Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1863

Allan Kardec

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Indicam-nos de vários pontos novas prédicas contra o Espiritismo, todas no mesmo espírito de que temos falado. Como nunca passam de variantes do mesmo pensamento, em termos mais ou menos escolhidos, julgamos supérfluo fazer-lhes a análise. Limitar-nos-emos a destacar certas passagens, acompanhando-as de algumas reflexões.

“Meus irmãos, é um cristão que fala a cristãos e, como tal, temos o direito do nos admirarmos, vendo o Espiritismo crescer entre nós. Que é o Espiritismo, eu vos pergunto, senão uma mistura de horrores que só a loucura pode justificar?”

A isto nada temos a dizer senão que todas as prédicas feitas nesta cidade não detiveram o crescimento do Espiritismo, como constata o orador. Portanto, os argumentos que lhe opõem são menos válidos que os seus. Portanto, se as prédicas vêm de Deus e o Espiritismo do diabo, é que este é mais poderoso que Deus. Nada mais brutal que um fato. Ora, o fato da propagação do Espiritismo por força das prédicas é notório, portanto, é que as pessoas acham os argumentos por ele dados mais convincentes que os dos adversários. É um tecido de horrores, que seja, mas haveis de concordar que se esses Espíritos viessem ocupar vossas ideias, em vez de demônios vós os faríeis santos, e longe de condenar as evocações, vós as encorajaríeis.

“Nosso século não respeita mais nada. Nem a cinza dos túmulos é respeitada, pois insensatos ousam chamar os mortos para entreter-se com eles. Contudo é assim, e eis onde chegou esse pretenso século das luzes: conversar com os mortos.” Conversar com os mortos não é um acontecimento deste século, pois a história de todos os povos prova que isto tem sido feito em todos os tempos. A única diferença é que hoje isto é feito em toda parte, sem os acessórios supersticiosos com que outrora cercavam as evocações; é feito com um sentimento mais religioso e mais respeitoso.

De duas uma: ou a coisa é possível, ou não é. Se não é, é uma crença ilusória, como acreditar na fatalidade da sexta-feira e na influência do sal derramado. Não vemos, pois, que haja tantos horrores e que se falte com o respeito conversando com gente que não está mais aqui. Se os mortos vêm conversar conosco, só pode ser com a permissão de Deus, a menos que se admita que venham sem essa permissão, ou contra a sua vontade, o que implicaria que Deus não se importa com isso, ou que os evocadores são mais poderosos que Deus.

Notai, porém, as contradições. De um lado dizeis que o diabo se comunica; do outro que se perturbam as cinzas dos mortos, chamando-os. Se é o diabo, não são os mortos, portanto não são perturbados nem se lhes falta com o respeito. Se são os mortos, então não é o diabo. Seria preciso, ao menos, que vos pusésseis de acordo neste ponto capital.

Admitindo que sejam os mortos, reconhecemos que haveria profanação em chamá-los levianamente, por motivos fúteis, e sobretudo para fazer disto profissão lucrativa. Todas essas coisas nós condenamos, e não assumimos responsabilidade por aqueles que se afastam dos princípios do Espiritismo sério, assim como vós não assumis pela dos falsos devotos que da religião só têm a máscara; que pregam o que não praticam, ou que especulam com as coisas santas. Certamente evocações feitas em condições burlescas atribuídas a um eloquente orador, que citamos mais adiante, seriam um sacrilégio, mas, graças a Deus, não entramos nisso e não cremos que a do Sr. Viennois, igualmente relatada adiante, esteja neste caso.

“Eu mesmo testemunhei esses fatos, e ouvi pregar a moral e a caridade, é verdade. Mas sobre que se apoiam essa moral e essa caridade? Ah! Sobre nada. Pode chamar-se moral uma doutrina que nega as penas eternas?”

Se essa moral conduz a fazer o bem sem temor das penas eternas, não tem senão maior mérito. Outrora julgava-se impossível manter os estudantes sem medo da palmatória. Eram melhores? Não. Hoje ela não mais é usada e eles não são piores: ao contrário. Então o regime atual é preferível. Julga-se a bondade de um meio pelos seus efeitos. Aliás, a quem se dirige essa moral? Precisamente aos que não acreditam as penas eternas e a quem damos um freio que aceitam, enquanto vós não lhes dais, pois não aceitam o vosso. Nós impedimos de crer na danação absoluta àqueles a quem isto convém? Absolutamente. Ainda uma vez, não nos dirigimos aos que têm fé e aos quais esta basta, mas aos que não a têm ou que duvidam. Preferiríeis que eles ficassem na incredulidade absoluta? Seria pouco caridoso. Temeis que vos tomem ovelhas? É que não tendes muita confiança no poder dos vossos meios para retê-las. É que receais sejam elas atraídas pela erva tenra do perdão e da misericórdia divina. Credes, então, que as que flutuam incertas preferirão as fornalhas do inferno? Por outro lado, quem deve estar mais convencido das penas eternas do que os que são alimentados no seio da Igreja? Ora! Dizei por que essa perspectiva não parou todos os escândalos, todas as atrocidades, todas as prevaricações contra as leis divinas e humanas que formigam na história e que se reproduzem incessantemente em nossos dias? São crimes ou não? Se, pois, os que fazem profissão dessa crença não se detêm, como querer que se detenham os que não creem? Não, ao homem esclarecido dos nossos dias é preciso outro freio, que sua razão admita. Ora, a crença nas penas eternas, talvez útil em outras épocas, passou da moda. Ela se extingue dia a dia, e por mais que fizerdes, não dareis vida a um cadáver, como não fareis reviver os usos, costumes e ideias medievais.

