Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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O vocábulo céu se diz, em geral, do espaço indefinido que circunda a Terra e, mais particularmente, da parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim coelum, formado do grego coilos, oco, côncavo, porque o céu parece aos nossos olhos como uma imensa concavidade. Os Antigos acreditavam na existência de vários céus superpostos, compostos de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas, das quais a Terra era o centro. Girando em torno da Terra, essas esferas arrastavam consigo os astros, que se achavam em seu circuito.

Essa ideia, devida à insuficiência de conhecimentos astronômicos, foi a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalonados, os diversos graus da beatificação. O último era a morada da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete, daí a expressão Estar no sétimo céu para exprimir a felicidade perfeita. Os Muçulmanos admitem nove, em cada um dos quais aumenta a felicidade dos crentes. O astrônomo Ptolomeu[1] considerava a existência de onze, dos quais o último era chamado Empíreo[2], devido à deslumbrante luz que ali reina. É ainda hoje o nome poético, dado ao lugar da eterna beatitude. A teologia cristã reconhece três céus: o primeiro é o da região do ar e das nuvens; o segundo é o espaço onde se movem os astros; o terceiro, além da região dos astros, é a morada do Altíssimo, a casa dos eleitos que contemplam Deus face a face. É em vista dessa crença que se diz que São Paulo foi levado ao terceiro céu.

As diversas doutrinas concernentes à morada dos bem-aventurados repousam todas no duplo erro de considerar a Terra como centro do Universo e a região dos astros limitada. Foi para além deste limite imaginário que todas colocaram essa morada feliz e a morada do Todo-Poderoso. Singular anomalia que coloca o autor de todas as coisas, o que as governa todas, nos confins da criação, em vez de colocá-lo no centro, de onde a radiação de seu pensamento poderia estender-se a tudo!

Com a inexorável lógica dos fatos e da observação, a Ciência levou seu facho até as profundezas do espaço e mostrou a inanidade de todas essas teorias. A Terra já não é o pivô do Universo, mas um dos menores astros rodando na imensidade. O próprio Sol não passa de centro de um turbilhão planetário. As estrelas são inumeráveis sóis, em torno dos quais circulam mundos incontáveis, separados por distâncias acessíveis apenas ao pensamento, embora pareçam tocar-se. Nesse conjunto, regido por leis eternas nas quais se revelam a sabedoria e a onipotência do Criador, a Terra não aparece senão como um ponto imperceptível e um dos menos favorecidos para a habitabilidade. Isto posto, perguntamos por que Deus teria feito dela a única sede da vida e para aí teria relegado suas criaturas prediletas. Tudo, ao contrário, indica que a vida está por toda parte, e que a Humanidade é infinita como o Universo. Revelando-nos a Ciência mundos semelhantes à Terra, Deus não poderia tê-los criado sem objetivo. Deve tê-los povoado por seres capazes de governá-los.

As ideias do homem estão na razão do que ele sabe. Como todas as descobertas importantes, a da constituição dos mundos deve ter-lhes dado outro curso. Sob o império desses novos conhecimentos, suas crenças devem ter-se modificado. O céu foi deslocado, e a região das estrelas, não tendo limites, não mais lhe pode servir. Onde está ele? Diante de tal questão, todas as religiões ficam mudas.

O Espiritismo vem resolvê-la, demonstrando o verdadeiro destino do homem. A natureza deste último e os atributos de Deus tomados como ponto de partida, levam à conclusão.

O homem é composto de corpo e Espírito. O Espírito é o ser principal, o ser racional, o ser inteligente; o corpo é o envoltório material que reveste temporariamente o Espírito para a execução de sua missão na Terra e para o trabalho necessário ao seu adiantamento. Uma vez gasto, o corpo se destrói e o Espírito sobrevive à sua destruição. Sem o Espírito, o corpo é apenas matéria inerte, como um instrumento privado do braço que o maneja; sem o corpo, o Espírito é tudo: vida e inteligência. Deixando o corpo, ele retorna ao mundo espiritual de onde havia saído para encarnar-se.

Existe, portanto, o mundo corporal, composto de Espíritos encarnados, e o mundo espiritual, formado pelos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, em consequência de seu envoltório material, estão presos à Terra, ou a um globo qualquer. O mundo espiritual está por toda parte, em redor de nós e no espaço. Nenhum limite lhe é marcado. Em razão da natureza fluídica de seu envoltório, os seres que o compõem, em vez de se arrastarem penosamente no solo, transpõem as distâncias com a rapidez do pensamento. A morte do corpo é a ruptura dos laços que os retêm cativos.

