Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Pelo Sr. Herrenschneider
(2º Artigo)

O PRINCIPIO DA DUALIDADE DA ESSÊNCIA DA ALMA E O SISTEMA ESPIRITUAL DO SR. COUSIN E DE SUA ESCOLA

No artigo anterior procuramos provar que se em geral os senhores livrespensadores quisessem dar-se ao trabalho de examinar os motivos que lhes permitem afirmar-se, dizer “eu”, chegariam ao conhecimento de sua dupla essência; convencer-se-iam que sua alma é constituída de maneira a existir separadamente do corpo, tanto quanto de seu envoltório, e compreenderiam a erraticidade quando, após a morte, ela tivesse deixado sua matéria terrena, de sorte que sua ciência, se fosse baseada no verdadeiro princípio da constituição da alma, confirmaria os fatos espíritas, em vez de contradizê-los com tanta persistência.

Com efeito, nossa noção do “eu” compõe-se principalmente do sentimento e do conhecimento que temos de nós mesmos, e esses dois fenômenos íntimos, evidentes para todo mundo, implicam peremptoriamente dois elementos distintos na alma: um passivo, sensível, extenso e sólido, que recebe as impressões; outro ativo, sem extensão e pensante, que as percebe. Em consequência, se possuímos, ao lado de um elemento virtual, um elemento resistente e permanente, diferente do nosso corpo, não nos podemos dissolver pela morte; nossa imortalidade está provada e nossa préexistência é uma consequência natural. Assim, nossos destinos são independentes de nossa morada terrena, e esta não passa de um episódio mais ou menos interessante para nós, conforme os acontecimentos que o preenchem.

De acordo com estas observações, a dualidade da essência de nossa alma é um princípio importante, pois que nos instrui sobre a nossa existência real e imortal. Mas é um princípio muito mais importante por ser ela a fonte única em que adquirimos plena consciência de nossa individualidade, sendo assim a origem de nossa ciência, da qual não podemos duvidar, e sobre a qual repousa todo o resto dos nossos conhecimentos.

Efetivamente, começamos todos por nos conhecer, antes de notar o que nos rodeia, e medimos por nossa medida tudo o que examinamos e julgamos. Assim, é indispensável observar, para o estudo da verdade, que nosso saber parte de nós, para voltar a nós; que é um círculo formado por nós mesmos, que nos enlaça e nos envolve fatalmente, malgrado nosso. Os filósofos atuais o ignoram e o experimentam sem se aperceberem. É ele que os ofusca, que os cega e que os impede de olhar além e acima de si próprios. Assim teremos muitas ocasiões de constatar sua cegueira. Os Antigos, ao contrário, conheciam esse círculo e sua influência misteriosa, pois simbolizavam a ciência sob a figura de uma serpente mordendo a ponta da cauda, depois de se ter dobrado sobre si mesma. Isto significava, aos seus olhos, que nosso saber parte de um ponto dado, faz a volta de nosso horizonte intelectual e volta a seu ponto de partida. Ora, se esse ponto de partida é elevado e o olhar penetrante, o horizonte é largo e a ciência é vasta. Se, ao contrário, o ponto de partida roça o chão e a visão é turva, o horizonte é restrito e a inteligência das coisas é limitada.

Assim, tais quais formos pessoalmente, tal será o conjunto e o alcance dos nossos conhecimentos. Por tal motivo torna-se evidente que a primeira condição da ciência individual é a de examinar-se a si mesmo, não só para distinguir suas qualidades, seus defeitos e seus vícios, mas para conhecer, de saída, a constituição íntima do nosso ser, e em seguida elevar o nosso espírito e formar o nosso caráter.

Portanto, a verdadeira ciência não é feita para cada um. Aquele que a aspira não só deve ter inteligência e instrução, mas, sobretudo, ser sério, sóbrio, prudente, e não se deixar levar pelo capricho de sua imaginação, por sua vaidade, por seus interesses e por sua suficiência.

