Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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Emma D..., linda menina, falecida aos 7 anos, após 6 meses de sofrimentos, que não comia quase nada durante seis semanas antes de falecer.

1. (Evocação).

─ Estou aqui, senhora, que quereis?

2. ─ Saber onde estais; se sois feliz e por que Deus infligiu à vossa encantadora mãe e às vossas irmãs tão grande mágoa, qual a de vos perder.

─ Estou no meio de bons Espíritos que me amam e instruem; sou feliz, muito feliz. Minha passagem entre vós era um resto de provação física. Sofri, mas esse sofrimento nada era; ele depurava minha alma, ao mesmo tempo que destruía meu pobre corpo. Agora aprendo sobre a vida da alma. Estou reencarnada, mas como Espírito conservador. Estou num mundo onde nenhum de nós permanece mais tempo do que o necessário aos ensinamentos que nos são dados pelos Grandes Espíritos. Fora disto, viajo, prevenindo desgraças, afastando tentações. Estou muitas vezes por aqui. Há tantos pobres negros! Sempre os lamentei, mas agora os amo. Sim, eu os amo, pobres almas! Entre eles há muitos bons, melhores que seus amos, e mesmo os que são preguiçosos devem ser lamentados.

Vou muitas vezes até minha mãe querida. Quando ela sente o coração reanimado, fui eu quem lhe derramou o bálsamo divino. Mas é preciso que ela sofra. Ah! Mais tarde, entretanto, tudo será esquecido. E Lúcia, minha bem-amada Lúcia, estará comigo antes de mais nada. Mas os outros virão. Basta morrer para ficar assim; nada mais: a gente muda de corpo, apenas isto. Eu já não tenho aquele mal que me fazia um objeto de horror para todos os outros. Sou mais feliz e, à noite, me debruço sobre minha mãe e a beijo. Ela nada sente, mas sonha comigo e me vê como eu era antes de minha moléstia horrorosa. Compreendei, senhora, que eu sou feliz.

Eu gostaria de pôr rosas no canto do jardim onde outrora eu ia dormir. Poderíeis sugerir à Lúcia a ideia de colocar algumas lá. Eu gostava muito de rosas e vou lá tantas vezes! Eu tenho rosas, mas Lúcia dorme todos os dias no meu antigo cantinho e eu todos os dias vou também para junto dela. Amo-a tanto!

3. ─ Minha cara menina, será que eu não poderia vê-la?

─ Não. Ainda não podeis ver-me, mas olhai o raio de sol sobre a vossa mesa. Eu vou atravessá-lo. Obrigado por me haverdes evocado. Sede indulgente para com minhas irmãs. Adeus.

O Espírito desapareceu, fazendo sombra um instante sobre o raio de sol que continuava. Tendo sido postas as rosas no querido cantinho, três dias depois, escrevendo uma carta, veio à pena da médium a palavra obrigada, bem como a assinatura da criança, que a fez escrever: “Recomeça tua carta; isso pouco importa! Estou tão feliz por ter uma médium! Eu voltarei. Obrigada pelas rosas. Adeus!


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