Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Esta obra é um relato puro e simples, sem comentários nem explicações, dos fenômenos mediúnicos produzidos pelo Sr. Home. Esses fenômenos são muito interessantes para quem quer que conheça o Espiritismo e possa compreendê-los, mas, sós, eles são pouco convincentes para os incrédulos, que não aceitando nem mesmo o que veem, ainda menos acreditam no que se lhes conta. É uma coleção de fatos, mais apropriada aos que sabem do que aos que não sabem, instrutiva para os primeiros, simplesmente curiosa para os últimos.

Nossa intenção não é examinar nem discutir aqui esses fatos que já foram tratados nos artigos publicados sobre o Sr. Home na Revista Espírita de fevereiro, março, abril e maio de 1858. Apenas diremos que a simplicidade do relato tem um cunho de verdade que não poderia ser ignorado e que, por nós, não temos motivo algum de suspeitar da sua autenticidade. O que se lhe pode reprochar é a monotonia e a ausência de qualquer conclusão, de qualquer dedução filosófica ou moral. São também muito frequentes as incorreções de estilo. A tradução, sobretudo em certas passagens, se afasta muito do espírito da língua francesa. Se a dúvida é a primeira impressão naquele que não se pode dar conta dos fatos, quem quer que tenha lido atentamente e compreendido as nossas obras, principalmente o Livro dos médiuns, reconhecerá ao menos a sua possibilidade, porque terá a sua explicação.

Como se sabe, o Sr. Home é um médium de efeitos físicos de enorme poder. Uma particularidade notável é que ele reúne a necessária aptidão para obter a maioria dos fenômenos desse gênero num grau de certo modo excepcional. Posto que a malevolência lhe tenha atribuído uma porção de fatos apócrifos, ridículos pelo exagero, resta muito para justificar a sua reputação. Sua obra terá sobretudo a grande vantagem de separar o verdadeiro do falso.

Os fenômenos que ele produz nos levam ao primeiro período do Espiritismo, ao das mesas girantes, também chamado da curiosidade, isto é, ao dos efeitos preliminares, que tinham por objetivo chamar a atenção sobre a nova ordem de coisas e abrir caminho ao período filosófico.

Essa marcha era racional, porque toda filosofia deve ser a dedução de fatos conscienciosamente estudados e observados e a que não repousasse senão sobre ideias puramente especulativos não teria base. A teoria deveria, pois, decorrer dos fatos, e as consequências filosóficas deveriam decorrer da teoria.

Se o Espiritismo se tivesse limitado aos fenômenos materiais, uma vez satisfeita a curiosidade, teria apenas tido uma voga efêmera. Tem-se a prova disso pelas mesas girantes, que tiveram o privilégio de divertir os salões apenas durante alguns invernos. Sua vitalidade estava apenas na sua utilidade. Assim, a extensão prodigiosa que ele adquiriu data da época em que entrou na via filosófica. Somente nessa época ele tomou lugar entre as doutrinas.

A observação e a concordância dos fatos conduziram à procura das causas; a procura das causas levou a reconhecer que as relações entre o mundo visível e mundo invisível existem em virtude de uma lei. Uma vez conhecida, essa lei deu a explicação de uma porção de fenômenos até então incompreendidos e reputados sobrenaturais antes de conhecidas as suas causas. Estabelecida a causa, esses fenômenos entraram na ordem dos fatos naturais, e desapareceu o maravilhoso.

A respeito disso, e com razão, pode-se criticar a qualificação de sobrenatural que o Sr. Home dá à sua vida, em sua obra. Outrora ele certamente teria passado por taumaturgo. Na Idade Média, se ele tivesse sido frade, tê-lo-iam feito santo, com o dom dos milagres; simples particular, teria passado por feiticeiro e teria sido queimado; entre os pagãos, dele teriam feito um deus e lhe teriam erguido altares. Mas, outros tempos, outros costumes. Hoje é um simples médium, predestinado, pelo poder de sua faculdade, a restringir o círculo dos prodígios, provando pela experiência que certos efeitos ditos maravilhosos não saem das leis da Natureza.

Certas pessoas temeram pela autenticidade de certos milagres ao vê-los caírem no domínio público. Partilhando, o Sr. Home, esse dom com uma multidão de outros médiuns que reproduzem esses fenômenos à vista de todo o mundo, realmente tornava-se impossível considerá-los como derrogações das leis da Natureza, caráter essencial dos fatos miraculosos, a menos que se admitisse que fosse dado ao primeiro que aparecesse, o poder de derrubar essas leis.

