Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Num artigo anterior falamos dos incessantes progressos do Espiritismo. Serão esses progressos duráveis ou efêmeros? É um meteoro que brilha com luz passageira, como tantas outras coisas? É o que vamos examinar em poucas palavras.

Se o Espiritismo fosse uma simples teoria, uma escola filosófica fundada numa opinião pessoal, nada garantiria a sua estabilidade, porque ele poderia agradar hoje e não agradar amanhã; num dado tempo poderia não estar mais em harmonia com os costumes e o desenvolvimento intelectual, e então cairia, como todas as coisas superadas que não acompanharam o movimento; enfim poderia ser substituído por algo de melhor. Assim é com todas as concepções humanas, todas as legislações, todas as doutrinas puramente especulativas.

O Espiritismo apresenta-se em condições completamente outras, como tantas vezes temos ressaltado. Ele repousa sobre um fato, o da comunicação entre o mundo visível e o invisível. Ora, um fato não pode ser anulado pelo tempo, como uma opinião. Sem dúvida ainda não é admitido por todos, mas que importam as negações de alguns, quando ele é constatado diariamente por milhões de indivíduos, cujo número cresce incessantemente, e que não são nem mais tolos nem mais cegos que outros? Virá, pois, um momento em que ele não encontrará mais negadores, assim como atualmente não há mais negadores do movimento da Terra.

Quanta oposição não levantou este último fato! Durante muito tempo não faltaram aos incrédulos boas razões aparentes para contestá-lo. “Como crer, diziam eles, na existência dos antípodas, caminhando de cabeça para baixo? E se a Terra gira, como pretendem, como crer que nós próprios estejamos, de vinte e quatro em vinte e quatro horas, nessa posição incômoda sem nos apercebermos? Nesse estado, não mais poderíamos ficar ligados à Terra, a não ser que caminhássemos contra um teto, com os pés no ar, à maneira de moscas. E depois, que aconteceria aos mares? A água não se derrama quando se inclina o vaso? A coisa é simplesmente impossível, portanto é absurda, e Galileu é um louco.”

Entretanto, sendo essa coisa absurda um fato, ela triunfou sobre todas as razões contrárias e sobre todos os anátemas. Que faltava para admitir a sua possibilidade? O conhecimento da lei natural sobre a qual ela repousa. Se Galileu se tivesse contentado em dizer que a Terra gira, ainda agora não acreditariam nele, mas as denegações caíram ante o conhecimento do princípio.

O mesmo se dará com o Espiritismo. Considerando-se que ele repousa sobre um fato material existente em virtude de uma lei explicada e demonstrada que lhe tira todo caráter sobrenatural e maravilhoso, ele é imperecível. Aqueles que negam a possibilidade das manifestações estão no mesmo caso dos que negaram o movimento da Terra. A maioria nega a causa primeira, isto é, a alma, sua sobrevivência e sua individualidade. Então não é de surpreender que neguem o efeito. Eles julgam pelo simples enunciado do fato, e o declaram absurdo, como outrora declaravam absurda a crença nos antípodas. Mas, que pode sua opinião contra um fenômeno constatado pela observação e demonstrado por uma lei da Natureza? Sendo o movimento da Terra um fato puramente científico, sua demonstração não estava ao alcance do vulgo; foi preciso aceitar a autoridade dos argumentos dos cientistas. Mas o Espiritismo tem a mais, em seu favor, poder ser constatado por todo mundo, o que explica sua rápida propagação.

Toda descoberta nova de alguma importância tem consequências mais ou menos graves. A do movimento da Terra e da lei da gravitação, que rege esse movimento as teve, e incalculáveis. A Ciência viu abrir-se à sua frente um novo campo de exploração, e não se poderiam enumerar todas as descobertas, as invenções e as aplicações que foram sua consequência. O progresso da Ciência acarretou o da indústria, e o progresso da indústria mudou a maneira de viver, os hábitos, numa palavra, todas as condições de ser da Humanidade. O conhecimento das relações do mundo visível e do mundo invisível tem consequências ainda mais diretas e mais imediatamente práticas, porque está ao alcance de todas as individualidades e interessa a todos. Devendo cada homem necessariamente morrer, ninguém pode ser indiferente ao que acontecerá com ele após a morte. Pela certeza que o Espiritismo dá do futuro, ele muda a maneira de ver e influi sobre a moralidade. Abafando o egoísmo, ele modificará profundamente as relações sociais de indivíduo a indivíduo e de povo a povo.

