Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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O Sr. Émile, que obteve a comunicação acima e muitas outras igualmente notáveis, é muito jovem. Ele não é apenas um excelente médium escrevente. É médium pintor, posto não tenha aprendido desenho nem pintura. Ele pinta a óleo paisagens e diversos temas, e por isso é levado a escolher, misturar e combinar as cores necessárias.

Do ponto de vista da Arte, seus quadros certamente não são perfeitos, posto em certas exposições sejam vistos muitos que não valem mais. Falta-lhes acabamento e delicadeza, e os tons são duros e muito acentuados. Mas, quando se pensa nas condições em que são feitos, não são menos notáveis. Quem sabe se, com exercícios, não adquirirá ele a habilidade que lhe falta e não se tornará um verdadeiro pintor, como aquele operário de Bordeaux que sabendo apenas assinar o nome, escreve como médium e acabou tendo uma linda letra para uso pessoal, sem outro mestre além dos Espíritos?

Quando vimos o Sr. Émile, ele estava concluindo um quadro alegórico, onde se vê um féretro, sobre o qual estava escrito: Aqui jaz 18 séculos de luzes. Permitimonos criticar tal inscrição do ponto de vista gramatical, e, em primeiro lugar, não compreendemos o sentido dessa alegoria colocando dezoito séculos de luzes num caixão, visto que, dizíamos nós, graças sobretudo ao Cristianismo, a Humanidade está hoje mais esclarecida do que naquela época. Isto aconteceu na sessão do dia 16, na qual ele recebeu a comunicação acima. O Espírito respondeu às nossas observações, acrescentando o seguinte:

“Aqui jaz é posto intencionalmente. O sujeito não é expresso pelo número 18, representando séculos: é um total de séculos, uma ideia coletiva, como se houvesse um lapso de tempo de 18 séculos.

Podereis dizer aos vossos gramáticos que não confundam uma ideia coletiva com uma ideia de separação. Eles próprios não dizem da multidão, que pode ser composta de incalculável número de pessoas, que ELA PODE mover-se? É o bastante sobre o assunto. Assim deve ser, porque essa é a ideia.

“Agora, falemos da alegoria. Dezoito séculos de luzes num caixão! Essa ideia representa todos os esforços feitos pela verdade durante esse tempo, esforços que foram sempre destruídos pelo espírito de partido, pelo egoísmo. Dezoito séculos de luzes em pleno dia, seriam dezoito séculos de felicidade para a Humanidade, dezoito séculos que apenas começam a germinar na Terra e que teriam tido seu desenvolvimento. O Cristo trouxe a verdade à Terra e a colocou ao alcance de todos. O que aconteceu com ela? As paixões terrestres dela se apoderaram e ela foi metida num caixão, de onde acaba de tirá-la o Espiritismo. Eis a alegoria.”

LÉON DE MURIANE

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