Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1861

Allan Kardec

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MUITOS OS CHAMADOS, POUCOS OS ESCOLHIDOS

(RECEBIDO PELO SR. D’AMBEL, MÉDIUM DA SOCIEDADE)

Esta máxima evangélica deve aplicar-se com muito mais razão aos dias atuais do que aos primeiros tempos do Cristianismo.

Com efeito, já não ouvistes a agitação da tempestade, que deve arrastar o mundo velho e engolir no nada a soma das iniquidades terrenas? Ah! Bendizei o Senhor, vós que pusestes a vossa fé em sua soberana justiça, e como novos apóstolos da crença revelada pelas vozes proféticas superiores, ides pregar o dogma novo da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham bem ou mal cumprido suas missões e suportado suas provas terrestres.

Não tremais! As línguas de fogo estão sobre vossas cabeças. Ó adeptos do Espiritismo, sois os eleitos de Deus! Ide e pregai a palavra divina. É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai! Os Espíritos do Alto estão convosco. Certamente falareis a pessoas que não quererão ouvir a voz de Deus, porque essa voz incessantemente as chama à abnegação. Pregareis o desinteresse aos avarentos; a abstinência aos libertinos; a mansuetude aos tiramos domésticos como aos déspotas. Palavras perdidas, bem o sei. Mas, que importa! É preciso regar com o vosso suor o terreno onde deveis semear, pois ele não frutificará e não produzirá senão com os esforços reiterados da enxada e da charrua evangélicas. Ide e pregai!

Sim, vós todos, homens de boa-fé, que acreditais em vossa inferioridade ao olhar os mundos espalhados no infinito, parti em cruzada contra a injustiça e a iniquidade. Ide e derrubai esse culto do bezerro de ouro, cada dia mais invasor. Ide, Deus vos conduz! Homens simples e ignorantes, vossas línguas serão desatadas e falareis como nenhum orador fala. Ide e pregai, e as populações atentas recolherão com felicidade vossas palavras de consolação, de fraternidade, de esperança e de paz.

Que importam as ciladas armadas em vosso caminho! Só os lobos caem nas armadilhas para lobos, porque o pastor saberá defender suas ovelhas contra os magarefes sacrificadores.

Ide, homens grandes aos olhos de Deus, que mais felizes que São Tomé, credes sem ter visto e aceitais os fatos da mediunidade, ainda mesmo quando vós próprios não tenhais conseguido obtê-los. Ide, o Espírito de Deus vos conduz.

Avante, pois, falange imponente por tua fé e por teu pequeno número! Marcha! e os grandes batalhões dos incrédulos desmanchar-se-ão à tua frente como os nevoeiros matinais aos primeiros raios do sol nascente.

A fé é a virtude que soerguerá montanhas, disse Jesus. Contudo, mais pesadas que as mais pesadas montanhas, jazem no coração dos homens a impureza e todos os vícios da impureza. Parti, pois, com coragem para soerguer essa montanha de iniquidades que as gerações futuras só devem conhecer como relatos lendários, assim como vós mesmos só muito imperfeitamente conheceis o período dos tempos anteriores à civilização pagã.

Sim, as agitações morais e filosóficas vão explodir em todos os pontos do globo. Aproxima-se a hora em que a luz divina aparecerá nos dois mundos.

Ide, pois, e levai a palavra divina aos grandes, que a desdenharão; aos sábios, que lhe pedirão as provas; aos pequenos e simples, que a aceitarão, porque é sobretudo entre os mártires do trabalho, esta expiação terrena, que encontrareis o fervor e a fé. Ide! Estes receberão com cânticos de ação de graças e entoando louvores a Deus a consolação santa que lhes levais, e inclinar-se-ão agradecendo o quinhão de suas misérias terrenas.

Que vossa falange se arme, pois, de resolução e de coragem! À obra! A charrua está pronta. A terra espera. É preciso lavrar.

Ide e agradecei a Deus a tarefa gloriosa que vos confiou. Mas pensai que entre os chamados ao Espiritismo muitos se desviaram. Olhai, pois, o vosso caminho e segui a via da verdade.

