Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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A questão da publicidade das comunicações espíritas é o complemento da organização geral de que tratamos no número anterior. À medida que se alarga o círculo dos espíritas, multiplicam-se os médiuns, e com eles o número das comunicações. De algum tempo para cá essas comunicações têm tido um desenvolvimento notável em relação ao estilo, aos pensamentos e à amplitude dos assuntos tratados. Elas cresceram com a própria ciência e os Espíritos calibram a altura de seu ensino pelo desenvolvimento das ideias. Isso tanto se dá nas províncias e no estrangeiro quanto em Paris, como o provam os numerosos exemplos que nos enviam, alguns dos quais têm sido publicados na Revista.

Dando essas comunicações, os Espíritos visam à instrução geral, à propagação dos princípios da doutrina, e tal objetivo não seria atingido se, conforme dissemos, elas ficassem escondidas nas pastas dos que as recebem. É, pois, útil espalhá-las pela via da publicidade. Disso resultará outra importante vantagem: a de provar a concordância do ensino espontâneo dado pelos Espíritos sobre todos os pontos fundamentais e de neutralizar a influência dos sistemas errados, provando o seu isolamento.

Trata-se, pois, de examinar o modo de publicidade que pode melhor alcançar esse objetivo, e por isso há dois pontos a serem levados em cota: o meio que oferece mais chances de extensão da publicidade, e as condições mais adequadas a produzir no leitor uma impressão favorável, quer pela judiciosa escolha dos assuntos, quer pela disposição material. Por não levarem em consideração certos detalhes, talvez simplesmente formais, as melhores obras são, por vezes, natimortas. Esta constatação é resultado da experiência. Certos editores têm, a esse respeito, um tato que lhes revela o hábito do gosto do público, o que lhes permite avaliar de relance e imediatamente as chances de sucesso de uma publicação, sem levar em conta o mérito intrínseco.

O desenvolvimento que tomam as comunicações espíritas colocam-nos na impossibilidade material de inserir todas na Revista. Para abarcar o quadro inteiro, fora necessário dar-lhe uma extensão tal que deixaria o preço fora do alcance de muita gente. Há, pois, necessidade de encontrar um meio de fornecê-la nas melhores condições para todos. Examinemos, de saída, os pró e os contra dos vários sistemas que poderiam ser empregados.

1º ─ Publicações periódicas locais. Estas apresentam dois inconvenientes. O primeiro, o de serem quase sempre restritas à localidade; o segundo, é que uma publicação periódica, devendo ser alimentada e distribuída em datas fixas, necessita de um material burocrático e de gastos regulares, que devem ser cobertos de qualquer modo, sob pena de interrupção. Se os jornais locais que se dirigem ao grande público por vezes têm dificuldade de sobreviver, com mais forte razão uma publicação dirigida a um público restrito, pois seria ilusório contar com muitos assinantes de fora, principalmente se tais publicações se fossem multiplicando.

2º ─ Publicações locais não periódicas. Uma sociedade, um grupo, os grupos de uma mesma cidade poderiam, como fizeram em Metz, reunir suas comunicações em brochuras independentes umas das outras e publicá-las em datas indeterminadas. Esse modo é incomparavelmente preferível ao precedente, sob o ponto de vista financeiro, porque não se assume compromissos e a gente é livre de parar quando quiser. Mas há sempre o inconveniente da restrição da publicidade. Para espalhar tais brochuras fora do círculo local, haveria necessidade de gastos com anúncios, ante os quais muitas vezes a gente recua, ou seria necessária uma livraria central, com numerosos correspondentes que de tal se encarregassem, mas aqui surge outra dificuldade. Os livreiros em geral não têm boa vontade para com as obras que eles próprios não editam; além disso, não querem ocupar os seus correspondentes com publicações para eles sem importância e de consumo incerto, por vezes feitas em más condições de venda pelo formato e pelo preço e que, além de descontentar os correspondentes, obrigá-los-ia a despesas de devolução. São considerações que a maioria dos autores, que desconhecem o ofício de livreiro, não compreendem, sem falar dos que, achando suas obras excelentes, admiram-se que nenhum editor se esforce por agenciá-las. Os próprios autores que mandam imprimir suas obras a suas expensas deveriam lembrar-se que, sejam quais forem as vantagens que ofereçam aos livreiros, a obra terá que aguardar os clientes se, em termos do ofício, não estiver em condições negociáveis.

