Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Embora esta tocante oração fúnebre tenha sido publicada por diversos jornais, encontra lugar igualmente nesta Revista, em razão da natureza dos pensamentos que encerra, e cujo alcance todos poderão compreender. O jornal do qual a tiramos dá conta da cerimônia fúnebre nestes termos:

“Uma triste cerimônia reunia, quinta-feira última, uma multidão dolorosamente comovida no cemitério dos independentes, em Guernesey. Inumavam uma jovem que a morte havia surpreendido em meio às alegrias da família, cuja irmã se casara dias antes. Era uma mocinha feliz, a quem um dos filhos do grande poeta, Sr. François Hugo, tinha dedicado o décimo quarto volume de sua tradução de Shakespeare. Ela morreu na véspera do lançamento desse volume.

“Como acabamos de dizer, a assistência era numerosa nesses funerais, numerosa e simpática, e é com viva tristeza, com lágrimas que a amizade fazia correr, que ela ouviu as palavras de adeus, pronunciadas sobre esse túmulo tão prematuramente aberto, pelo ilustre exilado de Guernesey, o próprio Victor Hugo.

“Eis o discurso pronunciado pelo poeta:

“Em algumas semanas ocupamo-nos de duas irmãs. Casamos uma e sepultamos a outra. Eis o perpétuo movimento da vida.

“Inclinemo-nos, meus irmãos, ante o severo destino, mas inclinemo-nos com esperança. Nossos olhos foram feitos para chorar, mas para ver; nosso coração foi feito para sofrer, mas para crer. A fé numa outra existência brota da faculdade de amar. Não esqueçamos que nesta vida inquieta e garantida pelo amor, é o coração que crê. O filho espera encontrar seu pai; a mãe não consente em perder o filho para sempre. Essa recusa do nada é a grandeza do homem.

“O coração não pode errar. A carne é um sonho, porque ela se dissipa. Se esse desaparecimento fosse o fim do homem, tiraria à nossa existência toda sanção. Não nos contentamos com esta fumaça que é a matéria. Necessitamos de uma certeza.

Quem quer que ame, sabe e sente que nenhum dos pontos de apoio do homem está na Terra. Amar é viver além da vida. Sem essa fé, nenhum dom perfeito do coração seria possível. Amar, que é o objetivo do homem, seria o seu suplício. Este paraíso seria o inferno. Não! Digamos bem alto que não, pois a criatura amante exige a criatura imortal. O coração necessita da alma.

“Há um coração neste esquife, e esse coração está vivo. Neste momento ele escuta minhas palavras.

“Emily de Putron era o suave orgulho de uma respeitável família patriarcal. Seus amigos e seus próximos tinham por encantamento sua graça e por festa seu sorriso. Ela era como uma flor de alegria que se derramava pela casa. Desde o berço todas as ternuras a rodeavam; ela cresceu feliz, e recebendo felicidade dava felicidade; amada, amava. Ela acaba de partir.

“Para onde foi? Para a sombra? Não. Nós é que estamos na sombra. Ela? Ela está na aurora. Ela está na glória, na verdade, na realidade, na recompensa. Essas jovens mortas, que nenhum mal fizeram na vida, são bem-vindas do túmulo, e suas cabeças se erguem suavemente fora da sepultura, para uma coroa misteriosa.

“Emily de Putron foi procurar lá em cima a serenidade suprema, complemento das existências inocentes. Ela se foi: mocidade, para a eternidade; beleza, para o ideal; esperança, para a certeza; amor, para o infinito; pérola, para o oceano; Espírito, para Deus.

“Vai, alma!

“O prodígio desta grande partida celeste que chamam morte, é que os que partem não se afastam. Estão num mundo de claridade, mas assistem, como testemunhas enternecidas, ao nosso mundo de trevas. Estão no alto, e muito perto. Ó, quem quer que sejais, que vistes desaparecer no túmulo um ser querido, não vos julgueis abandonados por ele. Ele está sempre aqui. Ele está ao vosso lado mais do que nunca. A beleza da morte é a presença. Presença inexprimível das almas amadas, sorrindo aos nossos olhos em lágrimas. O ser chorado desapareceu, mas não partiu. Não mais percebemos o seu rosto suave... Os mortos são invisíveis, mas não estão ausentes.

“Rendamos justiça à morte. Não sejamos ingratos para com ela. Ela não é, como se diz, um aniquilamento, um embuste. É um erro crer que aqui, nesta obscuridade da fossa aberta, tudo se perde. Aqui tudo se reencontra. A tumba é um lugar de restituição. Aqui a alma retoma o Infinito; aqui ela recobra a sua plenitude; aqui ela entra na posse de sua misteriosa natureza; ela é desligada do corpo, desligada da necessidade, desligada do fardo, desligada da fatalidade. A morte é a maior das liberdades. Ela é, também, o maior dos progressos. A morte é a ascensão de tudo o que viveu em grau superior. Ascensão deslumbrante e sagrada. Cada um recebe o seu aumento. Tudo se transfigura na luz e pela luz. Aquele que foi apenas honesto na Terra torna-se belo; aquele que só foi belo torna-se sublime; aquele que só foi sublime torna-se bom.

“E eu que falo, por que estou aqui? O que é o que eu trago a esta fossa? Com que direito venho dirigir a palavra à morte? Quem sou eu? Nada. Engano-me, sou alguma coisa. Sou um proscrito. Exilado pela força ontem, exilado voluntário hoje. Um proscrito é um vencido, um caluniado, um perseguido, um ferido no destino, um deserdado da pátria. Um proscrito é um inocente sob o peso de uma maldição. Sua bênção deve ser boa. Eu abençoo este túmulo.

