Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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(Sociedade Espírita de Paris, 31 de julho de 1863 - Médium: Sr. A. Didier)

A religião católica nos mostra o purgatório como um lugar onde a alma, sofrendo terríveis expiações, alivia suas faltas e reivindica, pouco a pouco, pela dor, seus direitos ao sol da vida eterna. Imagem esplêndida, a mais perfeita, a mais verdadeira da grande trindade dogmática do inferno, do purgatório e do paraíso! Malgrado suas severidades desesperadoras, compreendeu a Igreja que era preciso um meio-termo entre a danação eterna e a felicidade eterna. Ela confundiu, entretanto, nesse estranho conjunto, o tempo infinito e progressivo, que é apenas um, com três situações limitadas e incompreensíveis.

À religião, ou antes, ao ensino inteiramente humanitário e progressivo do Cristo, o Espiritismo adiciona os meios de realizar esta humanidade ideal. Nos desvios filosóficos de nossa época, há mais de um germe espírita, e tal filósofo céptico que não aconselha para a felicidade definitiva da Humanidade senão o afastamento e a destruição de toda crença humana e divina, trabalha mais do que se pensa para a tendência universal do Espiritismo. Entretanto, é uma via em que o Céu aparece pouco; na qual a existência futura quase não aparece, mas onde pelo menos a tranquilidade material, e por assim dizer egoística desta vida, é compreendida com a clareza do legislador e, senão do santo, pelo menos de um filantropo humanitário.

Ora, tratar-se-ia de saber se, no estado latente, por assim dizer, da vida extracorpórea, e que poderia ser chamada intravital, tratar-se-ia de saber se, com a medida de conhecimentos e de sagacidade clarividente que possuem os Espíritos superiores, o progresso universal é tão eficaz quanto o progresso terreno.

Esta questão, fundamental para o Espiritismo, até o presente tem sido bem pouco resolvida, com respostas sobre detalhes. Como diz a Igreja, não é mais apenas um lugar de expiação, mas é um foco universal onde justamente as almas que aí circulam receiam com angústia ou aceitam com esperança as existências que se lhes desvelam.

Aí está, segundo nós, apenas o começo do que se chama o purgatório, e a erraticidade, essa fase importante da vida da alma, não nos parece de modo algum explicada, nem mesmo mencionada pelos dogmas católicos.

LAMENNAIS

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