O que deve guiar o verdadeiro amante da verdade é um amor desinteressado por esse objetivo venerado; é a vontade enérgica e constante de jamais parar, e separar rigorosamente do joio a boa semente.

Quanto mais o homem se possui e quanto mais é calmo e nobre, melhor saberá discernir os caminhos que o conduzirão à verdade. Quanto mais ele é leviano, presunçoso ou apaixonado, tanto mais corromperá com seu hálito impuro os frutos que colherá na árvore da vida.

A primeira condição para chegar ao conhecimento das coisas é, portanto, o caráter individual, e é por esta razão que, na Antiguidade, provas solenes precediam a toda iniciação. Hoje o saber é espalhado sem discernimento, e cada um julga poder pretendê-lo, mas também a verdade menos que nunca é bem acolhida, ao passo que as mais estranhas doutrinas encontram numerosos aderentes. É preciso convencer-se que os Espíritos indiferentes, limitados pelas ciências exatas e naturais, levados pela imaginação, ou cheios de impertinência, são impróprios à pesquisa da verdade, e que seria mais prudente reservar esse nobre labor para alguns escolhidos. Entretanto, disposições mais sensatas hoje se manifestam pelo advento do Espiritismo, e, com efeito, os espíritas são homens bem dispostos para a busca da verdade porque, separando-se do turbilhão geral que arrasta a Sociedade, eles renunciaram por si mesmos às vaidades mundanas, aos princípios dos livres-pensadores e à superstição oficial dos cultos reconhecidos. Dão prova de sadia independência, de um amor sincero à verdade e de uma tocante solicitude por seus interesses eternos. São estas as melhores disposições morais para abordar os graves problemas da alma, do mundo e da Divindade.

Para nosso bem eterno, experimentemos entender-nos e seguir juntos os sinais que nos conduzirão à via sagrada, porque necessitamos ajudar-nos reciprocamente para atingir o objetivo que todos buscamos, o de nos esclarecermos apenas sobre o que é real e durável.

Depois das disposições morais que acabamos de indicar, a coisa mais indispensável para bem se entregar à obra delicada da iniciação, é o conhecimento do princípio da dualidade da essência da alma, porque é ele que constitui uma parte do misterioso segredo da Esfinge[1]. É uma das chaves da ciência e, sem possuí-la, todos os esforços tornam-se inúteis para atingi-lo.

Esse princípio da essência da alma, por si só, encerra, como consequências, as noções consideráveis que desejamos adquirir, ao passo que todos os princípios secundários até hoje descobertos não se elevam bastante para dominar o vasto horizonte dos conhecimentos humanos e para lhe abraçar todos os detalhes.

Os princípios inferiores desviam os que deles se servem no dédalo de numerosos fatos que eles não compreendem, e é pela insuficiência de seus primeiros princípios que os filósofos se transviaram e se perderam nas sutilezas arbitrárias de suas doutrinas incompletas. Eles fatalmente levaram a confusão onde julgavam tocar a verdade.

Nessas matérias, mais delicadas do que difíceis, só o princípio verdadeiro espalha a luz, resolve facilmente todos os problemas e abre as portas secretas que conduzem ao mais secreto santuário. Ora, já sabemos que levamos conosco esse princípio, e que para descobri-lo só se trata de nos estudarmos, mas de nos estudarmos com calma e imparcialidade.

Sabemos que esse princípio é a dualidade de nossa essência anímica, de sorte que não nos resta senão dobrar com precaução o fio, do qual temos o nó mais importante. Mas, à medida que avançarmos em nosso estudo psicológico, consultaremos, nada obstante, os trabalhos de nossos mais ilustre filósofos, a fim de reconhecer onde falharam e em que suas doutrinas confirmam nossas próprias pesquisas.

Assim, como observamos acima, parece evidente que tudo quanto em nós se liga à ordem sensível depende da substância de nossa alma, porque ela é o seu elemento extenso e sólido, que recebe todas as impressões exteriores e que se ressente de nossa atividade interior. Com efeito, nossa alma não poderia ser tocada de uma maneira qualquer, sem apresentar um obstáculo, de início, às oscilações do meio ambiente e, a seguir, às vibrações das emoções que nos afetam intimamente. Portanto, é essa maneira de ser muito natural que explica as nossas relações com tudo o que existe, com o que não somos nós, com o nosso não-eu moral, intelectual e físico, visível ou invisível.