Mas, o que fazer? Não se pode impedir de ser aquilo que é; não se pode pôr debaixo do alqueire aquilo que não é privilégio de ninguém. É preciso resignar-se a aceitar os fatos consumados, assim como foram aceitos o movimento da Terra e a lei de sua formação. Se o Sr. Home tivesse sido o único no seu gênero, morto ele, poderiam negar o que ele fez, mas como negar fenômenos tornados vulgares pela multiplicidade e pela perpetuidade dos médiuns que surgem diariamente em milhares de famílias, em todos os pontos do globo? Ainda uma vez, de bom grado ou de mau grado, é preciso aceitar aquilo que é e aquilo que não se pode impedir.

Mas se certos fenômenos perdem prestígio do ponto de vista miraculoso, ganham-no em autenticidade. A incredulidade em relação aos milagres está na ordem do dia, é preciso convir, e a fé, por isto, estava abalada. Agora, em presença dos efeitos mediúnicos e graças à teoria espírita, que prova que tais efeitos estão em a Natureza, está demonstrada a possibilidade desses fenômenos e a incredulidade terá que se calar.

A negação de um fato arrasta à negação de suas consequências. Será melhor negar o fato considerado miraculoso do que admiti-lo como simples lei da Natureza? Então, as leis da Natureza não são obra de Deus? A revelação de uma nova lei não é prova de seu poder? Será Deus menor por agir em virtude de suas leis, do que as derrogando? Aliás, serão os milagres atributo exclusivo do poder divino? A própria Igreja não nos ensina que “falsos profetas, suscitados pelo demônio, podem fazer milagres e prodígios para seduzir até os eleitos?” Se o demônio pode fazer milagres, pode derrogar as leis de Deus, isto é, desfazer o que Deus fez, mas a Igreja não diz em parte alguma que o demônio possa fazer leis para reger o Universo. Ora, se os milagres podem ser feitos por Deus e pelo demônio, e se as leis são obra apenas de Deus, o Espiritismo, provando que certos fatos olhados como exceção, são aplicações das leis da Natureza, atesta, por isto mesmo, muito mais o poder de Deus do que os milagres, pois não atribui senão a Deus o que, na outra hipótese, poderia ser obra do demônio.

Dos fenômenos produzidos pelo Sr. Home ressalta outro ensinamento, e o seu livro vem em apoio ao que dissemos muitas vezes sobre a insuficiência das manifestações físicas apenas, para levar a convicção a certas pessoas. É um fato muito conhecido que muitas pessoas testemunharam as mais extraordinárias manifestações e nem por isso ficaram convencidos, porque não os compreendendo e não tendo base para assentar um raciocínio, julgaram ter visto charlatanices.

Seguramente, se alguém fosse capaz de vencer a incredulidade por efeitos materiais, este seria o Sr. Home. Nenhum médium produziu um conjunto de fenômenos mais empolgantes, nem em melhores condições de honestidade, contudo, bom número dos que o viram à obra ainda agora o tratam como hábil prestidigitador. Para muitos, ele faz coisas muito curiosas, mais curiosas que Robert Houdin, e eis tudo. Parecia, entretanto, que em presença de fatos tão brilhantes, tornados notórios pelo número e pela qualidade das testemunhas, que toda negação seria impossível e que a França em massa seria convertida. Quando esses fenômenos só ocorriam na América, rejeitavam-nos, dada a impossibilidade de vê-los. O Sr. Home veio mostrá-los ao escol social, e nesta sociedade ele encontrou mais curiosos do que crentes, posto desafiasse toda suspeita baseada no charlatanismo.

O que faltava, pois, a tais manifestações para convencer? Faltava-lhes a chave para serem compreendidas. Hoje não há um espírita que tenha estudado seriamente a ciência, que não admita os fatos citados no livro do Sr. Home, sem tê-los visto, ao passo que entre os que os viram há mais de um incrédulo. Isto demonstra que o que fala ao espírito e se apoia no raciocínio tem uma força de convicção não possuída pelo que só fala aos olhos.

Segue-se que a vinda do Sr. Home foi inútil? Certamente não. Dissemos e repetimos que ele apressou a eclosão do Espiritismo na França, pelo brilho que ele lançou sobre os fenômenos, mesmo entre os incrédulos, provando que eles não são cercados de mistérios nem das fórmulas ridículas da magia, e que se pode ser médium sem ter ares de feiticeiro.

Enfim, pela repercussão que o seu nome e o mundo que frequentou deram à coisa, sua vinda foi muito útil, quando mais não fosse para dar ao Sr. Oscar Comettant oportunidade para falar e redigir o espirituoso artigo que se conhece, para o qual só faltou ao autor conhecer o que criticava, exatamente como alguém que nada sabendo de música quisesse criticar Mozart ou Beethoven.

(Vide o relato da obra do Sr. Home pelo Sr. Comettant, no Siècle de 15 de julho de 1863, e algumas palavras nossas sobre esse artigo, na Revista Espírita de agosto seguinte).

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