Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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— CONSIDERAÇÕES GERAIS

O homem, ou Espírito encarnado, pode estar em vossa Terra em missão, em progressão, em punição.

Isto posto, é necessário saibais, de uma vez por todas, que o estado de missão, progressão ou punição deve, sob pena de recomeçar a prova, chegar ao termo fixado pelos desígnios da suprema justiça.

Adiantar por si mesmo, ou por provocação, o instante fixado por Deus para a entrada no mundo dos Espíritos é, pois, enorme crime.

O duelo é ainda um crime maior, porque não só é um suicídio, mas, além disso, um assassinato premeditado.

Na verdade, pensais que o provocado e o provocador não se suicidem moralmente ao se exporem voluntariamente aos golpes mortais do adversário? Credes que não sejam ambos assassinos, no momento em que procuram mutuamente tirar a vida por eles escolhida ou imposta por Deus como expiação ou como prova?

Sim, eu te digo, meu amigo, duas vezes criminosos aos olhos de Deus são os duelistas; duas vezes terrível será a punição, porque nenhuma escusa será admitida, porque por eles tudo foi calculado friamente e premeditado.

Leio em teu coração, meu filho, porque também foste um pobre transviado, e eis minha resposta.

Para não sucumbir a essa terrível tentação só necessitais de humildade, sinceridade e caridade para com vosso irmão em Deus. Por outro lado, só sucumbis pelo orgulho e pela ostentação.



2º. ─ CONSEQUÊNCIAS ESPIRITUAIS

Aquele que, por humildade, como o Cristo, tiver suportado o maior ultraje e perdoado de coração, por amor a Deus, além das recompensas celestes da outra vida, terá a paz de coração nesta e uma alegria incompreensível por haver duas vezes respeitado a obra de Deus.

Aquele que, por caridade para com o próximo, lhe houver provado seu amor fraterno, na outra vida terá a santa proteção e o concurso poderoso da gloriosa mãe do Cristo, pois ela ama e abençoa os que cumprem os mandamentos de Deus; os que seguem e praticam os ensinos de seu Filho.

Aquele que, a despeito dos ultrajes, tiver respeitado a existência de seu irmão e a sua própria, ao entrar no mundo etéreo, encontrará milhões de legiões de bons e puros Espíritos que virão, não honrá-lo por sua ação, mas provar-lhe, por seu devotamento em facilitar-lhe os primeiros passos na nova existência, a simpatia que soube atrair, e os verdadeiros amigos que fez entre eles, seus irmãos.

Todos juntos elevarão a Deus sinceras ações de graça por sua misericórdia, que permitiu ao seu irmão resistir à tentação.

Aquele, digo eu, que houver resistido a essas tristes tentações, pode esperar, não a mudança dos desígnios de Deus, que são imutáveis, mas contar com a benevolência sincera e afetuosa do Espírito de Verdade, o Filho de Deus, o qual de maneira incomparável inundará sua alma com a felicidade de compreender o Espírito de justiça perfeita e de bondade infinita e, consequentemente, salvaguardálo de qualquer outra cilada semelhante.

Ao contrário, aqueles que, provocados ou provocadores, tiverem sucumbido, podem estar certos de que experimentarão as maiores torturas morais, pela contínua presença do cadáver de sua vítima e do seu próprio. Durante séculos serão roídos pelo remorso, por haverem desobedecido tão gravemente às leis celestes, e serão perseguidos, até o dia da expiação, pelo espectro horrível da dupla visão de seus cadáveres ensanguentados.

Felizes ainda se eles próprios aliviarem os sofrimentos por um arrependimento sincero e profundo que lhes abra os olhos da alma, porque então, ao menos poderão entrever um fim às suas penas, compreenderão Deus e lhe pedirão forças para não mais provocarem sua justiça terrível.


3º. ─ CONSEQUÊNCIAS HUMANAS

Os vocábulos dever, honra e coragem, por vezes são pelos homens considerados como questões de honra, para justificarem suas ações e seus crimes.

Eles sempre compreendem tais vocábulos? Não são eles o resumo das intenções do Cristo? Por que, então, lhes truncar o sentido? Por que, então, regredir à barbárie?

Infelizmente, na sua generalidade, os homens ainda se acham sob a influência do orgulho e da ostentação. Para se escusarem aos próprios olhos, fazem soar bem alto os vocábulos dever, honra e coragem e não se dão conta de que eles significam: execução dos mandamentos de Deus, sabedoria, caridade e amor. Com essas palavras, entretanto, estrangulam seus irmãos; com elas se suicidam; com elas se perdem.

Como estão cegos! Julgam-se fortes por terem arrastado um infeliz mais fraco do que eles. Estão cegos quando creem que a aprovação de sua conduta por outros cegos como eles próprios lhes acarretará a consideração humana! A própria Sociedade onde vivem os reprova e em breve os amaldiçoará, pois o reino da fraternidade se aproxima. Enquanto isso, deles fogem os homens sensatos, como fogem das feras.

