passado! O presente não o substituiria.

36. ─ Poderíeis explicar-vos mais claramente?
─ Sim. Era desnecessário relembrar ao egípcio degradado um passado muito brilhante, pois não o teria compreendido. Desdenhei aquilo que me parecia inútil. Eu não podia enganar-me?

37. ─ Os sacerdotes do antigo Egito conheciam a Doutrina Espírita?
─ Era a deles.

38. ─ Eles recebiam manifestações?
─ Sim.
39. ─ As manifestações recebidas pelos sacerdotes egípcios tinham a mesma fonte que as recebidas por Moisés?
─ Sim. Ele foi iniciado por aqueles.

40. ─ Por que, então, as manifestações recebidas por Moisés eram mais potentes que as recebidas pelos sacerdotes egípcios?
─ Moisés queria revelar, enquanto os sacerdotes egípcios queriam apenas ocultá-las.

41. ─ Pensais que a doutrina dos sacerdotes egípcios tinha alguma ligação com a dos indianos?
─ Sim. Todas as religiões-mães estão ligadas entre si por laços quase invisíveis. Elas procedem de uma mesma fonte.

42. ─ Dessas duas religiões, isto é, a dos egípcios e a dos indianos, qual a matriz?
─ Elas são irmãs.

43.─ Como é que vós, que em vida éreis tão pouco esclarecido sobre estes assuntos, podeis agora responder com tanta profundidade?
─ Outras existências me ensinaram.

44. ─ No estado de erraticidade em que agora vos encontrais, tendes pleno conhecimento de vossas existências anteriores?
─ Sim, salvo da última.

45. ─ Vivestes, então, no tempo dos Faraós?
─ Sim. Três vezes vivi na terra egípcia: como sacerdote, como mendigo e como príncipe.

46. ─ Sob que reinado fostes sacerdote?
─ Já faz tanto tempo! O príncipe era o vosso Sesóstris.

47. ─ Assim sendo, dir-se-ia que não progredistes, pois que agora expiais os erros de vossa última existência.
─ Sim, mas progredi lentamente. Acaso eu era perfeito por ser um sacerdote?

48. ─ É porque fostes sacerdote naqueles tempos que nos pudestes falar com conhecimento de causa da antiga religião dos Egípcios?
─ Sim, mas não sou suficientemente perfeito para tudo saber. Outros leem o passado como num livro aberto.

49. ─ Poderíeis explicar-nos o motivo da construção das pirâmides?
─ É muito tarde.

NOTA: Eram quase onze horas da noite.

50. ─ Não vos faremos senão esta pergunta. Pedimos que tenhais a bondade de respondê-la.
─ Não. É muito tarde. Esta pergunta traria outras mais.

51. ─ Poderíeis fazer-nos o favor de responder em outra ocasião?
─ Não me comprometo.

52. ─ Não obstante, nós vos agradecemos a benevolência com que nos respondestes às outras perguntas.
─ Bem! Eu voltarei.

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