Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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(Sociedade Espírita de Paris, 13 de março de 1863 - Médium: Sra. Costel)


Minha filha, venho dar um ensinamento médico aos espíritas. Aqui a Astronomia e a Filosofia têm eloquentes intérpretes, e a moral conta tantos escritores quantos médiuns. Por que a medicina, em seu lado prático e fisiológico, seria negligenciada? Eu fui o criador da renovação médica, que hoje penetra nas fileiras dos sectários da medicina antiga. Ligados contra a homeopatia, em vão lhe criaram diques sem número, em vão lhe gritaram: “Não irás mais longe!”

A jovem medicina, triunfante, transpôs todos os obstáculos, e o Espiritismo lhe será poderoso auxiliar. Graças a ele, ela abandonará a tradição materialista que por tanto tempo lhe retardou o desenvolvimento. O estudo médico está inteiramente ligado à pesquisa das causas e efeitos espiritualistas; ela disseca os corpos e deve, também, analisar a alma.

Deixai, pois, um velho médico justificar os fins e os meios da doutrina que propagou e que ele vê estranhamente desfigurada aqui em baixo pelos praticantes, e no alto por Espíritos ignorantes que usurpam o seu nome. Gostaria que minha palavra escutada tivesse o poder de corrigir os abusos que alteram a homeopatia e, assim, a impedem de ser útil como deveria.

Se eu falasse num centro prático, onde os conselhos pudessem ser ouvidos com proveito, eu me elevaria contra a negligência de meus colegas terrenos que desconhecem as leis primordiais do Organon, exagerando as doses e, sobretudo, não dando à trituração tão importante dos medicamentos, os cuidados que indiquei. Muitos esquecem que cem, e às vezes duzentos golpes são absolutamente necessários ao desprendimento do princípio médico apropriado a cada uma das plantas ou venenos que formam nosso arsenal curador. Nenhum remédio é indiferente e nenhum medicamento é inofensivo. Quando o diagnóstico mal feito produz um resultado irrelevante, ele desenvolve os germes da moléstia que deveria combater.

Mas eu me deixo arrastar por meu assunto, e eis-me na iminência de dar um curso de homeopatia a um auditório que não pode interessar-se pela questão. Entretanto não julgo inútil iniciar os espíritas nos princípios fundamentais da ciência, a fim de premuni-los contra as decepções que possam sofrer, quer da parte dos homens, quer mesmo da dos Espíritos.

SAMUEL HAHNEMANN


OBSERVAÇÃO: Esta dissertação foi motivada pela presença à sessão de um médico homeopata estrangeiro que desejava a opinião de Hahnemann sobre o estado atual da ciência. Faremos observar que ela foi dada através de uma jovem senhora que não fez estudos médicos, e à qual necessariamente são estranhos muitos termos especiais.

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