P. ─ Se muitos dos chamados ao Espiritismo se desviaram, por que sinal conhecer os que estão no bom caminho?

─ Reconhecê-los-eis pelos princípios da verdadeira caridade que professarem e praticarem; reconhecê-los-eis pelo número dos aflitos aos quais levarem consolo; reconhecê-los-eis pelo amor ao próximo, pela abnegação, pelo desinteresse pessoal; reconhecê-los-eis, enfim, pelo triunfo de seus princípios, pois Deus quer a vitória de sua lei. Os que seguem a sua lei são os seus eleitos e ele lhes dará a vitória, mas esmagará os que falseiam o espírito dessa lei e dela fazem um pedestal para satisfazer a sua vaidade e a sua ambição.

ERASTO

Anjo da guarda do médium.

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OCUPAÇÕES DOS ESPÍRITOS

(MÉDIUM, SRA. COSTEL)

A ocupação dos Espíritos de segunda ordem consiste em se prepararem para as provas que terão de passar; por meditações sobre suas vidas passadas e por observações sobre os destinos humanos, seus vícios, suas virtudes, e o que pode aperfeiçoá-los ou levá-los a falir. Os que, como eu, têm a felicidade de ter uma missão, dela se ocupam com tanto zelo e amor, que o progresso das almas que lhes são confiadas lhes é contado como mérito. Assim, esforçam-se por lhes sugerir bons pensamentos, ajudar os seus bons impulsos, afastar os Espíritos maus, opondo sua suave influência às influências nocivas. Essa ocupação interessante, sobretudo quando se é bastante feliz para dirigir um médium e ter comunicações diretas, não dispensa o cuidado e o dever de aperfeiçoar-se.

Não creias que o tédio possa atingir um ser que não vive senão pelo espírito e cujas faculdades todas tendem para um objetivo, que sabe afastado, mas certo. O tédio não resulta senão do vazio da alma e da esterilidade do pensamento. O tempo, tão pesado para vós que o medis por vossos temores pueris ou por vossas frívolas esperanças, não submete ao seu talante os que não estão sujeitos nem às agitações da alma nem às necessidades do corpo. Ele passa ainda mais depressa para os Espíritos puros e superiores, que Deus encarrega da execução de suas ordens e que percorrem as esferas num voo rápido.

Quanto aos Espíritos inferiores, sobretudo os que têm pesadas faltas a expiar, o tempo se mede por seus pesares, seus remorsos e seus sofrimentos. Os mais perversos dentre eles procuram subtrair-se fazendo o mal, isto é, sugerindo-o. Então experimentam essa áspera e fugidia satisfação do doente que coça a sua ferida e que não faz senão aumentar a sua dor. Assim, seus sofrimentos aumentam de tal modo que acabam fatalmente por lhes ministrar o remédio, que não é senão a volta ao bem.

Os pobres Espíritos que não são culpados senão pela fraqueza ou pela ignorância, sofrem a sua inanidade, o seu isolamento. Lamentam o seu envoltório terreno, seja qual for a dor que lhes tenha causado. Revoltam-se e se desesperam até o momento em que percebem que só a resignação e uma vontade firme de voltar ao bem podem aliviá-los. Acalmam-se e compreendem que Deus não abandona nenhuma de suas criaturas.

MARCILLAC

Espírito familiar.

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O DEBOCHE

(ENVIADO PELO SR. SABÒ, DE BORDÉUS)

A escolha dos bons autores é muito útil. Os que exercem autoridade sobre vós, excitando-vos a imaginação por loucas paixões humanas, apenas corrompem o coração e o espírito. Com efeito, não é entre os apologistas da orgia, do deboche, da volúpia, entre os que preconizam os prazeres materiais, que se podem aproveitar lições de melhoramento moral. Pensai, pois, meus amigos, que se Deus vos deu paixões, foi com o fito de vos fazer concorrer para os seus desígnios, e não para satisfazê-las como um animal. Sabei que se gastardes a vossa vida em loucos prazeres que não deixam senão remorsos e o vazio no coração, não agis segundo os desígnios de Deus. Se vos é dado reproduzir a espécie humana, é que milhares de Espíritos errantes esperam no espaço a formação dos corpos de que necessitam para recomeçar suas provas e que usando as vossas forças em ignóbeis volúpias, ides contra a vontade de Deus, e vosso castigo será grande. Assim, bani essas leituras das quais não tirais nenhum fruto, nem para a inteligência, nem para o aperfeiçoamento moral. Que os escritores sérios de todos os tempos e de todos os países vos façam conhecer o belo e o bem; que elevem a vossa alma para o encanto da poesia e vos ensinem o útil emprego das faculdades com que vos dotou o Criador.