Se a Igreja Católica julga sua segurança comprometida pelo desaparecimento dessa crença, é o caso de lamentá-la por repousar sobre uma base tão frágil, porque se ela tem um verme roedor, é o dogma das penas eternas.

“Assim, apelo à moralidade de todas as almas honestas; apelo aos magistrados, pois eles são responsáveis por todo o mal que semelhante heresia atrai sobre as nossas cabeças.”

Não sabíamos que na França os magistrados fossem encarregados de perseguir os heréticos, porque se entre eles há católicos, há também protestantes e judeus heréticos, que seriam assim encarregados, eles próprios, de se perseguirem e se condenarem. E os há entre os funcionários dos mais altos níveis.

“Sim, os espíritas, não temo declarar alto e bom som, não somente são passíveis da polícia correcional, da Corte Imperial, mas, ouvi-o bem, são passíveis do tribunal civil, porque são falsários, pois eles assinam comunicações em nome de honradas figuras que certamente não as teriam assinado em vida, figuras que tanto fazem falar hoje em dia.”

Os espíritas estão realmente muito felizes que Confúcio, Sócrates, Platão, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, Fénelon, etc., não possam vir lhes mover processos por crimes de falsificação de escritos. Mas eu penso nisto: eles teriam uma tábua de salvação precisamente nos tribunais, nos quais serão justiçáveis, porque lá estão os jurados que se pronunciam segundo a sua consciência. Ora, entre eles há também protestantes e judeus; há, até ─ coisa abominável! ─ filósofos, incrédulos, horríveis livres-pensadores que, à vista de nossas detestáveis leis modernas, se acham em toda parte. Assim, se nos acusam de fazer Santo Agostinho dizer alguma coisa de heterodoxo, também encontraremos jurados que nos absolvam. Ó perversidade do século! Dizer que em nossos dias Voltaire, Diderot, Lutero, Calvino, João Huss, Arius, teriam sido jurados por direito de nascimento, que poderiam ter sido juízes, prefeitos, ministros de justiça e mesmo dos cultos! Vós os vedes, esses bichos do inferno, a se pronunciarem sobre uma questão de heresia, porque, para condenar a assinatura de Fénelon posta numa comunicação dita herética, é preciso julgar a questão da ortodoxia, e quem será competente no júri?

“Entretanto, seria tão fácil interditar semelhantes malefícios! O que seria preciso fazer? O mínimo. Mesmo sem lhes fazer a honra da capa de comissário, podeis postar um sargento à entrada de cada grupo para dizer: Aqui não se entra! Pinto o mal, descrevo o remédio, nada mais, nada menos, porque os dispenso da inquisição.”

Muito obrigado, mas não há muito mérito em oferecer aquilo que não se tem. Infelizmente não tendes a inquisição, sem o que seria duvidoso que nos concedêsseis o indulto.

Por que não dizeis, então, aos magistrados para interditarem a entrada dos templos judeus e protestantes, onde pregam publicamente dogmas que não são os vossos? Quanto aos espíritas, eles não têm templos nem sacerdotes, mas grupos, o que para vós é a mesma coisa, à entrada dos quais basta pôr um sargento, para que tudo fique dito. Com efeito, é muito simples. Mas esqueceis que os Espíritos forçam todas as barreiras e entram em qualquer parte sem pedir permissão, mesmo em vossa casa, pois os tendes ao vosso lado, escutando-vos, sem que o suspeiteis e, o que mais é, vos falam ao ouvido. Repassai bem vossas lembranças e vereis que tendes tido mais que uma manifestação sem buscá-la.

Parece que ignorais uma coisa que é bom saibais. Os grupos espíritas não são absolutamente necessários. São apenas reuniões onde se sentem felizes por encontrar-se pessoas que pensam do mesmo modo. Prova disto é que hoje na França há mais de 600.000 espíritas, 99% dos quais não fazem parte de nenhum grupo e neles jamais puseram os pés; que eles não existem numa porção de cidades; que nem os grupos nem as sociedades abrem suas portas ao público para pregar sua doutrina aos transeuntes; que o Espiritismo se prega por si mesmo e pela força das coisas, porque responde a uma necessidade da época; que suas ideias estão no ar e são aspiradas por todos os poros da inteligência; que o contágio está no exemplo dos que são felizes com essas crenças, e que eles são encontrados por toda parte, no mundo todo, sem ter que procurá-los nos grupos.

