Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Para as cartas que seguem chamamos a atenção dos que pretendem que, sem o medo das penas eternas, a Humanidade não teria mais freio, e que a negação do inferno eternamente pessoal abre caminho a todas as desordens e a todas as imoralidades:

“Montreuil, 23 de agosto de 1863.

“Em março último eu ainda era o que se pode dizer, com toda a força do termo, incrustado de ateísmo e de materialismo. Não poupava o chefe do grupo espírita de nossa pequena cidade, meu parente, de pilhérias e sarcasmos; até lhe aconselhava o hospício! Mas ele opunha às minhas troças uma paciência estoica.

“Ao mesmo tempo, durante a quaresma, um pregador falou do púlpito contra o Espiritismo. A circunstância excitou-me a curiosidade, pois não percebia muito bem o que a igreja poderia ter que ver com o Espiritismo. Então li o livrinho O que é o Espiritismo? prometendo a mim mesmo não ceder tão facilmente quanto o haviam feito certos materialistas convertidos, e armei-me com todas as peças, persuadido de que nada poderia destruir a força de meus argumentos, não duvidando absolutamente de uma vitória completa.

“Mas, ó prodígio! Ainda não havia chegado à página cinquenta e já havia reconhecido a inanidade de minha pobre bateria argumentativa. Durante alguns minutos fiquei como que iluminado;

uma súbita revolução operou-se em mim e eis o que eu escrevia a meu irmão a 18 de junho:

“Sim, como dizes, minha conversão foi providencial; é a Deus que devo este sinal de grande benevolência. Sim, creio em Deus, em minha alma, em sua imortalidade após a morte. Antes disso tinha como filosofia uma certa firmeza de espírito, pela qual me punha acima das tribulações e dos acidentes da vida, mas me dobrei ante as numerosas torturas morais que me haviam infringido os pretensos amigos. A amargura de tais lembranças me haviam envenenado o coração. Eu ruminava mil projetos de vingança, e se não tivesse temido para mim e para os meus a maldição pública, talvez tivesse dado aos meus projetos uma funesta execução. Mas Deus me salvou. O Espiritismo levou-me prontamente a crer nas verdades fundamentais da religião, das quais a Igreja me havia afastado pelo horrível quadro das chamas eternas e por me querer impor, como artigos de fé, dogmas que estão em manifesta contradição com os atributos infinitos de Deus. Lembro-me ainda do pavor experimentado em 1814, aos sete anos de idade, quando da leitura desta bela passagem dos Pensées chrétiennes: “E quando um danado tiver sofrido tantos anos quantos são os átomos no ar, as folhas das florestas e os grãos de areia às bordas do mar, tudo isto será contado como nada!!!” E foi a Igreja que ousou proferir semelhante blasfêmia! Que Deus lha perdoe!”

“Continuo minha carta, caro Eugênio, deixando à Igreja a propriedade do império infernal sobre a qual nada tenho a reivindicar.

“A ideia que tinha feito de minha alma foi substituída pela dada pelos Espíritos. A pluralidade dos mundos, como a pluralidade das existências, não mais constituindo dúvidas para mim, causam-me agora uma indefinível satisfação moral. A perspectiva de um nada frio e lúgubre outrora me gelava o sangue nas veias; hoje me vejo, por antecipação, habitando um desses mundos mais adiantados moralmente, intelectualmente e fisicamente que o nosso planeta, esperando atingir o estado de puro Espírito.

“Para gozar dos benefícios de Deus e deles tornar-me inteiramente digno, perdoei com solicitude aos meus inimigos, àqueles que me fizeram sofrer duras torturas morais, a todos, enfim, que me ofenderam, e abjurei qualquer pensamento de vingança. Todos os dias agradeço a Deus a alta benevolência que me testemunhou, fazendo-me rapidamente sair do mau caminho onde me haviam lançado o ateísmo e o materialismo, e lhe peço conceda o mesmo favor a todos os que, como eu, dele duvidaram e o negaram. Também lhe peço fazer que minha mulher, meus filhos, o próximo, os parentes, os amigos e os inimigos, possam gozar das doçuras do Espiritismo. Enfim, peço por todos, por todas as almas sofredoras, para que Deus lhes deixe entrever que a sua bondade infinita não lhes fechou a porta do arrependimento. Também peço a Deus o perdão de minhas faltas e a graça de praticar a caridade em toda a sua extensão.