FELÍCIA

Filha do médium

OBSERVAÇÃO: Não existe algo de profundo e de sublime nessa ideia que dá à reprodução do corpo um objetivo tão elevado? Os Espíritos errantes esperam esses corpos, de que necessitam para o seu próprio adiantamento, e que os Espíritos encarnados estão encarregados de reproduzir, como o homem espera o produto da reprodução de certos animais para vestir-se e alimentar-se.

Daí ressalta outro ensinamento de alta significação. Se não se admite que a alma já tenha vivido, é absolutamente necessário que seja criada no momento da formação e para o uso de cada corpo, de onde se segue que a criação da alma por Deus estaria subordinada ao capricho do homem, e na maioria das vezes é o resultado do deboche. Como! Todas as leis religiosas e morais condenam a depravação dos costumes, e Deus se aproveitaria disto para criar almas! Perguntamos a todo homem de bom senso se é possível que Deus se contradiga a tal ponto. Não seria glorificar o vício, desde que serviria à realização dos mais elevados desígnios do Todo-Poderoso: a criação das almas? Que nos digam se tal não seria a consequência da formação simultânea das almas e dos corpos; e seria pior ainda se se admitisse a opinião dos que pretendem que o homem procria a alma ao mesmo tempo que o corpo. Admitam, ao contrário, a preexistência da alma, e toda contradição cessa, pois o homem não procria senão a matéria do corpo, e a obra de Deus, a criação da alma imortal que um dia dele se deve aproximar, não mais estará submetida ao capricho do homem. É assim que, fora da reencarnação, surgem a cada passo dificuldades insolúveis e que se cai na contradição e no absurdo quando se quer explicá-las. Também o princípio da unicidade da existência corpórea para decidir sem retorno os destinos futuros do homem, diariamente perde terreno e partidários. Então podemos dizer com segurança que dentro de pouco tempo, o princípio contrário será universalmente admitido como o único lógico, o único conforme à justiça de Deus, e proclamado pelo próprio Cristo quando disse: “Eu vos digo que é necessário nascer muitas vezes antes de entrar no Reino dos Céus.”





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SOBRE O PERISPÍRITO

DITADO ESPONTÂNEO

A PROPÓSITO DE UMA DISCUSSÃO QUE ACABARA DE HAVER NA SOCIEDADE

SOBRE A NATUREZA DO ESPÍRITO E DO PERISPÍRITO

MÉDIUM, SR. A. DIDIER

Acompanhei com interesse a discussão havida agora mesmo, e que vos pôs em tão grande embaraço. Sim, faltam às palavras cor e forma para exprimir o perispírito e sua verdadeira natureza. Mas há uma coisa certa. O que uns chamam perispírito não é senão o que outros chamam envoltório fluídico, material. Quando se discutem semelhantes questões, não são as frases que se deve buscar, são as palavras. Para me fazer compreender de maneira mais lógica, direi que esse fluido é a perfectibilidade dos sentidos e a extensão da visão e das ideias. Falo aqui dos Espíritos elevados. Quanto aos inferiores, os fluidos terrestres são ainda completamente inerentes a eles, portanto são matéria, como vedes. Daí os sofrimentos da fome, do frio etc., sofrimentos que não atingem os Espíritos superiores, visto que os fluidos terrenos são depurados em torno do pensamento, isto é, da alma. Para seu progresso, a alma sempre tem necessidade de um agente. A alma sem agente nada é para vós, ou, melhor dizendo, não pode ser concebida por vós. Para nós outros, Espíritos errantes, o perispírito é o agente pelo qual nos comunicamos convosco, quer indiretamente, por vosso corpo ou por vosso perispírito, quer diretamente por vossa alma. Daí as infinitas nuanças de médiuns e de comunicações. Agora resta o ponto de vista científico, isto é, a essência mesma do perispírito. Isto é outro assunto. Compreendei primeiro moralmente. Não resta mais senão uma discussão sobre a natureza dos fluidos, o que é inexplicável no momento. A Ciência não conhece bastante, mas lá se chegará, se a Ciência quiser marchar com o Espiritismo.

