Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

Voltar ao Menu
Tu também, terra dos francos, estavas mergulhada na barbárie e tuas coortes selvagens levavam o espanto e a desolação até o seio das nações civilizadas. Oferecias montanhas de sacrifícios humanos a Teutatés e tremias à voz dos druidas, que escolhiam as suas vítimas. Os dolmens que te serviam de altares jazem em meio às charnecas estéreis! E o pastor que para ali conduz os seus magros rebanhos olha com admiração esses blocos de granito e se pergunta para que serviram essas lembranças de outros tempos!

Contudo, teus filhos, cheios de bravura, dominavam as nações e voltavam ao solo pátrio com o rosto triunfante, tendo nas mãos os troféus das vitórias e arrastando os vencidos em vergonhosa escravidão! Mas Deus queria que tomasses o teu lugar entre elas, e te enviou bons Espíritos, apóstolos de uma religião nova, que vinha pregar a teus filhos selvagens o amor, o perdão, a caridade. E quando Clóvis, à frente de seus exércitos, chamava em seu socorro esse Deus poderoso, ele acorreu à sua voz, deu-lhe a vitória e, como filho reconhecido, o vencedor abraçou o Cristianismo! O apóstolo do Cristo, derramando-lhe a santa unção, inspirado pelo Espírito de Deus, lhe ordenou que adorasse aquilo que havia queimado, e queimar o que havia adorado.

Então começou para ti uma longa luta entre os teus filhos, que não podiam enfrentar a cólera de seus deuses e de seus sacerdotes, e não foi senão depois que o sangue dos mártires regou o teu solo, para aí fazer germinarem suas pregações, que pouco a pouco desembaraçaste o coração do culto de teus pais, para seguir o de teus reis. Eles eram bravos e valentes e por sua vez iam combater as hordas selvagens dos bárbaros do Norte. Voltando calmos aos seus palácios, aplicavam-se ao progresso e à civilização de seus povos. Durante vários séculos são vistos realizando esse progresso, lentamente, é verdade, mas, enfim, te puseram no primeiro lugar.

Entretanto, foste tantas vezes culpada que o braço de Deus levantou-se e estava prestes a te exterminar. Mas, se o solo francês é um foco de incredulidade e de ateísmo, é também foco de lances generosos, da caridade e dos sublimes devotamentos. Ao lado da impiedade florescem as virtudes pregadas pelo Evangelho. Elas desarmaram o seu braço prestes a ferir-te tantas vezes e, lançando sobre esse povo a quem ama um olhar de clemência, ele o escolheu para ser o mensageiro de sua vontade; e é de seu seio que devem sair os germes da Doutrina Espírita, que ele transmite através dos bons Espíritos, a fim de que seus raios benéficos pouco a pouco penetrem o coração de todas as nações, e que os povos, consolados pelos preceitos de amor, de caridade, de perdão e de justiça marchem a passos de gigantes para a grande reforma moral que deve regenerar a Humanidade. França! Tens a tua sorte em tuas mãos. Se desconhecesses a voz celeste que te chama a esses gloriosos destinos; se tua indiferença te fizesse repelir a luz que deves espalhar, Deus te repudiaria, como outrora repudiou o povo hebreu, porque seria com ele que realizaria os seus desígnios. Apressa-te, pois, já que é chegado o momento! Que os povos aprendam contigo o caminho da verdadeira felicidade. Que o teu exemplo lhes mostre os frutos consoladores que dele devem retirar, e eles repetirão com o coro dos bons Espíritos: “Deus protege e abençoa a França!”

CARLOS MAGNO

TEXTOS RELACIONADOS

Mostrar itens relacionados
Aguarde, carregando...