Pedimos desculpa aos nossos leitores por entrar em detalhes tão materiais a propósito dessas coisas espirituais, mas é precisamente no interesse da propagação das boas coisas que queremos nos premunir contra as ilusões da inexperiência.

3º ─ Publicações individuais dos médiuns. ─ Todas as reflexões acima se aplicam, naturalmente, às publicações isoladas que certos médiuns poderiam fazer das comunicações que recebem. Mas, além da maior parte deles não poderem fazêlo, elas têm outro inconveniente: é que, em geral, têm um cunho de uniformidade que as torna monótonas, e diminuiria tanto mais o seu consumo quanto mais se multiplicassem. Só seriam atraentes se, tratando de um determinado assunto, formassem um todo e apresentassem um conjunto, quer fossem obra de um só Espírito quer de vários.

Essas considerações não são absolutas e certamente haverá exceções. Há, porém, que convir que repousam sobre um fundo de verdade. Aliás, aquilo que dizemos não visa impor nossas ideias, que cada um considerará ou não. Apenas, como a gente publica na esperança de um resultado, sentimo-nos na obrigação de expor as causas de decepções.

Os inconvenientes que acabamos de assinalar se nos afiguram completamente contornados pela publicação central e coletiva que os Srs. Didier & Cia. vão empreender sob o título de Bibliothèque du monde invisible[1]. Compreenderá uma série de volumes de grande formato in-18, sete folhas de impressão ou cerca de 250 páginas, ao preço uniforme de dois francos. Cada volume terá seu número de ordem, mas será vendido separadamente, de sorte que os interessados terão liberdade de adquirir os que lhes convierem, sem a obrigação de pagar pelos que lhes não interessam. Essa coleção, que não tem limites fixos, oferecerá meios de publicar, nas melhores condições possíveis, os trabalhos mediúnicos obtidos nos diversos centros, com a vantagem de uma publicidade muito ampla, por meio dos correspondentes. O que essa casa não faria por meio de brochuras isoladas, ela fará por meio de uma coleção que pode adquirir grande importância.

O nome de Biblioteca do mundo invisível é o título geral da coleção. Cada volume, porém, terá um título especial para designar o assunto e a procedência e beneficiará o autor, sem que este tenha que se imiscuir no produto das obras que lhe são estranhas. É uma publicação coletiva, mas sem solidariedade entre os produtores, e na qual cada um entra por sua conta e se sujeita às chances do mérito de sua obra, mas se aproveitando da publicidade comum.

Nessa coleção os editores não se propõem publicar tudo quanto lhes seja enviado. Ao contrário, reservam-se expressamente o direito de uma escolha rigorosa. Os volumes publicados à custa dos respectivos autores poderão entrar na coleção, se forem aceitos e estiverem nas condições de formato e preço.

Pessoalmente não temos vínculo com conjunto dessa publicação e com sua administração, que nada tem de comum com a Revista Espírita, nem com as nossas obras especiais sobre a matéria. Damos-lhe a nossa aprovação e o nosso apoio moral porque a julgamos útil e por ser a melhor via aberta aos médiuns, grupos e sociedades para suas publicações. Nela colaboraremos como os outros, por nossa conta, só assumindo responsabilidade pelo que levar o nosso nome.

Além das obras especiais que pudermos fornecer a essa coleção, dar-lhe-emos, sob o título especial de Portefeuille spirite[2], alguns volumes compostos de comunicações escolhidas, quer entre as que são obtidas em nossas reuniões de Paris, quer entre as que nos são remetidas por médiuns e grupos franceses e estrangeiros que se correspondem conosco e não querem fazer publicações pessoais. Oriundas de fontes diferentes, essas comunicações terão o atrativo da variedade. A elas juntaremos, conforme as circunstâncias, as observações necessárias à sua compreensão e desenvolvimento. A ordem, a classificação e todas as disposições materiais serão objeto de atenção especial.

Não visando lucro pessoal de tais publicações, nossa intenção é aplicar os direitos que nos couberem pelos cuidados a elas dados, em favor da distribuição gratuita de nossas obras sobre o Espiritismo às pessoas que não as puderem adquirir, ou qualquer outro emprego julgado útil à propagação da doutrina, conforme as condições que forem fixadas ulteriormente.

Tal plano parece corresponder a todas as necessidades e não duvidamos que seja acolhido com entusiasmo por todos os sinceros amigos da doutrina.



[1] Biblioteca do mundo invisível.
[2] Pasta espírita.

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