Muitos reformadores de pensamento generoso formularam doutrinas mais ou menos sedutoras, mas, em sua maioria, elas apenas tiveram um sucesso de seita, temporário e circunscrito. Foi assim e assim será sempre com as teorias puramente sistemáticas, porque não é dado ao homem, na Terra, conceber algo de completo e perfeito. O Espiritismo, ao contrário, apoiando-se não numa ideia preconcebida, mas em fatos patentes, está ao abrigo dessas flutuações e não poderá senão crescer à medida que os fatos forem vulgarizados, melhor conhecidos e melhor compreendidos. Ora, nenhuma força humana poderia impedir a vulgarização de fatos que todos podem constatar. Constatados os fatos, ninguém poderá impedir as consequências resultantes dos mesmos. Estas consequências são aqui uma revolução completa nas ideias e na maneira de ver as coisas deste mundo e do outro. Antes que este século tenha passado, ela será realizada.

Mas, dirão, ao lado dos fatos tendes uma teoria, uma doutrina; quem vos diz que essa teoria não sofrerá variações; que daqui a alguns anos a de hoje será a mesma?

Sem dúvida ela pode sofrer modificações em seus detalhes, à vista de novas observações, mas, uma vez estabelecido o princípio, ele não pode variar, e menos ainda ser anulado. Eis o essencial. Desde Copérnico e Galileu tem-se calculado melhor o movimento da Terra e dos astros, mas o fato do movimento ficou sendo o princípio.

Dissemos que o Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência de observação. É o que constitui a sua força contra os ataques de que é objeto e dá aos seus adeptos uma fé inquebrantável. Todos os raciocínios que se lhe opõem caem diante dos fatos, e esses raciocínios têm tanto menos valor aos seus olhos quanto mais eles sabem que são fruto do interesse. Em vão se lhes diz que isto não é, ou é outra coisa, pois eles respondem: Não podemos negar a evidência. Se se tratasse de apenas um indivíduo, poder-se-ia julgar que ele fosse vítima de uma ilusão, mas quando milhões de indivíduos veem a mesma coisa, em todos os países, conclui-se logicamente que são os negadores que estão equivocados.

Se os fatos espíritas só tivessem como resultado satisfazer a curiosidade, certamente ocasionariam apenas uma preocupação momentânea, como tudo o que é inútil. No entanto, as consequências que deles decorrem tocam o coração; tornam as pessoas felizes; satisfazem às aspirações; enchem o vazio cavado pela dúvida; lançam a luz sobre a temível questão do futuro; mais ainda, neles se vê uma causa poderosa de moralização para a Sociedade. Elas têm, pois, um grande interesse. Ora, a gente não renuncia facilmente ao que é uma fonte de felicidade. Certamente não é com a perspectiva do nada, nem com a das chamas eternas que arrancarão os espíritas de sua crença.

O Espiritismo não se afastará da verdade e nada terá a temer das opiniões contraditórias, enquanto sua teoria científica e sua doutrina moral forem uma dedução dos fatos escrupulosa e conscientemente observados, sem preconceitos nem sistemas preconcebidos. Foi diante de uma observação mais completa que todas as teorias prematuras e aventurosas surgidas na origem dos fenômenos espíritas modernos caíram e vieram fundir-se na imponente unidade que hoje existe, e contra a qual só se obstinam raras individualidades, que diminuem dia a dia. As lacunas que a teoria atual pode ainda conter encher-se-ão da mesma maneira. O Espiritismo está longe de haver dito sua última palavra, quanto às suas consequências, mas é inamolgável em sua base, porque essa base está assentada nos fatos.

Assim, que os espíritas nada receiem, pois o futuro lhes pertence; que deixem os adversários se debatendo sob a influência da verdade que os ofusca, porque toda denegação é impotente contra a evidência que inevitavelmente triunfa pela força das coisas. É uma questão de tempo, e neste século o tempo marcha a passos de gigante, sob o impulso do progresso.

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