Os Espíritos são criados simples e ignorantes, mas com aptidão para tudo adquirir e para progredir, em virtude de seu livre-arbítrio. Pelo progresso, adquirem novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções e, em consequência, novos prazeres desconhecidos aos Espíritos inferiores. Eles veem, ouvem, sentem e compreendem o que os Espíritos atrasados não podem ver nem ouvir nem sentir nem compreender. A felicidade é proporcional ao progresso realizado, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto o outro, unicamente porque não é tão adiantado intelectual e moralmente, sem que haja necessidade de se achar cada um deles num lugar distinto. Embora estejam um ao lado do outro, um pode estar nas trevas, enquanto tudo é resplendente em redor do outro, absolutamente como para um cego e um vidente que se dessem as mãos: um percebe a luz, que não exerce qualquer impressão sobre seu vizinho. A felicidade dos Espíritos é inerente às qualidades que possuem. Assim, eles a desfrutam onde quer que se encontrem, na superfície da Terra, entre encarnados, ou no espaço.

Uma comparação vulgar dará melhor ainda a compreender esta situação. Se num concerto estiverem dois homens, um deles bom músico e de ouvido educado e o outro sem conhecimento de música e com o ouvido pouco delicado, o primeiro experimenta uma sensação de satisfação, ao passo que o segundo fica insensível, porque um compreende e percebe o que no outro não causa nenhuma impressão. Assim se dá com todos os prazeres dos Espíritos, que estão na razão da aptidão para senti-los. O mundo espiritual tem esplendores em toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, ainda submetidos às influências da matéria, nem mesmo entreveem, pois só são acessíveis aos Espíritos depurados.

O progresso dos Espíritos é fruto de seu próprio trabalho. Mas, como são livres, eles trabalham por seu adiantamento com maior ou menor intensidade ou negligência, conforme sua vontade. Assim, eles apressam ou retardam seu progresso, e, por isto mesmo, sua felicidade. Enquanto uns avançam rapidamente, outros se arrastam por longos séculos nas categorias inferiores. Eles são, portanto, os próprios artífices de sua situação, feliz ou infeliz, conforme as palavras do Cristo: “A cada um segundo as suas obras.” Todo Espírito que fica para trás não pode lamentar-se senão de si mesmo, da mesma forma que aquele que avança tem todo o mérito do próprio esforço. A felicidade que ele conquistou tem mais valor aos seus olhos.

A felicidade suprema só é partilha dos Espíritos perfeitos, isto é, dos puros Espíritos. Eles só a atingem depois de haver progredido em inteligência e moralidade. O progresso intelectual e o progresso moral raramente marcham juntos, mas o que o Espírito não faz num tempo, fá-lo-á em outro, de sorte que os dois progressos acabam por atingir o mesmo nível. Eis a razão pela qual, por vezes, se veem homens inteligentes e instruídos muito pouco adiantados moralmente, e viceversa.

A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: Ao progresso intelectual, pela atividade que ele é obrigado a desenvolver no trabalho; ao progresso moral, pela necessidade que os homens têm uns dos outros. A vida social é a pedra de toque das boas e das más qualidades. A bondade, a maldade, a suavidade, a violência, a benevolência, a caridade, o egoísmo, a avareza, o orgulho, a humildade, a sinceridade, a franqueza, a lealdade, a má-fé, a hipocrisia, numa palavra, tudo o que constitui o homem de bem ou o homem perverso, tem por móvel, por objetivo e por estimulante as relações do homem com os seus semelhantes. Por isto, quem vivesse sozinho não teria vícios nem virtudes. Se, pelo isolamento, ele se preserva do mal, anula a possibilidade de fazer o bem.