A solidez e a extensão de nossa substância evidentemente não podem ser rejeitadas, em princípio. Contudo, não é essa opinião que reina na Universidade e no Instituto. O espiritualismo a nega como absurda, sob o pretexto especioso de que a divisibilidade, que seria sua consequência, implicaria na corruptibilidade da substância. Mas isto não passa de um equívoco, porque o que importa à corruptibilidade da natureza anímica é a simplicidade química de sua fluidez corporal e não a sua indivisibilidade mecânica, em falta da qual há mil maneiras de remediar, ao passo que, para ficar na verdade científica, é preciso evitar admitir um efeito sem causa, uma impressão possível sem resistência.

Assim, a sensibilidade de nossa alma nada ensina à nossa escola espiritualista. Ela liga gratuitamente os sentimentos à razão, atribui as sensações ao organismo material e não se explica sobre a conexão dessas diversas faculdades. Eis uma das causas de tua impotência filosófica.

Quanto a nós, a sensibilidade de nossa alma é a prova irrefutável da solidez e da extensão de sua substância. E é a noção dessas propriedades que nos abre um vasto campo de observação. Assim, de início, a extensão e a solidez substancial permitem à nossa alma tomar diferentes formas e conter o tipo de todos os órgãos que constituem nosso organismo corporal. Serve, assim, de origem e sustentáculo aos nossos nervos, sentidos, cérebro, vísceras, músculos e ossos, e permite nos encarnemos por meio dessa lei da mutabilidade das moléculas corporais, tão conhecida dos modernos fisiologistas.

Nossos cientistas supõem apenas, e erradamente, em nossa opinião, que essa lei é o efeito de uma força misteriosa da matéria, que se renova, se absorve, se escoa e se forma por si mesma, porque a matéria é inerte e nada forma por sua própria iniciativa.

Evidentemente, essa mutabilidade é efeito da atividade instintiva de nossa dupla essência anímica que se acha sob nosso envoltório, e a existência dessa lei prova que a nossa encarnação está na ordem da Natureza, pois ela é contínua, e ao cabo de uma série de anos, nosso corpo se renova regularmente.

A formação de nosso revestimento material e a nossa encarnação sucessiva se explicam, desta maneira, muito naturalmente. Mas, além disso, essa substancialidade extensa de nossa alma nos faz compreender igualmente o laço existente entre ela e o corpo, porque, sendo o nosso organismo visível apenas a cobertura do nosso organismo substancial, tudo quanto é sentido por um deve repercutir no outro. As emoções da substância da alma devem abalar o corpo e o estado deste deve inevitavelmente afetar suas próprias disposições morais e intelectuais. Eis o primeiro ensinamento resultante da natureza concreta de nossa substância.

O segundo ensinamento que daí retiramos é que a parte da substância de nossa alma que não serve de tipo ao nosso organismo material deve ser a base do nosso senso íntimo, daquele que recebe todas as nossas impressões morais e intelectuais, e que nos põe um contacto com a própria substância divina, de sorte que nossa substância recebe as impressões da radiação de todas as existências e de todas as atividades possíveis, e constata que é a origem primeira de todas as nossas noções. É da mesma maneira que recebemos o conhecimento de nós mesmos, pois se perguntarmos a um céptico como ele pode afirmar-se, sem a menor reserva ele responderá: “É que eu me sinto”, porque o próprio céptico não pode duvidar de suas sensações.

Entretanto, sentir-se não é todo o nosso conhecimento: o céptico também não pode negar que sabe que se sente. Ora, a percepção do nosso sentimento é consequência de nossa atividade intelectual, o que prova não somente que nossa alma não é passiva, mas que é também ativa, que ela quer, que ela percebe, que ela pensa e que ela é causativa e livre por si mesma.

