Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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Desconfiai dos aduladores. É a raça mentirosa. São encarnações de duas caras, que riem para enganar. Infeliz de quem os escuta e neles acredita, pois as noções do verdadeiro nele logo se pervertem. Entretanto, quanta gente se deixa levar por esse engodo mentiroso da adulação! Escutam com satisfação o velhaco que elogia as suas fraquezas, enquanto repelem o amigo sincero que lhes diz a verdade e lhes dá bons conselhos; atraem o falso amigo e afastam o verdadeiro e desinteressado. Para agradá-los é preciso adular, aprovar tudo, tudo aplaudir e achar tudo bom, mesmo o absurdo. E ─ coisa estranha! ─ repelem conselhos sensatos e acreditam na mentira do primeiro que vier, desde que essa mentira lisonjeie as suas ideias. Que quereis? Eles querem ser enganados e o são. Muitas vezes tardiamente percebem as consequências, mas então já está feito o mal, e às vezes ele não tem remédio.

De onde vem isso? A causa desse problema é quase sempre múltipla. A primeira, sem contestação, é o orgulho que os cega quanto à infalibilidade de seu próprio mérito, que julgam superior ao dos demais. Assim, sem dificuldade o tomam como modelo do senso comum. A segunda é devida a uma falta de senso, que lhes não permite vejam o lado certo e o errado das coisas, mas nisto ainda está o orgulho, que oblitera o julgamento, porque, sem orgulho, desconfiariam de si mesmos e se aconselhariam com os que têm mais experiência.

Acreditai, ainda, que os maus Espíritos não estão alheios ao caso. Eles gostam de mistificar e de fazer armadilhas. Quem nelas cairá mais facilmente do que os orgulhosos que são adulados? O orgulho é para eles a falta de couraça de uns, assim como a cupidez é de outros. Eles sabem habilmente disso tirar partido, mas não deixam de dirigir-se aos que, do ponto de vista moral, são mais fortes.

Quereis subtrair-vos à influência dos maus Espíritos? Subi, subi tão alto em virtude que eles não vos possam atingir, e então, vós é que sereis temidos por eles. Mas, se vos deixardes arrastar pela ponta da corda, eles subirão nela para vos forçar a descida; chamar-vos-ão com voz melosa, elogiarão vossa plumagem, e, a exemplo do corvo, deixareis cair o queijo.

SONNET

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