Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Escreve-nos um dos nossos correspondentes de uma cidade do Sul:

“Venho hoje fornecer nova prova que a cruzada de que vos falei se traduz de mil formas. Assistia ontem a uma reunião onde se discutia acaloradamente pró e contra o Espiritismo. Um dos assistentes asseverou o seguinte: ‘As experiências do Sr. Allan Kardec não são melhores do que as de que acabamos de falar. O Sr. Kardec evita contar em sua Revista todas as mistificações e tribulações que experimenta. Sabei, por exemplo, que no ano passado, no mês de setembro, numa reunião de cerca de trinta pessoas, havida em casa do Sr. Kardec, todos os assistentes foram mimoseados a cacetadas pelos Espíritos. Eu estava em Paris na ocasião e ouvi os detalhes de uma pessoa que acabara de assistir à reunião, e que me mostrou na espádua o lugar machucado por violenta cacetada recebida. Eu não vi a bengala, disse-me ela, mas senti a pancada.’

“Desnecessário dizer-vos que desejo ser esclarecido sobre este ponto e que vos seria muito reconhecido pelas explicações que tiverdes a bondade de me dar, etc.”

Não teríamos distraído nossos leitores com um caso tão insignificante, se o mesmo não tivesse fornecido matéria para uma instrução que pode ter utilidade no momento, pois não acabaríamos se tivéssemos que responder a todos os absurdos de que nos acusam.

Resposta. Meu caro senhor, o fato de que me falais está entre as coisas possíveis, e das quais há mais de um exemplo. Dizer que um deles se passou em minha casa é reconhecer formalmente a manifestação dos Espíritos. A forma da história, contudo, denota uma intenção que não me deixa concordar com o autor. Pode ele ser um crente, mas certamente não é benevolente, e esquece a base da moral espírita: a caridade. Se o caso relatado houvesse acontecido, como pretende a pessoa tão bem informada, eu não teria deixado passar em silêncio, porque seria um fato capital, do qual não se poderia duvidar, pois, como foi dito, havia trinta testemunhas levando no lombo a prova da existência dos Espíritos. Infelizmente, para o vosso narrador, não há uma só palavra verdadeira na história. Dou-lhe um desmentido formal, bem como àquele que afirma ter assistido à sessão, e desafio ambos a virem sustentar o que dizem perante a Sociedade de Paris, como o fazem a duzentas léguas.

Os contadores de histórias não pensam em tudo e caem em suas próprias armadilhas. É o que ocorre neste caso, porque há, para o fato tão positivamente afirmado por uma testemunha que se diz ocular, uma impossibilidade material: é que a Sociedade suspende suas sessões de 15 de agosto a 1º de outubro; que partindo de Paris no fim de agosto só voltei a 20 de outubro; consequentemente, que no mês de setembro eu estava em plena viagem. Como vedes, é um álibi dos mais autênticos.

Se, pois, a pessoa em questão levava nas espáduas a marca de bengaladas, e como não houve reunião em minha casa, ela as recebeu alhures e, não querendo dizer onde nem como, achou interessante acusar os Espíritos, o que era menos comprometedor e evitava qualquer explicação.

Meu caro senhor, dais realmente muita importância a essa historinha ridícula, pondo-a entre os atos da cruzada contra o Espiritismo. Há tantas dessa natureza que seria preciso não ter o que fazer para se dar ao trabalho de responder. A hostilidade traduz-se por atos mais sérios e que, entretanto, não são mais inquietantes. Tomais as diatribes dos nossos adversários muito a sério. Pensai, pois, que quanto mais se agitam para combater o Espiritismo, mais provam a sua importância. Se não passasse de mito ou sonho vão, não se inquietariam tanto. O que os torna tão furiosos e encarniçados contra ele é que o veem avançar contra o vento e a maré, e sentem apertar-se cada vez mais o círculo onde se movem.