Nossos próprios órgãos funcionam sem que tenhamos consciência, de sorte que se é forçado a atribuir à nossa alma um segundo elemento, um elemento ativo, virtual, isto é, uma força essencial, que está atenta quando nossa sensibilidade está desperta; que quer por efeito de seu próprio movimento; que percebe, pensa e reflete por meio do nosso órgão cerebral; que age auxiliada por nossos membros, e que anima nosso organismo com um movimento involuntário.

É pela presença, em nossa alma, dessa dupla ordem essencial: da ordem substancial passiva e sensível, e da ordem virtual ativa e pensante, que nós nos sentimos, que nós nos sabemos e que nós temos consciência de nossa própria personalidade, sem qualquer auxílio do mundo exterior.

Nossa força anímica é o nosso elemento espiritual por excelência, porque não tem, por si mesma, nem extensão nem solidez. Nós não a conhecemos senão por sua atividade. Se ela não quer nem pensa nem age, é como se não existisse; e se nossa alma não fosse substancialmente concreta, pela virtude de um outro elemento, nosso corpo não teria consistência e não passaria de um amontoado de pó. Nossa alma não poderia nem mesmo existir na erraticidade, pois perder-se-ia no nada, a menos que se supusesse, com o espiritualismo, um mistério impenetrável, que lhe permitisse existir sem extensão nem solidez, suposição que o Espiritismo e as leis naturais tornam absolutamente inadmissível.

Entretanto, é nossa força essencial que Leibnitz considera como sendo substância, a despeito de sua natureza fugidia; e a escola espiritualista francesa o repete, a seu exemplo, sem se deter nessa confusão ilógica.

Contudo, não basta chamar força a uma substância, para que ela realmente o seja e considerar essa substância imaginária como sendo o fundo de nosso ser, para que se saia do vazio das abstrações. Uma substância não existe senão por seu estado concreto, por sua extensão e sua solidez, por mais sutil que a concebamos, e é isto que nossa escola espiritualista se compraz em passar em silêncio. Eis, assim, outra causa de sua impotência moral e filosófica.

Nossa força essencial não é senão o princípio de nossa atividade; ela nos anima, mas não nos constitui. É o princípio de nossa vida, mas não o de nossa existência. Está por toda parte em nossa substância, espalha-se com ela em todo o nosso ser e dele recebe diretamente as impressões, sem o nosso concurso voluntário. É por essa estreita união de nossos dois elementos essenciais que nosso organismo funciona espontaneamente; que nossas sensações despertam a seguir a nossa atenção e, sem outro intermediário, nos levam a perceber a causa de nossas impressões; que nossa consciência é um conjunto de sentimentos e de reflexões e que toda noção, seja qual for o seu objeto, exige que o sintamos e o saibamos. Desde então, somente nós temos certeza de sua existência. É por este mesmo processo que temos conhecimento do Ser Supremo. Temos a sensação de sua presença por nosso senso íntimo, e compreendemos essa sensação sublime por nossa razão, porque o ideal do verdadeiro, do bem e do belo está primeiramente em nosso coração, antes de nos entrar na cabeça.

Os povos selvagens nisto não se enganam. Eles não duvidam de Deus; eles o imaginam simplesmente conforme o nível de sua grosseira inteligência, ao passo que vemos entre os cientistas discutir-se a sua personalidade, porque pretendem nada admitir senão pela força de seu raciocínio e porque se debatem em abstrações, sem estabelecer seu ponto de apoio na ordem sensível.

Tal é a constituição de nossa alma. Ela se compõe de dois elementos bem distintos entre si e que, não obstante, estão indissoluvelmente unidos, porque em tempo algum e em parte alguma esses elementos são encontrados separadamente, pois toda substância tem sua força e toda força tem sua substância. Assim, esta dualidade se acha reunida na essência de tudo o que existe. Ela está na matéria, na alma, em Deus. Repetindo, essa distinção na unidade é necessariamente admissível, porque cada um desses elementos está bem caracterizado; porque têm suas propriedades respectivas e sua modalidade categórica; e porque é uma lei universal que um mesmo princípio não pode ter efeitos contrários e que qualidades que se excluem denotam outros tantos princípios particulares. Mas sua unidade não é menos peremptória, porque nenhuma função, nenhuma faculdade, nenhum fenômeno se produz em nós e fora de nós sem o concurso simultâneo desses dois elementos irredutíveis.

