Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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3ª Palestra, 2 de maio de 1862

9. ─ Sob que aspecto se vos apresentaram os Espíritos? Sob a forma humana? ─ Sim, meu caro amigo. Os Espíritos nos haviam ensinado na Terra que eles conservam no outro mundo a forma transitória que haviam tido no vosso. É verdade. Entretanto, que diferença entre a máquina informe que se arrasta penosamente com o seu cortejo de provas e a maravilhosa fluidez do corpo dos Espíritos! Não existe feiúra, porque os traços perderam a dureza de expressão que forma o caráter distintivo da raça humana. Deus beatificou todos esses corpos graciosos, que se movem com toda a elegância da forma. A linguagem tem entonações para vós intraduzíveis, e o olhar tem a profundeza das estrelas. Procurai mentalmente ver o que Deus pode fazer na sua onipotência, ele, o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma pálida ideia da forma dos Espíritos.

10. ─ Pessoalmente, como vos vedes? Reconhecei-vos sob uma forma limitada, circunscrita, embora fluídica? Sentis a cabeça, o tronco, os braços e as pernas? ─ Tendo conservado a forma humana, mas divinizada, idealizada, o Espírito tem, certamente, os membros de que falais. Sinto perfeitamente as pernas, os dedos, porque, por nossa vontade, podemo-nos tornar visíveis ou apertar-vos as mãos. Estou junto de vós, e apertei a mão de todos os amigos, sem que disso eles tivessem tido consciência, pois a nossa fluidez pode estar por toda a parte, sem interferir no espaço, sem dar sensações, se assim o desejarmos. Neste momento tendes as mãos cruzadas e as minhas estão sobre as vossas. Eu vos digo: eu vos amo, mas meu corpo não ocupa lugar, e a luz o atravessa. Se isto fosse visível, chamaríeis de milagre, no entanto, para os Espíritos, é uma ação contínua, de todos os instantes. “A visão dos Espíritos não tem relação com a visão humana, assim como o corpo não tem semelhança real, porque tudo mudou na aparência e na substância. O Espírito, repito, tem uma perspicácia divina que alcança tudo, pois até pode adivinhar os vossos pensamentos. Assim ele pode, à vontade, tomar a forma que melhor o identifique com as vossas lembranças. Mas, na verdade, o Espírito superior, que terminou as suas provas, prefere a forma que o conduziu a Deus.

11. ─ Os Espíritos não têm sexo. Entretanto, como há poucos dias éreis homem, no vosso estado tendes antes a natureza masculina que a feminina? Dá-se o mesmo com um Espírito que deixou o corpo há muito tempo? ─ Não nos vinculamos à natureza masculina ou feminina. Os Espíritos não se reproduzem. Deus os criou à sua vontade e se, na sua maravilhosa sabedoria, quis que os Espíritos se reencarnassem na Terra, teve que estabelecer a reprodução das espécies pelo macho e a fêmea. Mas compreendeis, sem necessidade de explicação, que os Espíritos não podem ter sexo.

OBSERVAÇÃO: Sempre foi dito que os Espíritos não têm sexo. Os sexos só são necessários para a reprodução dos corpos. Como os Espíritos não se reproduzem, o sexo lhes seria inútil. Nossa pergunta não visava constatar o fato, mas, em vista da morte recente do Sr. Sanson, queríamos saber se perdurava a impressão de seu estado terreno. Os Espíritos puros têm a mais perfeita consciência de sua natureza, mas entre os inferiores, não desmaterializados, muitos ainda se consideram como eram na Terra e conservam as mesmas paixões e os mesmos desejos. Estes ainda se creem homens ou mulheres, e por isto alguns disseram que os Espíritos têm sexo. É assim que certas contradições provêm do estado mais ou menos adiantado dos Espíritos que se comunicam. O erro não é dos Espíritos, mas daqueles que os interrogam e não se dão ao trabalho de aprofundar-se no assunto.

12. ─ Entre os Espíritos que aqui se acham, vedes o nosso presidente espiritual, São Luís? ─ Ele está sempre ao vosso lado, e quando se ausenta, sempre deixa um Espírito superior, que o substitui.

13. ─ Não vedes outros Espíritos? ─ Perdão. O Espírito de Verdade, Santo Agostinho, Lamennais, Sonnet, São Paulo, São Luís e outros amigos que evocais estão sempre nas vossas sessões.

14. ─ Que aspecto vos apresenta a sessão? Para as vossas novas vistas é o que era quando estáveis vivo? As pessoas têm a mesma aparência? É tudo tão claro e tão limpo? ─ Muito mais claro, porque posso ler o pensamento de todos e me sinto muito feliz. Ora! A boa vontade de todos os Espíritos reunidos me causa boa impressão. Desejo que a mesma concordância se faça não só em Paris, pela reunião de todos os grupos, mas em toda a França, onde há grupos que se separam e se invejam, impelidos por Espíritos perturbadores que se comprazem na desordem, enquanto que o Espiritismo deve ser o esquecimento completo, absoluto do eu.

15. ─ Dissestes que ledes o nosso pensamento. Poderíeis dar a compreender como se opera essa transmissão? ─ Isso não é fácil. Para vos dizer, para vos explicar esse prodígio singular, da visão dos Espíritos, seria necessário vos abrir todo um artesanal de agentes novos, e seríeis tão sábios quanto nós, o que não é possível, porque vossas faculdades são limitadas pela matéria. Paciência! Tornai-vos bons e chegareis a esse ponto. Atualmente só tendes aquilo que Deus vos concede, mas, com a esperança de progredir continuamente, mais tarde sereis como nós. Procurai bem morrer, a fim de saber muito. A curiosidade, que é o estimulante do homem que pensa, vos conduz tranquilamente até a morte, reservando-vos a satisfação de todas as curiosidades passadas, presentes e futuras. Enquanto esperais, eu vos direi, para responder mais ou menos à vossa pergunta: O ar que vos envolve, impalpável como nós, leva o caráter do vosso pensamento; o sopro que exalais é, por assim dizer, a página escrita dos vossos pensamentos, que são lidos e comentados pelos Espíritos que estão constantemente ao vosso lado, como mensageiros de uma telegrafia divina à qual nada escapa.

16. ─ Vedes, meu caro Sr. Sanson, que utilizamos largamente a permissão que nos destes para fazermos a vossa autópsia intelectual. Não abusaremos. Em outra oportunidade, se assim o desejardes, faremos perguntas de outra ordem. ─ Sentir-me-ei sempre muito feliz por me tornar útil aos meus antigos colegas e a seu digno presidente.

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