Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1862

Allan Kardec

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Extraímos a passagem seguinte de uma carta enviada por um amigo do autor.

“Imagina qual não foi minha surpresa quando, na Doutrina Espírita, da qual não fazia a mínima ideia, reconheci toda a teoria de Fourier sobre a alma, a vida futura, a missão do homem na vida atual e a reencarnação das almas. Julga tu mesmo. Eis, em resumo, a teoria de Fourier:

“O homem está ligado ao planeta. Ele vive sua vida e não a deixa nem mesmo morrendo.

“Ele tem duas existências: a vida atual, que Fourier compara ao sono, e a vida que ele chama de aromal, a outra vida, numa palavra, que é o despertar. Sua alma passa alternativamente de uma vida à outra, e volta periodicamente a se reencarnar na vida atual.

“Na vida atual, a alma não tem o sentimento de suas vidas anteriores, mas o tem na vida aromal e vê todas as existências precedentes.

“As penas na vida aromal são os medos que as almas experimentam de serem condenadas, ao se reencarnarem na vida atual, a animar o corpo de um infeliz. Porque, diz Fourier, veem-se diariamente pessoas vindo pedir caridade à porta dos castelos dos quais foram donas em vida anterior, e acrescenta: “Se os homens estivessem bem convencidos da verdade que exponho ao mundo, todos se esforçariam por trabalhar pela felicidade de todos”.

“Vês, meu caro amigo, por esse curto extrato, quanto se assemelham a doutrina de Fourier e o Espiritismo e que, sendo eu falansteriano, não seria difícil fazer de mim um adepto da Doutrina Espírita.”

É impossível ser mais explícito sobre o capítulo da reencarnação. Não é apenas uma ideia vaga de existências sucessivas através de vários mundos. É neste que o homem renasce para se depurar e expiar.

Tudo aí está: alternância entre a vida espiritual, que ele chama de aromal, e a vida corpórea; esquecimento momentâneo durante esta vida, das existências anteriores, e lembrança do passado durante a primeira; expiação, pelas vicissitudes da vida.

Seu quadro dos infelizes que vêm mendigar à porta dos castelos de que foram donos em existências precedentes, parece calcado nas revelações dos Espíritos.

Por que razão aqueles que tão violentamente atacam hoje a doutrina da reencarnação, nada disseram quando Fourier dela fez uma das pedras angulares de sua teoria? É que, então, ela lhes parecia confinada nos falanstérios, ao passo que hoje percorre o mundo, além de outras razões facilmente compreensíveis, e que não precisamos abordar.

Aliás, ele não foi o único a ter a intuição dessa lei da Natureza. O germe dessa ideia é encontrado numa porção de escritores modernos. O Sr. Louis Jourdan, redator do Siècle, formulou-a de modo inequívoco no seu encantador livrinho Prères de Ludovic, publicado pela primeira vez em 1849, consequentemente antes que se cogitasse do Espiritismo, e é sabido que esse livro não é obra de ficção, mas de convicção.

Entre outras, coisas nele se lê o seguinte:

“Para mim, confesso, creio, mas creio firmemente, creio apaixonadamente, como se cria nas épocas primitivas, que cada

uma e cada um de nós prepara hoje a sua transformação futura, do mesmo modo que nossa existência atual é o produto de existências anteriores.” O livro é inteiramente assentado nessa base.

Agora encaremos a questão de outro ponto de vista, para responder a uma interrogação que a respeito nos foi feita várias vezes.

Algumas pessoas impugnam a doutrina da reencarnação, como contrária aos dogmas da Igreja, e daí concluem que a mesma não existe. O que é que se pode responder?

A resposta é muito simples. A reencarnação não é um sistema que depende dos homens adotá-la ou não, como se faz com um sistema político, econômico ou social. Se existe, é que está em a Natureza; é uma lei inerente à Humanidade, como comer, beber e dormir; uma alternativa da vida da alma, como a vigília e o sono são alternativas da vida do corpo. Se é uma lei da Natureza, não há uma opinião favorável que possa fazê-la prevalecer, nem uma opinião contrária que possa impedi-la de existir.

A Terra não gira em torno do Sol porque a gente acredita que ela gira, mas porque ela obedece a uma lei, e os anátemas que foram lançados contra essa lei não impediram que a Terra girasse. É assim com a reencarnação. Não será a opinião de alguns homens que os impedirá de renascerem, se tiverem que renascer.

Estabelecido que a reencarnação é uma lei da Natureza, suponhamos que ela não possa acomodar-se com um dogma. Trata-se de saber se a razão está com o dogma ou com a lei. Ora, quem é o autor de uma lei da Natureza, senão Deus? No caso, direi que não é a lei que contraria o dogma, mas o dogma que contraria a lei, pois qualquer lei da Natureza é anterior ao dogma, e os homens renasciam antes de ser estabelecido o dogma.

Se houvesse incompatibilidade absoluta entre um dogma e uma lei da Natureza, isso seria prova de que o dogma é obra dos homens, que não conheciam a lei, pois Deus não pode contradizer-se, desfazendo de um lado aquilo que fez do outro. Sustentar essa incompatibilidade é, pois, fazer o processo do dogma. Segue-se que o dogma é falso? Não, mas apenas que é susceptível de uma interpretação, como foi interpretada a Gênese, quando se reconheceu que os seis dias da criação não se acomodavam com a lei da formação do globo. A religião ganhará com isso, pois haverá menos incrédulos.

A questão é saber se existe ou não a lei da reencarnação. Para os espíritas, há milhares de provas contra uma, que é inútil aqui repetir. Direi apenas que o Espiritismo demonstra que a pluralidade de existências não só é possível, mas necessária, indispensável, e ele encontra a sua prova, sem falar da revelação dos Espíritos, numa inumerável multidão de fenômenos de ordem moral, psicológica e antropológica.

Tais fenômenos são efeitos que têm uma causa. Buscando-se a causa, encontramo-la na reencarnação, posta em evidência pela observação daqueles fenômenos, como a presença do Sol, embora oculto pelas nuvens, é posta em evidência pela luz do dia.

Para provar que está errada, ou que essa lei não existe, seria preciso explicar melhor, por outros meios, TUDO o que ela explica, o que ninguém ainda fez.

Antes da descoberta das propriedades da eletricidade, se alguém tivesse anunciado que poderia em cinco minutos corresponder-se a quinhentas léguas, não teriam faltado cientistas que lhe provassem cientificamente, pelas leis da mecânica, que a coisa era materialmente impossível, pois não conheciam outras leis. Para tanto havia necessidade da revelação de uma nova força. Assim com a reencarnação. É uma nova lei, que vem lançar luz sobre uma porção de questões obscuras e que modificará profundamente todas as ideias, quando for reconhecida.

Assim, não é a opinião de alguns homens que prova a existência dessa lei. São os fatos. Se invocamos o seu testemunho, é para demonstrar que ela tinha sido entrevista e suspeitada por outros, antes do Espiritismo, que não é o seu inventor, mas que a desenvolveu e lhe deduziu as consequências.

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