É essa unidade na dualidade constante de nossa alma que nos explica este fenômeno psicológico importante, a saber: a espontaneidade instintiva de todas as nossas faculdades e de todas as nossas funções, assim como a formação do nosso caráter e da nossa natureza moral íntima. Efetivamente, nossas impressões se conservam em nós e se reproduzem involuntariamente, de sorte que, como a substância é o elemento passivo e permanente de nossa alma, é preciso atribuir-lhe a propriedade de conservar nossas sensações, de nelas concretizá-las, e de transmitilas, na ocasião, à atenção de nossa força essencial.

Sendo essas impressões de toda espécie, forma-se em nós, por essa propriedade conservadora, uma ordem moral, intelectual e prática permanente, que se manifesta por nossa atividade instintiva e espontânea; que nos inspira os sentimentos e as ideias, e que guia os nossos atos sem o nosso concurso voluntário, e por vezes malgrado nosso. Ademais, esses sentimentos e essas ideias adquiridas se agrupam em nossa alma e nos produzem novas ideias e novas imagens, que estávamos longe de esperar.

As funções psicológicas de nossa substância unida à nossa força essencial, são, assim, multiplicadas, e nos formam uma natureza moral, intelectual e prática espontânea, que é o fundo do nosso caráter, a origem de nossas disposições naturais. Assim, a nossa substância encerra, em estado latente, ou em potencial, como se exprime a escola, todas as nossas qualidades, todo o nosso conhecimento e todos os nossos hábitos passados, em estado permanente em nós. Em consequência, a ela e à sua atividade instintiva é que se deve atribuir a memória, a imaginação, o espírito e os sentidos naturais, assim como a origem de nossas ideias e de nossos sentimentos.

Essa ordem substancial instintiva incontestavelmente existe em nossa alma. Cada um se reconhece uma natureza moral permanente, disposições intelectuais e hábitos próprios que lhe facilitam a carreira e a conduta, se forem bons, ou que impedem seu sucesso e o arrastam em desvios deploráveis, se forem maus. Só os nossos filósofos não o percebem, porque, não admitindo, como já dissemos, uma ordem psicológica substancial, eles se condenam a atribuir tudo o que é resistente, em nossa alma, à influência da matéria, e a confundir com a nossa inteligência tudo o que é sensível e vivo.

É verdade que Aristóteles reconhecia no homem uma ordem potencial, onde todas as nossas qualidades estão em potencial, mas ele a define mal e também a confunde com a matéria. Desde então, ninguém mais se ocupou dessa ordem especial, salvo o Sr. Cousin. Mas esse filósofo contemporâneo, não reconhecendo na alma senão a inteligência, não considerou senão a atividade espontânea, sem lhe procurar a origem no elemento permanente da nossa natureza anímica. Ele a designa como sendo a razão espontânea e instintiva, em oposição à razão refletida, sem notar a contradição existente entre o instinto e a reflexão, qualidades que se excluem e que, evidentemente, não podem pertencer ao mesmo princípio! Assim, o Sr. Cousin tira apenas consequências limitadas dessa descoberta, e é por essa razão que a sua psicologia, como a de sua escola, tornou-se uma ciência seca, ilógica e sem grande expressão.

Detenhamos agora nossos pensamentos sobre o conjunto de observações precedentes, pois elas nos deram a conhecer fenômenos psicológicos até hoje desconhecidos. Elas nos fizeram constatar em nossa alma a existência de duas ordens morais, intelectuais e práticas bem distintas e fortemente caracterizadas, uma relacionando-se perfeitamente com as propriedades particulares de nossa substância, que são a permanência, a extensão e a solidez; a outra, às de nossa força essencial, que são a sua causalidade, sua inextensão e sua intermitência. A primeira é passiva, sensível, conservadora; a segunda é ativa, voluntária e refletida. A união íntima dos nossos dois elementos essenciais produz em nós, além disso, nossa tríplice atividade instintiva, que é o reflexo direto do estado verdadeiro de nossas qualidades e de nossos defeitos naturais.