Assim, não são os grupos que fazem a propaganda, pois não acolhem o primeiro que apareça. Ela é feita de vizinho a vizinho, de indivíduo a indivíduo. Admitindo a interdição de todas as reuniões, os espíritas ficariam livres para se reunirem em família, como se faz em milhares de lugares, sem que nada sofra o Espiritismo; ao contrário, pois temos sempre condenado as grandes assembleias, mais nocivas do que úteis, sendo a intimidade reconhecida como a condição mais favorável às manifestações. Interditareis as reuniões em família? Colocareis um sargento à porta de cada sala para vigiar o que se passa à lareira? Isto não se faz na Espanha nem em Roma, onde há mais espíritas do que pensais. Não faltaria senão isso para aumentar ainda mais a importância do Espiritismo.

Admitamos agora a interdição legal dos grupos. Sabeis o que fariam esses espíritas que acusais de semear a desordem? Eles diriam: “Respeitemos a lei; dura lex, sed lex. Demos o exemplo e mostremos que se pregamos a união, a paz e a concórdia, não é para nos tornarmos fatores de desordem. As sociedades organizadas não são condições necessárias para a existência do Espiritismo. Não há entre elas qualquer solidariedade material que possa ser quebrada por sua supressão. O que os espíritas aí ensinam, ensinam igualmente de pessoa para pessoa. O Espiritismo tem esse privilégio incrível de ter seu foco de ensino por toda parte. Seu sinal de ligação é o amor a Deus e ao próximo, e para colocá-lo em prática, não são necessárias reuniões oficiais. Ele tanto se estende sobre os amigos como sobre os inimigos.”

Qualquer um pode dizer o mesmo, e a autoridade não tem encontrado tantas vezes a resistência onde pensava encontrar a maior submissão? Se os espíritas são gente tão turbulenta e tão pervertida quanto pretendeis, por que é que nos centros onde eles são mais numerosos, os encarregados da manutenção da ordem têm menos trabalho, o que levou um deles a dizer que se todos os seus administrados fossem espíritas, ele podia fechar a repartição?

Por que entre os militares espíritas há menos penas disciplinares?

E depois, não imaginais que atualmente há espíritas por toda parte, de alto a baixo na escala social; que há reuniões e médiuns até em casa daqueles que invocais contra nós. Vedes, pois, que o vosso meio é insuficiente. É preciso encontrar outro.─ Temos os raios do púlpito!

─ Está bem, e vós o usais largamente, mas não vedes que por toda a parte onde o fulminam o Espiritismo aumenta?

─ Temos a censura da Igreja e a excomunhão.

─ É melhor, mas, ainda uma vez, bateis no vazio; ainda uma vez, o Espiritismo não se dirige a vós nem aos que estão convosco; ele não vai buscá-los para dizerlhes: deixai a vossa religião e segui-me; sereis danados, se não o fizerdes. Não. Ele é mais tolerante que isso e deixa a cada um a liberdade de consciência. Como já dissemos, ele se dirige à massa inumerável dos incrédulos, dos dúbios, dos indiferentes. Esses não estão convosco, e vossas censuras não podem atingi-los. Eles vinham a vós, e vós os repelíeis. É simplesmente errado. Se alguns dos vossos os seguem, é que vossos argumentos não são bastante fortes para retê-los, e não é com rigor que o conseguireis.

O Espiritismo agrada porque não se impõe. Ele é aceito pela vontade e pelo livre exame. Nisto ele é de nossa época. Ele agrada pela doçura, pelas consolações que proporciona nas adversidades, pela inabalável fé no futuro, que ele dá, na bondade e na misericórdia de Deus. Ademais, ele se apoia em fatos patentes, materiais, irrecusáveis, que desafiam toda negação. Eis o segredo de sua tão rápida propagação.

Que lhe opondes? Sempre a danação eterna, meio mau para os tempos que correm; depois, a deformação de suas doutrinas. Vós o acusais de pregar o aborto, o adultério e todos os crimes. A quem pensais impor isto? Certamente não é aos espíritas. Aos que não o conhecem? Mas nesse número muitos querem saber o que é essa abominável doutrina; leem, e vendo que ela diz exatamente o contrário do que lhe atribuís, vos deixam para segui-la, e isto sem que ele vá procurá-lo.

A posição, bem sei, é embaraçosa, porque dizeis: Se falamos contra o Espiritismo, recrutamos-lhe partidários; se nos calamos, ele anda sozinho. Que fazer então? Outrora se dizia: Deixai passar a justiça do rei; agora é preciso dizer:

Deixemos passar a justiça de Deus.

(Continua no próximo número).

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