Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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(Sociedade Espírita de Paris, 11 de julho de 1863 - Médium: Sr. A. Didier)

Que vos importa a idade dos patriarcas em geral, e a de Matusalém em particular? A Natureza, sabei-o bem, jamais tem tido contrassensos e irregularidades, e se a máquina humana alguma vez variou, jamais repeliu por tanto tempo a destruição material: a morte.

Como já vos disse, a Bíblia é um magnífico poema oriental, onde as paixões humanas são divinizadas, como as paixões que os gregos idealizavam, como as grandes colônias da Ásia Menor.

Não há razão para casar a concisão com a ênfase, a clareza com a difusão, a frieza do raciocínio e da lógica moderna com a exaltação oriental. Os querubins da Bíblia tinham seis asas, como sabeis: quase monstros! O Deus dos judeus banhavase em sangue; sabeis e quereis que vossos anjos sejam os mesmos anjos e que o vosso Deus, soberanamente bom e soberanamente justo, seja o mesmo Deus? Não alieis, pois, vossa análise poética moderna com a poesia mentirosa dos antigos judeus ou pagãos. A idade dos patriarcas é uma figura moral e não uma realidade. A autoridade, a lembrança desses grandes nomes, desses verdadeiros pastores de povos, enriquecidas de mistérios e de lendas que fizeram irradiar em torno deles, existiam entre esses nômades supersticiosos e idólatras das lembranças. É provável que Matusalém tenha vivido muito tempo no coração de seus descendentes.

Notai que na poesia oriental toda ideia moral é incorporada, encarnada, revestida de uma forma brilhante, radiante, esplêndida, contrariamente à poesia moderna que desencarna, que quebra o envoltório para deixar escapar a ideia até o céu. A poesia moderna não só é expressa pelo brilho e a cor da imagem, mas também pelo desenho firme e correto da lógica, numa palavra, pela ideia.

Como quereis aliar esses dois grandes princípios tão contrários? Quando ledes a Bíblia aos raios do Oriente, em meio às imagens douradas, nos horizontes intermináveis e difusos dos desertos, das estepes, fazei correr a eletricidade, que atravessa todos os abismos, todas as trevas, isto é, servi-vos da razão e julgai sempre a diferença do tempo, das formas e das compreensões.

LAMENNAIS

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