LAMENNAIS

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O ANJO GABRIEL

(EVOCAÇÃO DE UM BOM ESPÍRITO, EM SOULTZ, ALTO-RENO, PELA SRA. X.)

Sou Gabriel, o anjo do Senhor, que me encarrega de vos abençoar, não por vossos méritos, mas pelos esforços que fazeis para adquiri-los.

A vida deve ser um combate. Não se deve jamais parar, jamais vacilar entre o bem e o mal. A hesitação já vem de Satã, isto é, dos maus Espíritos. Coragem, pois! Quanto mais espinhos em vosso caminho, mais esforços necessitais para segui-lo. Se ele fosse semeado de rosas, que mérito teríeis diante de Deus? Cada um tem o seu calvário na Terra, mas nem todos o percorrem com a suave resignação de que Jesus vos deu o exemplo. Ela foi tão grande que os anjos se comoveram! E os homens, quando muito, vertem uma lágrima diante de tantas dores! Ó dureza do coração humano! Mereceríeis semelhante sacrifício? Lançai o rosto no pó e implorai misericórdia ao Deus mil vezes bom, mil vezes meigo, mil vezes misericordioso! Um olhar, ó meu Deus, sobre a vossa obra, sem o que ela perecerá! Seu coração não está à altura do vosso. Ele não pode compreender este excesso de amor de vossa parte. Tende piedade! Tende mil vezes piedade de sua fraqueza. Levantai sua coragem por pensamentos que não podem vir senão de vós. Abençoai-os, sobretudo, para que deem frutos dignos de vossa imensa grandeza!

Hosana no mais alto dos Céus, e paz aos homens de boa vontade!

É assim que terminarei as palavras que Deus me ordenou vos transmitisse.

Sede abençoados no Senhor, a fim de despertardes um dia em seu seio.

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DESPERTAI!

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS

MÉDIUM, SRA. COSTEL)

Eu te falarei dos sintomas e predições que, por toda parte, anunciam a vinda de grandes acontecimentos que o nosso século encerra. Em sua tocante bondade, os Espíritos, mensageiros de Deus, advertem o Espírito do homem, como as dores advertem a mãe do seu próximo parto. Esses sinais, muitas vezes desprezados e contudo sempre justificados, neste momento se multiplicam ao infinito. Por que todos sentis o Espírito profético agitar-vos o coração e abalar-vos a consciência? Por que as incertezas? Por que os desfalecimentos que turvam os corações? Por que o despertar do espírito público que por toda parte arvora sua altiva bandeira? Por quê? É que os tempos são chegados; é que o reino do materialismo estala e vai desabar; é que os prazeres do corpo, que dentro em breve serão desprezados, vão dar lugar ao reino das ideias; é que o edifício social está carcomido e vai dar lugar à jovem e triunfante legião das ideias espíritas que fecundarão as consciências estéreis e os corações mudos. Que estas palavras incessantemente repetidas não vos encontrem distraídos e indiferentes. Depois que o lavrador houver semeado, recolhei as preciosas espigas que nascerem. Não digais: a vida segue o seu curso e uma marcha normal; nossos pais nada viram do que hoje nos anunciam; não veremos mais do que eles. Adoremos o que eles adoraram, ou melhor, substituamos a adoração por fórmulas vãs, e tudo estará bem. Falando assim, dormis. Despertai, porque não é a trombeta do juízo final que vibrará aos vossos ouvidos, mas a voz da verdade. Não se trata da morte vencida e humilhada. Trata-se da vida presente, ou antes, da vida eterna. Não a esqueçais e despertai.