Examinemos alguns casos e veremos se o raciocínio justifica sua interpretação das palavras dever, honra e coragem.

Um homem tem o coração varado de dor e a alma cheia de amargura, porque surpreendeu provas irrecusáveis da má conduta da esposa. Provoca um dos sedutores dessa pobre e infeliz criatura. Tal provocação seria resultado de seus deveres, de sua honra, de sua coragem? Não, porque sua honra não lhe será devolvida. Sua honra pessoal não foi nem pode ter sido atingida. Isto será vingança.

Melhor ainda. Para provar que sua pretensa honra não está em jogo, é que muitas vezes sua infelicidade é mesmo ignorada e ficaria ignorada se não fosse tornada pública por mil vozes provocadas pelo escândalo ocasionado por sua vingança.

Enfim, se sua infelicidade fosse conhecida, ele seria sinceramente lamentado por todos os homens sensatos, resultando numerosas provas de verdadeira simpatia, e ele teria contra si apenas o riso dos corações malévolos e endurecidos, mas desprezíveis.

Num caso como no outro, sua honra não seria devolvida nem retirada.

Só o orgulho é, pois, o guia de quase todos os duelistas, e não a honra.

Credes que por uma palavra; pela falsa interpretação de uma frase; pelo roçar insensível e involuntário de um braço ao passar; enfim, por um sim ou por um não, e até mesmo, eventualmente, por um olhar que lhe não era dirigido, seja o duelista levado por um sentimento de honra a exigir uma pretensa reparação pelo assassinato e pelo suicídio? Oh! Não duvideis. O orgulho e a certeza de sua força são seus únicos móveis, por vezes auxiliados pela ostentação, pois ele quer exibir-se, dar prova de coragem, de saber e às vezes de generosidade.

Ostentação!!!

Ostentação, repito, porque seus conhecimentos em questões de duelo são os únicos verdadeiros; sua coragem e sua generosidade são mentiras.

Quereis pô-lo em prova real, a esse espadachim corajoso? Ponde-o diante de um rival de reputação infernal, superior à sua, no entanto possivelmente de um saber inferior ao seu, e ele empalidecerá e tudo fará para evitar o combate. Ponde-o diante de um muito mais fraco e ignorante dessa ciência duplamente mortal, e vê-lo-eis impiedoso, altivo e arrogante, mesmo quando constrangido a ter piedade.

─ Isso é coragem?

A generosidade! Oh! Falemos dela. Será generoso o homem

que, confiante em sua força, depois de haver provocado a fraqueza, a esta concede a continuação de uma vida humilhada e levada ao ridículo?

Será generoso aquele que, para alcançar uma coisa desejada e ambicionada, provoca seu fraco possuidor para obtê-la, a seguir, como recompensa de sua generosidade?

Será generoso aquele que, usando seus talentos criminosos, poupa a vida de seres fracos que injuriou?

Será, ainda, generoso quando dá semelhante prova de generosidade ao marido ou irmão a quem indignamente ultrajou, e que ele expõe, agora pelo desespero, a um segundo suicídio?

Oh! Meus amigos! Crede todos que o duelo é uma terrível e horrorosa invenção dos Espíritos maus e perversos, invenção digna do estado de barbárie que aflige ao máximo o nosso pai, o Deus tão bom.

Cabe a vós, espíritas, combater e destruir tão triste hábito, esse crime digno dos anjos das trevas.

Cabe a vós, espíritas, dar o nobre exemplo da renúncia, a despeito de tudo, a esse funesto mal.

Cabe a vós, espíritas sinceros, fazer compreendida a sublimidade das palavras dever, honra e coragem, e Deus falará por vossas vozes.

Cabe a vós, enfim, a felicidade de semear entre vossos irmãos os germens tão preciosos e por nós ignorados em nossa existência terrena, os do Espiritismo.



Teu pai, ANTÔNIO

OBSERVAÇÃO: Os duelos tomam-se cada vez mais raros ao menos na França e se vemos ainda, de vez em quando, dolorosos exemplos, seu número já não é comparável aos de outrora. Antigamente um homem não saía de casa sem prever um encontro, em conseqüência do que tomava precauções. Um sinal característico dos costumes da época e da gente estava no porte habitual, ostensivo ou oculto, de armas ofensivas e defensivas. A abolição desse uso testemunha o abrandamento dos costumes; e écurioso seguir-lhe a gradação desde aquela época em que os cavaleiros jamais cavalgaram sem armadura e armados de lança, até o simples porte da espada, mais como ornamento e acessório do brasão, do que arma agressiva. Outro traço dos costumes é que outrora os combates singulares se davam em plena rua, perante a multidão que se afastava para deixar o campo livre, e que hoje são ocultos. Hoje a morte de um homem é um acontecimento comovente. Outrora não se prestava atenção. O Espiritismo apagará esses últimos vestígios da barbárie, inculcando nos homens o espírito de caridade e de fraternidade.



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