“Assim, agora me encontro num estado de perfeita calma e tranquilidade quanto ao futuro. A ideia da morte não mais me apavora, porque tenho a convicção inabalável que minha alma sobreviverá ao meu corpo, e tenho inteira fé na vida futura. Contudo, um só pensamento me faz mal, o de abandonar na Terra seres que me são caros, com o receio de vê-los infelizes.

“Ah! Esse medo que comporta sua dor é muito natural, em face do egoísmo de que a maioria de nosso pobre mundo está impregnada. Mas Deus me compreende. Ele sabe que toda a minha confiança está depositada apenas nele. Já experimentei a felicidade de rever nossa cara Laura, em dezembro último, alguns dias após a sua morte. Certamente é um efeito antecipado de sua bondade para comigo”.

“Depois da data desta carta, meu caro senhor, meu bem-estar aumentou. Outrora a menor contrariedade me irritava. Hoje minha paciência é realmente notável, e sucedeu à violência e à impulsividade. A vitória que ela conquistou nestes dias, em prova bastante rude, vem em apoio à minha asserção. Certamente não teria sido assim em março último. É precisamente em tais circunstâncias que a Doutrina Espírita exerce sua suave influência. Os que a criticam dizem que ela está cheia de seduções, e eu não creio atenuar esse belo elogio achando-a cheia de volúpias.

“Minha volta à religião causou aqui uma surpresa, tanto maior porque eu era até agora ligado ao mais desenfreado materialismo. Por uma consequência muito lógica sou, por minha vez, vítima das troças e dos sarcasmos, mas fico insensível, e, como dizeis muito judiciosamente, tudo isto desliza sobre o verdadeiro Espiritismo, como a água sobre o mármore.

“Meu caro senhor, vou terminar minha carta, cuja prolixidade poderia vos fazer perder um tempo precioso. Aceitai a expressão de minha viva gratidão pela satisfação moral, pela esperança consoladora e pelo bem-estar que me proporcionastes.

“Continuai vossa santa missão, pois Deus vos abençoou, senhor!

“ROUSSEL (Adolphe) “Escrevente juramentado, antigo empresário de leilões.

“P. S. No interesse do Espiritismo, podeis fazer desta carta, no todo ou em parte, o uso que melhor vos aprouver”.

OBSERVAÇÃO: Já publicamos várias cartas deste teor, mas seriam necessários volumes para publicar todas as que recebemos no mesmo sentido e, o que não é menos notável, é que a maior parte delas vem de pessoas inteiramente desconhecidas, e não foram solicitadas por outra influência senão a ascendência da doutrina.

Eis, pois, um dos homens atingidos pelo anátema do Sr. Bispo de Argel, um homem que, sem a Doutrina Espírita, teria morrido no ateísmo e no materialismo; que, se se apresentasse para receber os sacramentos da Igreja, seria impiedosamente repelido. Quem o trouxe a Deus? O medo das penas eternas? Não, porque foi a teoria dessas penas que o afastou dela. Quem, pois, teve o poder de acalmar a sua impulsividade e dele fazer um homem suave e inofensivo; de fazê-lo abjurar suas ideias de vingança para perdoar os inimigos? Só o Espiritismo, porque nele auferiu uma fé inabalável no futuro.

É essa doutrina que quereis extirpar de vossa diocese, onde certamente se acham muitos indivíduos no mesmo caso e que, em vossa opinião, são vergonhosa chaga para a colônia. A quem persuadirão que para esse homem teria sido melhor ficar onde estava? Se se objetasse que é uma exceção, responderíamos com milhares de casos semelhantes, e mesmo que fosse uma exceção, responderíamos pela parábola das cem ovelhas, das quais uma se tresmalhou e à sua procura corre o pastor.

Recusando-lhe o Espiritismo, o que lhe teríeis dado em substituição, para nele operar semelhante transformação? Sempre a perspectiva da danação eterna, a única, em vossa opinião, capaz de dominar a desordem e a imoralidade. Enfim, quem o levou a estudar o Espiritismo? Uma quadrilha de espíritas? Não, porque ele fugia dos espíritas. Foi um sermão pregado contra o Espiritismo. Por que, então, foi convertido pelo Espiritismo e não pelo sermão? É que, aparentemente, os argumentos do Espiritismo eram mais convincentes que os do sermão.