Com efeito, por um lado, quanto mais sensível for a nossa natureza substancial; quanto mais delicada e conservadora, e quanto mais viva e enérgica a nossa atividade instintiva, tanto mais puros e elevados serão nossas ideias e sentimentos; tanto mais justo o nosso bom-senso e tanto mais fáceis e seguras a nossa memória e a nossa imaginação.

Pelo contrário, quanto menos aperfeiçoado for o nosso estado substancial, tanto mais lentas e limitadas serão a nossa memória e a nossa imaginação, mais grosseiras as nossas ideias, mais vis os nossos sentimentos e mais obtuso o nosso senso comum.

Mas, por outro lado, quanto mais enérgica, constante e flexível for a nossa força causadora, tanto mais fortes serão nossa atenção, nossa vontade, nossa virtude e nosso domínio sobre nós mesmos; mais alcance terão nossa percepção, nosso pensamento, nosso juízo e a nossa razão e, enfim, maior será a nossa habilidade e mais honrosa a nossa conduta, porque todas essas qualidades e faculdades derivam de nosso elemento virtual.

Ao contrário, quanto mais mole, entorpecida ou pesada a nossa força essencial, tanto mais nossa brutalidade e nossa covardia moral e intelectual manifestar-se-ão em plena luz. Deste modo, nosso valor tanto depende do estado das qualidades e das propriedades de um quanto do outro elemento de nossa alma.

Tal é o quadro sumário que representa a constituição íntima de nossa essência anímica, e que nos revela a nossa dupla faculdade de nos sentir e nos saber. Esse quadro no-la mostra, de começo, em sua unidade viva, pois descobrimos o duplo princípio de sua atividade e de sua passividade; de sua permanência e de sua causalidade; de sua existência no tempo e no espaço, e de sua independência própria e distinta de Deus, do mundo e de seu envoltório material.

Ele no-la mostra, em seguida, na sua diversidade maravilhosa, pois que reconhecemos a origem de suas qualidades e de suas faculdades, de suas funções e de seu organismo, nas propriedades respectivas de nossos elementos essenciais e em seu concurso recíproco.

Entretanto, este quadro é apenas um primeiro esboço, contudo, é fácil perceber nele o método de observação rigorosa que seguimos, que é o que Bacon descobriu; que Descartes introduziu na psicologia; que a escola escocesa aplicou; que a escola espiritualista e eclética observou em toda a sua doutrina. Encontramo-nos, portanto, no mesmo terreno de toda a filosofia séria, e se por vezes não estamos de acordo com nossas ilustrações acadêmicas, é que não podemos deixar de crer que a maioria dos fatos de consciência foram mal observados e mal explicados por elas.

Com efeito, o ecletismo espiritualista reconhece em nós três faculdades principais: a vontade, a sensação e a razão. Essas faculdades se distinguem do nosso corpo, que é sólido e amplo, de sorte que possuímos necessariamente uma alma inextensa e espiritual.

Feita esta constatação, o ecletismo não se pergunta como a nossa alma deve ser constituída para ser sensível, nem se a vontade e a razão, que são ambas ativas, são duas manifestações de um mesmo princípio virtual. São perguntas que não o inquietam. Ele apenas sustenta que, destas três faculdades, só a vontade nos pertence efetivamente, porque, sozinha, ela é o resultado de uma força substancial inextensa, que é o princípio primordial do nosso eu.

A sensibilidade, aos seus olhos, não passa do efeito do choque resultante da ação que a força do mundo exterior exerce sobre a nossa por intermédio de nosso organismo. Entretanto, o ecletismo não pesquisa como a nossa força inextensa se liga ao nosso organismo, nem como, nesse isolamento inextenso, pode ela receber um choque, assim como não explicou como podemos ser sensíveis.