HELVÉTIUS

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O GÊNIO E A MISÉRIA

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS. MÉDIUM, SR. ALFRED DIDIER)

Há uma prova muito grande na Terra, sobre a qual deve apoiar-se a moral do Espiritismo: é a provação terrível do homem de gênio, sobretudo do que é dotado de faculdades superiores, presa das exigências da miséria. Ah! Sim. Esta prova moral, esta miséria da inteligência, muito mais que a do corpo, será o mérito maior para o homem que tiver cumprido a sua missão. Compenetrai-vos dessa luta incessante do talento contra a miséria, esta harpia que se atira sobre vós durante o festim da vida, semelhante ao monstro de Virgílio, e que diz a todas as suas vítimas: Sois poderosos, mas sou eu quem vos mata; sou eu que envio ao nada os dons de vossa inteligência, porque eu sou a morte do gênio. Eu sei que só uns são vencidos, mas os outros, quantos são eles? Há um pintor da escola moderna que assim concebeu o assunto: Um ser, o gênio, cujas asas se abrem e cujo olhar está voltado para o sol quase que se ergue, mas cai sobre um rochedo, onde estão fixadas cadeias de ferro que o prenderão talvez para sempre. O homem que teve este sonho talvez tenha sido acorrentado, também ele, e talvez após a sua libertação lembrou-se dos que deixara para sempre sobre o rochedo.

GÉRARD DE NERVAL

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TRANSFORMAÇÃO

(SOCIEDADE ESPÍRITA DE PARIS. MÉDIUM, SRA. COSTEL)

Venho falar-te daquilo que mais importa, nesta época de crise e de transformação. No momento em que as nações revestem roupagem viril; no momento em que o Céu desvelado vos mostra, vagando nos espaços infinitos, os Espíritos daqueles que pensáveis dispersos como moléculas ou servindo de pasto aos vermes; neste momento solene, é preciso que, armado de fé, o homem não marche tateante nas trevas do personalismo e do materialismo. Como outrora os pastores, guiados por uma estrela, vinham adorar o Menino-Deus, é preciso que o homem, guiado pela brilhante aurora do Espiritismo, marche, enfim, para a Terra Prometida da liberdade e do amor. É preciso que, compreendendo o grande mistério, ele saiba que a finalidade harmoniosa da Natureza, seu ritmo admirável, são os modelos da Humanidade. Nesta espantosa diversidade que confunde os Espíritos, distingui a perfeita similitude das relações entre as coisas criadas e os seres criados, e que essa poderosa harmonia vos leve a todos, homens de ação, poetas, artistas, operários, à união na qual devem fundir-se os esforços comuns durante a peregrinação da vida. Caravanas assaltadas pelas tempestades e pelas adversidades, estendei-vos as mãos amigas e marchai com os olhos voltados para o Deus justo, que recompensa ao cêntuplo aquele que tiver aliviado o fraco e o oprimido.

GÉORGES

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A SEPARAÇÃO DO ESPÍRITO

(ENVIADO PELO SR. SABÒ, DE BORDÉUS)

Corpo de lama, foco de corrupção onde fermenta o lêvedo das paixões impuras. São seus órgãos que muitas vezes arrastam o Espírito a tomar parte nas sensações brutais que pertencem ao campo da matéria. Quando o princípio da vida orgânica se extingue por um dos mil acidentes aos quais está sujeito o corpo, o Espírito se desprende dos laços que o retinham em sua prisão fétida, e ei-lo livre no espaço.

Entretanto acontece que, quando ele é ignorante, e sobretudo quando é muito culpado, um véu espesso lhe oculta as belezas da morada onde vivem os bons Espíritos, e ele se vê só ou na companhia de Espíritos malvados e inferiores, num círculo que nem lhe permite ver onde está nem se lembrar de onde vem. Então sente-se inquieto, sofredor, em mal-estar, até que, num tempo mais ou menos longo, seus irmãos, os Espíritos, vêm esclarecê-lo quanto a sua posição e lhe abrem os olhos para que se lembre do mundo dos Espíritos que habitou, bem como dos diversos planetas onde sofrerá suas diversas encarnações. Se a sua última encarnação foi bem conduzida, ela lhe abre as portas dos mundos superiores. Se foi inútil e cheia de iniquidades, ele é punido pelo remorso, e depois que o Espírito se curvou à cólera de Deus por seu arrependimento e pela prece de seus irmãos, recomeça a viver, o que não é uma felicidade, mas um castigo ou uma provação.

FERDINAND

Espírito familiar.

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