“Abençoo o ser nobre e gracioso que está nesta fossa. No deserto encontramos oásis; no exílio encontramos almas. Emily de Putron foi uma dessas encantadoras almas encontradas. Venho pagar-lhe a dívida do exílio consolado. Eu a abençoo na profundeza sombria. Em nome das aflições sobre as quais ela brilhou suavemente; em nome das provações do destino, para ela terminadas, continuadas para nós; em nome de tudo o que ela esperou outrora e de tudo o que obtém hoje, em nome de tudo o que ela amou, eu abençoo esta morta, eu a abençoo na sua beleza, na sua juventude, na sua doçura, na sua vida e na sua morte; eu a abençoo na sua branca túnica sepulcral; na sua casa que ela deixa desolada; no seu caixão, que sua mãe encheu de flores e que Deus vai encher de estrelas!”

A estas palavras notáveis não falta absolutamente nada além da palavra Espiritismo. Não são apenas a expressão de uma crença vaga na alma e na sua sobrevivência; ainda menos o frio nada, sucedendo à atividade da vida, enterrando para sempre, sob seu manto de gelo, o espírito, a graça, a beleza, as qualidades do coração. Também não é a alma abismada nesse oceano do infinito que se chama o todo universal. É efetivamente o ser real, individual, presente em nosso meio, sorrindo aos que lhe são caros, vendo-os, escutando-os, falando-lhes pelo pensamento. Que de mais belo, de mais verdadeiro que estas palavras: “Amar é viver além da vida. Sem esta fé, nenhum dom perfeito do coração seria possível, pois amar, que é o objetivo do homem, seria o seu suplício. Este paraíso seria o inferno. Não. Digamos bem alto que não. A criatura amante exige a criatura imortal. O coração necessita da alma.”

Que ideia da morte é mais justa do que esta: “O prodígio desta grande partida celeste que chamam morte, é que os que partem não se afastam. Eles estão num mundo de claridade, mas assistem, como testemunhas enternecidas, ao nosso mundo de trevas. Estão no alto, e muito perto. Ó, quem quer que sejais, que vistes desaparecer no túmulo um ser querido, não vos julgueis abandonados por ele. Ele está sempre aqui. Ele está ao vosso lado mais do que nunca... É um erro crer que aqui, nesta obscuridade da fossa aberta, tudo se perde. Aqui tudo se reencontra. A tumba é um lugar de restituição. Aqui a alma retoma o Infinito; aqui ela recobra a sua plenitude.”

Não é exatamente o que ensina o Espiritismo? Mas aos que pudessem julgar-se vítimas de uma ilusão, ele vem juntar à teoria a sanção do fato material, pela comunicação dos que partiram com os que ficam. Que há, pois, de desarrazoado em crer que esses mesmos seres que estão ao nosso lado, com um corpo etéreo, possam entrar em relação conosco?

Ó vós, cépticos, que rides de nossas crenças, ride, pois, destas palavras do poeta filósofo cuja alta inteligência conheceis! Direis que é um alucinado? Que é louco quando crê na manifestação dos Espíritos? É louco quem escreve: “Tenhamos compaixão dos castigados. Ah! Quem somos nós mesmos? Quem sou eu, eu que vos falo? Quem sois vós, vós que me escutais? De onde viemos? É certo que nada fizemos antes de nascer? A Terra não deixa de assemelhar-se a uma prisão. Quem sabe se o homem não é um reincidente da justiça divina? Olhai a vida de perto. Ela é feita de tal modo que por toda parte se sente a punição.” (Os Miseráveis, 7º volume, livro VII, capítulo 1º).

Não está aí a preexistência da alma; a reencarnação na Terra; a Terra, mundo de expiação? (Vide A Imitação do Evangelho, nº. 27, 46, 47).

Vós que negais o futuro, que estranha satisfação é a vossa de vos comprazerdes com a ideia do aniquilamento do vosso ser e daqueles a quem amastes? Oh! Tendes razão de temer a morte, pois para vós é o fim de todas as esperanças.

Lido o discurso acima na sessão de 27 de janeiro de 1865, na Sociedade Espírita de Paris, o Espírito da jovem Emily de Putron, que sem dúvida o escutava e partilhava da emoção da assembleia, manifestou-se espontaneamente pela Sra. Costel, e ditou as seguintes palavras:

“As palavras do poeta correram sobre esta assembleia como um sopro sonoro. Elas fizeram vossos espíritos estremecerem; elas evocaram minha alma, que ainda flutua incerta no espaço infinito!

“Ó poeta, revelador da vida, bem conheces a morte, pois não coroas com ciprestes aqueles que tu choras, mas ligas às suas frontes as trêmulas violetas da esperança! Eu passei rápida e ligeira, apenas aflorando as enternecidas alegrias da vida, e ao declinar do dia, fui arrebatada sobre o trêmulo raio que morria no seio das ondas.

“Ó minha mãe, minha irmã, minhas amigas, grande poeta! Não choreis mais, mas ficai atentos! O murmúrio que acaricia os vossos ouvidos é o meu; o perfume da flor inclinada é meu hálito. Misturo-me à grande vida para melhor penetrar o vosso amor. Nós somos eternos! O que não teve começo não pode acabar, e o teu gênio, ó poeta, semelhante ao rio que corre para o mar, encherá a Eternidade com o poder que é força e amor!”

EMILY

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