Estes são pequenos mistérios que não poderiam detê-lo. A razão, segundo ele,é a faculdade soberana do conhecimento, mas é impessoal, isto é, ela não nos pertence, posto que dela nos sirvamos. Dizer minha razão é, pois, segundo o Sr. Cousin, uma insensatez, pelo mesmo motivo que não se diz minha verdade. Tal motivo não nos parece muito concludente, mas, provavelmente, a falta é nossa. Com efeito, em seu sistema, a razão é o conjunto das verdades necessárias e universais, verdades tais como os princípios da causalidade, da substância, da unidade, do verdadeiro, etc. O conjunto destes princípios forma, pois, segundo ele, a razão divina, da qual participamos pela vontade inefável do Todo-Poderoso. Mas é aí que se há de crer sob palavra, pois não vemos precisamente como um conjunto de verdades, por mais universais que sejam, poderia constituir a razão divina e humana. Vulgarmente, as verdades são leis e a razão é uma faculdade. Ora, eu vejo o Sol, mas nunca a faculdade de ver foi tomada pelo Sol, nem pelo menor de seus raios.

Aí está, portanto, um novo mistério a juntar aos precedentes, de sorte que, nessa doutrina, nada se explica por si, nada se liga, e nossa alma é nela representada apenas como um conjunto heterogêneo de faculdades, de qualidades, de funções distintas, ligadas, ao acaso, como folhas esparsas que tivessem sido reunidas em volume, sob o título pomposo de Doutrina filosófica do século XIX.

O segundo prefácio da terceira edição dos Fragments philosophiques lhe trazem um resumo, interessante sob vários aspectos.

De acordo com estas considerações, podemos julgar as causas que fazem da filosofia espiritualista oficial, malgrado suas boas intenções, uma doutrina bizarra e indigesta. Estaríamos mesmo autorizado a tratá-la mais duramente, se se perdessemde vista os serviços eminentes que prestou ao espírito francês, desviando-o de um sensualismo imoral e de um cepticismo desesperador. Aí estavam, evidentemente, as principais preocupações do ilustre filósofo no começo de sua brilhante carreira. Estudando suas obras notáveis, vê-se que Condillac e Kant foram seus principais adversários.

Assim, essa luta é a parte mais importante de seus trabalhos. Seu próprio sistema, ao contrário, nos parece muito defeituoso, e sua moral, sua teodiceia e sua ontologia contêm numerosos pontos muito controvertidos.

A verdade é uma flor tão delicada! O menor sopro do erro a murcha em nossas mãos, e a reduz a um pó pernicioso e ofuscante. No calor do combate ou na emoção da ambição, é sobretudo difícil conservar a calma de espírito e a delicadeza do sentimento de evidência, de sorte que o homem preocupado é facilmente arrastado a ultrapassar os limites da verdadeira sabedoria.

Felizmente, o Criador nos proporcionou fatos, circunstâncias e acontecimentos providenciais bastante chocantes para reconduzir-nos ao bom caminho. Certamente as doutrinas e os fatos sobre os quais se funda o Espiritismo estão nesse número. Que nossos grandes e sábios filósofos não os repilam sob o fútil pretexto de superstição! Que os estudem sem prevenção! Neles reconhecerão a natureza extensa e sólida de nossa alma, sua preexistência e sua perpetuidade. Nele encontrarão uma moral suave e salutar, bem feita para reconduzir todo mundo ao bem.

Se, então, seu espírito quiser dele tomar conhecimento, que se atirem francamente à obra; que examinem cientificamente os seus princípios e as suas consequências, e então, talvez o princípio da dualidade da essência da alma lhes apareça em todo o seu esplendor e em toda a sua força, pois parece-nos que ele lança uma viva luz sobre os segredos íntimos do nosso ser. É o que examinaremos proximamente.

F. HERRENSCHNEIDER


[1] O outro princípio é a dualidade do aspecto das coisas, que encontraremos mais tarde.




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