Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Ao Sr. Redator Chefe do Renard

Sr. Redator,

Se o assunto que aqui abordo não vos parece muito batido nem muito extensamente tratado, peço-vos a inserção desta carta no próximo número de vosso estimado jornal.

Algumas palavras sobre o Espiritismo: É uma questão muito controvertida e que hoje preocupa a muitos Espíritos, que tudo quanto um homem leal e seriamente convicto possa escrever acerta deste assunto não pode a ninguém parecer ocioso ou ridículo.

A ninguém quero impor minhas convicções, pois não tenho a idade nem a experiência ou a inteligência necessárias para ser um Mentor. Quero apenas dizer a todos os que, apenas conhecendo essa teoria de nome, estão dispostos a acolher o Espiritismo pela troça ou por um desdém simpático: Façam como eu fiz. Tentai, em primeiro lugar, instruir-vos, e depois tereis o direito de desdenhar ou atacar.

Há um mês, Sr. Redator, eu tinha apenas uma vaga ideia do Espiritismo. Apenas sabia que essa descoberta, ou essa utopia, para a qual fora inventado um vocábulo novo, repousava sobre fatos (verdadeiros ou falsos), de tal modo sobrenaturais, que eram, de saída, rejeitados por todos os homens que não acreditam em nada que lhes causa admiração, que jamais assimilam um progresso senão a reboque de todo o seu século, e que, novos Tomés, só se convencem quando tocam.

Como eles, confesso-o, eu estava disposto a rir dessa teoria e de seus adeptos. Mas, antes de rir, quis saber do que ria, e apresentei-me numa sociedade de espíritas, em casa do Sr. E... B... Diga-se de passagem que o Sr. B... pareceu-me um espírito reto, sério e esclarecido, cheio de uma convicção suficientemente forte para deter o riso nos lábios de um trocista, porque, digam o que disserem, uma convicção sólida sempre se impõe.

Ao fim da primeira sessão eu já não ria, mas ainda duvidava, e o que sentia, sobretudo, era um enorme desejo de instruir-me, uma impaciência febril para assistir a novas provas.

Foi o que fiz ontem, Sr. redator, e agora não mais duvido. Sem falar de algumas informações pessoais que me foram transmitidas sobre coisas ignoradas tanto pelo médium quanto por todos os membros da Sociedade, vi fatos para mim irrefutáveis.

Sem fazer aqui ─ e o compreendereis por quê ─ qualquer reflexão sobre o grau de instrução e inteligência do médium, declaro impossível a alguém que não seja um Bossuet ou um Pascal, responder imediatamente, de modo tão claro quanto possível, com uma velocidade, por assim dizer, mecânica, e em estilo conciso, elegante e correto, várias páginas sobre perguntas tais como esta: “Como conciliar o livrearbítrio com a presciência divina?”, isto é, sobre os mais árduos problemas da metafísica.

Eis o que vi, senhor redator, e muitas coisas mais, que deixo de citar nesta carta, já bem longa. Escrevo-a, repito, a fim de, se possível, inspirar a alguns dos vossos leitores o desejo de instruir-se. Depois, como eu, talvez se convençam.


Tibulle Lang
Antigo aluno da Escola Politécnica.

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