Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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Sr. Redator,

Fui o primeiro a apreciar as observações finas e delicadas feitas pelo Sr. de Cazenove de Pradines no domínio da Doutrina Espírita. O escrito, sob o título de Conversas Espíritas, que esteve em minhas mãos e do qual se faz menção no vosso apreciado jornal de domingo, 25 de maio, é realmente de uma graça encantadora e não desmente o caráter de sagacidade do talento do autor. É uma flor cujas cores e brilho admiro e cuja delicadeza evito alterar, no momento, pelo contato da menor palavra de crítica indiscreta. Mas o vosso entusiasmo por esses diálogos picantes, mais espirituosos que ofensivos à doutrina, vos levaram a enunciar erros tais que é dever de todo bom espírita lembrar-vos, e principalmente meu.

Para começar, devo dizer que as citações escolhidas aqui e ali em O Livro dos Espíritos são grupadas com arte, a fim de apresentar a doutrina sob aspecto desfavorável, mas todo homem prudente e de boa-fé quererá ler aquele livro por inteiro e meditar.

1º. ─ Falais de doutrinas da nova seita. Permiti vos diga que o Espiritismo nem é uma religião nem uma seita. O Espiritismo é um ensino dado aos homens pelos Espíritos que povoam o espaço e que são apenas as almas dos que viveram. Malgrado nosso, sofremos a sua influência a todo instante. Eles são uma força da Natureza, como a eletricidade é outra, sob diverso ponto de vista. Sua existência e sua presença são constatadas por fatos evidentes e palpáveis.

2º. ─ Dizeis: “A perversidade de semelhante doutrina”. Cuidado! O Espiritismo não é senão o Cristianismo na sua pureza; não tem outra divisa em sua bandeira senão esta: “Amor e Caridade”. Isso, então, é perversidade?

3º. ─ Finalmente, falais de um sistema cheio de seduções e verdadeiros perigos. Sim, está cheio de seduções, de atrativos, porque é belo, grande, justo, consolador e, sob todos os pontos de vista, digno da perfeição de Deus. Onde os seus perigos? Em vão os procuram na prática do Espiritismo, mas aí só encontram consolação e melhoramento moral. Perguntai em Paris, em Lyon, em Bordeaux, em Metz, etc., qual o efeito produzido sobre as massas por essa nova crença. Sobretudo Lyon vos dirá em que fonte os operários sem trabalho encontraram tanta resignação e força para suportarem privações de toda espécie.

Ignoro se as livrarias de Agen estão providas de livros como O que é o Espiritismo?, O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, mas, sinceramente, desejo que o vosso pequeno relatório desperte a atenção dos indiferentes, faça-os procurar essas obras e constituírem um núcleo espírita na capital do nosso departamento. Destinada a regenerar o mundo, esta doutrina marcha a passos de gigante. Agen seria uma das últimas cidades onde o Espiritismo adquiriria direito de cidadania? Considero o vosso pequeno artigo como uma pedra que trazeis ao edifício e, uma vez mais, admiro os meios que Deus utiliza para atingir os seus fins.

Vossa imparcialidade e vosso desejo de, pela discussão, chegar à verdade, me são uma garantia de que admitireis esta carta nas colunas de vosso jornal, como resposta ao vosso artigo de 25 de maio.

Atenciosamente,

DOMBRE (de Marmande)


A essa carta, o redator se limitou a dizer o seguinte, na edição de seu jornal de 1º de junho:

“O Sr. Dombre nos escreve de Marmande, a respeito de nossas reflexões sobre O Livro dos Espíritos e os diálogos pelo mesmo sugeridos ao honrado Sr. de Cazenove de Pradines. Esse novo ensino, como prefere chamar o Sr. Dombre, não tem aos nossos olhos o mesmo valor e o mesmo prestígio que parece exercer sobre o nosso espirituoso correspondente.”

(Por diversas vezes o Sr. Dombre mandou àquele jornal colaboração em prosa e verso).

“Respeitamos as convicções dos nossos contraditores, mesmo quando repousam em princípios errados, mas consideramos um dever, malgrado a defesa leal e sincera tentada pelo Sr. Dombre, manter a expressão de um sentimento sobre um sistema completamente fora da verdade.

“Consequentemente, a Abeille Agénaise não se poderia dar à propagação de ideias essencialmente perigosas, e o Sr. Dombre compreenderá o pesar que sentimos por não nos associarmos à manifestação de seus desejos.

“J. SERRET”


OBSERVAÇÃO: Reservar-se o direito de atacar e não admitir resposta é um meio cômodo de ter razão. Resta saber se é o de chegar à verdade. Se uma doutrina que tem por base a caridade e o amor ao próximo; que melhora os homens e os leva a renunciarem aos hábitos de desordem; que dá a fé aos que em nada creem; que faz orar os que nunca oram; que restabelece a união nas famílias divididas; que impede o suicídio; se, dizíamos, uma tal doutrina é perversa, o que serão as que se tornam impotentes para produzir tais resultados? O Sr. Serret teme ajudar a propaganda pela polêmica, e por isso prefere falar sozinho. Pois então, que fale quanto queira, mas o resultado não será menor do que tem sido em toda parte: chamar a atenção e recrutar adeptos para a doutrina.

A. K.

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