Deixai, pois, os mal-intencionados inventarem histórias para boi dormir, e outros jogarem o veneno da calúnia, porque semelhantes meios são a prova de sua impotência para atacar com boas razões. Deles nada tem o Espiritismo a temer. Ao contrário, são as sombras que lhe destacam o brilho. Os mentirosos se desgastam com suas invenções, e os caluniadores com a vergonha que jorra sobre eles.

O Espiritismo tem o apanágio de todas as verdades novas que atiçam as paixões das pessoas cujas ideias e interesse elas podem ferir. Ora, vede se todas as grandes verdades que foram combatidas com o maior encarniçamento não superaram todos os obstáculos que lhe foram opostos; se uma só sucumbiu aos ataques de seus inimigos. As ideias novas que apenas tiveram um brilho passageiro caíram por si mesmas e porque não tinham em si a vitalidade que só a verdade pode dar. Estasforam menos atacadas, ao passo que as que prevaleceram o foram com mais violência.

Não penseis que a guerra movida contra o Espiritismo tenha chegado ao apogeu. Não. Ainda é preciso que certas coisas se realizem para abrir os olhos aos cegos. Não posso nem devo dizer mais no momento, porque não devo entravar a marcha necessária dos acontecimentos. Digo-vos, porém, enquanto esperamos: Quando ouvirdes declamações furibundas; quando virdes atos materiais de hostilidade, de qualquer parte de onde vierem, longe de vos abalardes, aplaudi-os tanto mais quanto mais repercussão tiverem. É um dos sinais anunciados do triunfo próximo.

Quanto aos verdadeiros espíritas, devem distinguir-se pela moderação e deixar aos antagonistas o triste privilégio das injúrias e das personalidades que nada provam, a não ser uma falta de habilidade, a princípio, e a penúria de boas razões a seguir.

Ainda algumas palavras, eu vos peço, para aproveitar a ocasião, sobre a conduta em relação aos adversários. Tanto é dever de todo bom espírita esclarecer aos que o procuram de boa-fé, quanto é inútil discutir com antagonistas de má-fé ou com ideia preconcebida, que por vezes estão mais convencidos do que parece, mas não querem confessá-lo. Com estes toda polêmica é ociosa, porque ela não tem objetivo e não leva à mudança de opinião. Muita gente de boa vontade reclama para que não percamos tempo com os outros.

Tal é a linha de conduta que sempre aconselhei e tal a que eu mesmo segui invariavelmente, abstendo-me sempre de ceder às provocações que me foram feitas de descer à arena da controvérsia. Se por vezes respondo a certos ataques e afirmações errôneas, é para mostrar que não é a possibilidade de resposta que falta, e para dar aos espíritas meios de refutação, caso necessário. Aliás, há algumas que reservo para mais tarde. Como não tenho impaciência, tudo observo com calma e sangue frio. Espero confiante o momento oportuno, que sei que virá, deixando que os adversários se metam num beco sem saída.

A medida de suas agressões não está cheia. É preciso que se encha. O presente prepara o futuro. Até aqui não há qualquer objeção séria que não se ache refutada em meus escritos. Não posso, pois, senão enviar a eles, para me não repetir incessantemente com todos aqueles a quem agrada falar do que ignoram as primeiras palavras. Com quem não leu, ou se leu, tomou atitude premeditada, de pé atrás, contra o que é dito, toda discussão é supérflua.

As questões pessoais apagam-se ante a grandeza do objetivo e do conjunto do movimento irresistível que se opera nas ideias.

Pouco importa, pois, que este ou aquele seja contra o Espiritismo, quando se sabe que ninguém tem o poder de impedir a realização dos fatos. É o que a experiência confirma todos os dias.

Digo, pois, a todos os espíritas: Continuai a semear a ideia. Espalhai-a pela doçura e pela persuasão e deixai aos nossos antagonistas o monopólio da violência e da acrimônia a que só se recorre quando não se é bastante forte pelo raciocínio.

Vosso dedicado,
A. K.

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