Assim tem sido com todas as pregações análogas. Assim será com a ordenação episcopal de Argel, que terá, predizemos, um resultado muito diferente daquele que dela esperam.

Ao autor desta carta diremos: “Irmão, esta espécie de confissão que fazeis perante homens é um grande ato de humildade. Jamais há vergonha, mas há grandeza em reconhecer que se enganou e confessar os seus erros. Deus ama os humildes, porque é a eles que pertence o reino dos céus.”

A carta seguinte é um exemplo não menos tocante dos milagres que o Espiritismo pode operar nas consciências, e aqui o resultado é muito mais admirável, porque não se trata de um homem do mundo, vivendo num meio esclarecido, cujas más inclinações podem ser contidas, senão pelo medo da vida futura, ao menos pelo da opinião, mas de um homem ferido pela justiça, de um condenado à reclusão numa penitenciária.

“20 de setembro de 1863.

“Senhor,

“Tive a felicidade de ler, de estudar algumas de vossas excelentes obras tratando do Espiritismo, e o efeito dessa leitura foi tal sobre o meu ser, que julgo dever com isso tomar-vos a atenção, mas, para que me possais bem compreender, penso que é necessário dar-vos a conhecer as circunstâncias em que me acho colocado.

“Tenho a infelicidade de ter sido condenado a seis anos de reclusão, justa consequência de minha conduta passada, por isso, não tenho direito de me queixar. Assim, é a bem da ordem que faço o relato.

“Há apenas um mês eu me julgava perdido para sempre. Por que hoje penso o contrário e por que a esperança brilha em meu coração? Não será porque o Espiritismo, desvendando-me a sublimidade de suas máximas, fez-me compreender que os bens terrenos nada são; que a felicidade só existe realmente para os que praticam as virtudes ensinadas por Jesus Cristo, virtudes que nos aproximam de Deus, nosso pai comum? Não é também porque, embora caído num estado de abjeção, embora aviltado pela Sociedade, posso esperar renascer de alguma sorte, e assim preparar minha alma para uma vida melhor, pela prática das virtudes e meu amor a Deus e ao próximo?

“Não sei se são bem estas as verdadeiras causas da mudança que em mim se operou. O que sei é que em todo o meu ser se passa algo que não posso definir. Estou com melhores disposições diante dos infelizes que, como eu, estão colocados sob a férula da Sociedade. Tenho certa autoridade sobre uma centena deles, e estou bem decidido a só usá-la para o bem. Minha posição moral parece-me menos penosa. Considero meus sofrimentos como uma justa expiação, e esta ideia me ajuda a suportá-la. Enfim, não é mais com sentimentos de ódio que considero a Sociedade: rendo-lhe a justiça que lhe é devida.

“Eis ─ estou certo disto ─ as causas que reagiram sobre o meu espírito, e que farão de mim, no futuro, ─ tenho uma suave esperança ─ um homem que ama e que serve a Deus e ao próximo, praticando a caridade e seus deveres.

“A quem deverei render graças por esta feliz metamorfose que de um homem mau terá feito um homem amante da virtude? Inicialmente a Deus, a que devemos tudo reportar, e em seguida aos vossos excelentes escritos.

“Assim, senhor, permiti que vo-lo diga, esta carta tem por objetivo vos assinalar toda a minha gratidão.

“Mas por que é preciso que minha educação espírita fique inacabada? Sem dúvida, Deus assim o quer. Que se faça a sua vontade!

“Não vos deixarei ignorar, senhor, o nome da excelente pessoa a quem devo o que sei agora: é o Sr. Benoît, que, tendo notado em mim um desejo de refazer o meu passado, quis iniciar-me na Doutrina Espírita. Infelizmente vou perdê-lo, pois sua nova posição não mais permitirá que me venha ver. É uma grande infelicidade para mim, e não vo-la oculto, porque aos conselhos ele junta o exemplo. Ele também deve seu melhoramento à doutrina. Dizia-me ele: ‘Até ser esclarecido pelo espírito espírita, terminada a minha refeição, eu ia para o café, e lá muitas vezes me esquecia, não só dos deveres para com a minha pequena família, mas ainda para com o meu patrão. O tempo que assim passava, hoje emprego na leitura de livros espíritas, leitura que faço em voz alta, para que minha família aproveite. E crede-me, acrescentava o Sr. Benoît, isto vale mais, porque é o começo da verdadeira, da única felicidade’.

“Peço-vos perdoeis a minha temeridade e, sobretudo, a extensão desta carta, e crede-me, etc.

“D...” Esse Sr. Benoît é um simples operário. Ele tinha sido instruído no Espiritismo por uma senhora da cidade, da qual havia falado ao prisioneiro. Este último, antes da partida de seu instrutor, a ela mandou a seguinte carta:

“Senhora,

“Certamente sou muito temerário ousando vos dirigir estas palavras, mas espero que vossa bondade me perdoe, sobretudo em razão das causas que me levam a agir. Para começar, agradeço-vos, senhora, mas agradeço do mais profundo do coração, de toda a minha alma, pelo bem que me fizestes, permitindo que o Sr. Benoît me instruísse no Espiritismo, esta sublime doutrina chamada a regenerar o mundo, e que sabe tão bem demonstrar ao homem o que deve a Deus, à sua família, à Sociedade e a si mesmo; que, provando-lhe que nem tudo acaba nesta vida, o estimula e lhe dá os meios de se preparar para uma outra vida. Creio ter aproveitado os úteis ensinamentos que recebi, porque experimento um sentimento que me deixa mais bem disposto em relação aos meus semelhantes, e me faz ter sempre o pensamento voltado para o Céu. É um começo de fé? Eu o espero. Infelizmente, o Sr. Benoît vai partir, e com ele a esperança de me instruir.

“Sei que sois boa, e que tendes pensado em continuar a dar-me os meios de me esclarecer. Eu vos rogo de joelhos que continueis a obra tão bem começada. Ela vos será contada por Deus, pois tendes a esperança de fazer de um infeliz perdido nos vícios do mundo um homem virtuoso, um homem digno desse nome, de sua família e da Sociedade.

“Esperando o dia em que, livre, poderei dar minhas provas, eu vos bendirei como meu Espírito nesta Terra; eu vos associarei às minhas preces, e dia virá em que também poderei ensinar à minha família a vos bendizer, a vos venerar, pois lhe tereis devolvido um filho, um irmão honesto. É impossível ser diferente, quando se serve a Deus sinceramente.

“Assim, concluo, senhora, pedindo sejais na Terra meu bom Espírito, e que medirijais no bom caminho. O que fizerdes será contado como uma boa obra. Quanto a mim, prometo-vos ser dócil aos vossos ensinamentos.

“Termino, etc.”


OBSERVAÇÃO: Assim, esse Sr. Benoît, simples operário, era um exemplo recente do efeito moralizador do Espiritismo e, por sua vez, já traz ao bom caminho uma alma desviada; devolve à família e à Sociedade um homem honesto em vez de um criminoso, boa obra para a qual concorreu uma senhora caridosa, estranha a ambos, mas animada do único desejo de fazer o bem. E tudo isto é feito na sombra, sem fausto, sem ostentação, e com o testemunho apenas da consciência.

Espíritas, eis desses milagres de que vos deveis orgulhar, que todos podeis operar, e para os quais não necessitais de nenhuma faculdade excepcional, porque basta o desejo de fazer o bem.

Se o Espiritismo tem tal poder sobre as almas manchadas, o que não se deve esperar para a regeneração da Humanidade, quando ele se tiver convertido em crença comum, e cada um empregá-lo na sua esfera de ação!

Vós todos que atirais pedras contra o Espiritismo e dizeis que ele enche as casas de alienados, dai, pois, em seu lugar, algo que produza mais do que ele produz. Pelo fruto se reconhece a qualidade da árvore. Julgai, pois, o Espiritismo, por seus frutos, e tratai de produzir frutos melhores. Então sereis seguidos.

Ainda alguns anos e vereis muitos outros prodígios, não sinais no Céu, para ferir os olhos, como pediam os fariseus, mas prodígios no coração dos homens, dos quais o maior será o de fechar a boca dos detratores e de abrir os olhos dos cegos, pois é preciso que se realizem as predições do Cristo, e elas todas realizar-se-ão.

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