Uma única existência corporal é manifestamente insuficiente para que o Espírito possa adquirir tudo o que lhe falta em bem e se desfazer de tudo o que em si é mau. O selvagem, por exemplo, poderia, numa só encarnação, atingir o nível moral e intelectual do mais adiantado europeu? Isto é materialmente impossível. Deve ele ficar eternamente na ignorância e na barbárie, privado dos prazeres que só o desenvolvimento das faculdades pode proporcionar? O simples bom-senso repele tal suposição, que seria, ao mesmo tempo, a negação da justiça e da bondade de Deus e a da lei progressiva da Natureza. Eis por que Deus, que é soberanamente justo e bom, concede ao Espírito do homem tantas existências quantas forem necessárias para que ele atinja o objetivo, que é a perfeição. Em cada nova existência, ele traz o que adquiriu nas precedentes em aptidão, em conhecimentos intuitivos, em inteligência e em moralidade. Cada existência é, assim, um passo à frente na via do progresso, a menos que, pela preguiça, por sua despreocupação ou por sua obstinação no mal, ele não a aproveite, caso em que deve recomeçar. Dele depende, pois, aumentar ou diminuir o número de suas encarnações, sempre mais ou menos penosas e laboriosas.

No intervalo das existências corpóreas, o Espírito reingressa, por um período mais ou menos longo, no mundo espiritual, onde é feliz ou infeliz, conforme o bem ou o mal que haja feito. O estado espiritual é o estado normal do Espírito, pois esse deve ser seu estado definitivo, tendo em vista que o corpo espiritual não morre. O estado corporal é apenas transitório e passageiro. É sobretudo no estado espiritual que ele recolhe os frutos do progresso realizado por seu trabalho na encarnação. É também nesse estado que ele se prepara para novas lutas e toma resoluções que se esforça para pôr em prática, ao voltar à humanidade.

A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos. Entre os mundos, uns são mais adiantados que os outros, e neles a existência se realiza em condições menos penosas do que na Terra, física e moralmente, mas onde não são admitidos senão Espíritos que atingiram um grau de perfeição compatível com o estado desses mundos.

A vida nos mundos superiores já é uma recompensa, porque aí se está isento dos males e das vicissitudes a que se está exposto aqui. Os corpos, menos materiais, quase fluídicos, ali não estão sujeitos nem às doenças nem às enfermidades nem às necessidades. Estando excluídos os maus Espíritos, os homens ali vivem em paz, sem outro cuidado senão o de seu adiantamento pelo trabalho da inteligência. Ali reina a verdadeira fraternidade, pois não há egoísmo; a verdadeira liberdade, pois não há desordens a reprimir, nem ambiciosos procurando oprimir o fraco. Comparados à Terra, esses mundos são verdadeiros paraísos. São as etapas da rota do progresso que conduz à morada definitiva. Sendo a Terra um mundo inferior, destinado à depuração de Espíritos imperfeitos, essa é a razão pela qual o mal aqui domina até que a Deus apraza dela fazer a morada de Espíritos mais adiantados.

Assim é que o Espírito, progredindo gradualmente, à medida que se desenvolve, chega ao apogeu da felicidade. Entretanto, antes de haver atingido o ponto culminante da perfeição, ele goza de uma felicidade relativa ao seu adiantamento, assim como a criança, que gosta dos prazeres da primeira infância, mais tarde aprecia os da juventude, e finalmente os mais sólidos da idade madura.

A felicidade dos Espíritos bem-aventurados não está na ociosidade contemplativa, que seria, como muitas vezes já foi dito, uma eterna e fastidiosa inutilidade. Em todos os graus, a vida espiritual é, ao contrário, uma atividade constante, mas isenta de fadigas. A suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana poderia pintar, e que a mais fecunda imaginação não poderia conceber; no conhecimento e na penetração de todas as coisas; na ausência de todo cansaço físico e moral; numa satisfação íntima, uma serenidade de alma, que nada altera; no amor que une todos os seres, devido à ausência de todo atrito pelo contacto dos maus; e acima de tudo pela visão de Deus e pela compreensão de seus mistérios revelados aos mais dignos. Ela está também nas funções por cujo encargo se sentem felizes. Os puros Espíritos são os messias ou mensageiros de Deus, para transmissão e execução de suas vontades. Eles realizam as grandes missões, presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do Universo, encargo glorioso ao qual só se chega pela perfeição. Somente os da ordem mais elevada compreendem os segredos de Deus e se inspiram em seu pensamento, do qual são os representantes diretos.

As atribuições dos Espíritos são proporcionais ao seu adiantamento, às luzes que possuem, à sua capacidade, à sua experiência e ao grau de confiança que inspiram ao soberano Mestre. Aí não há privilégios ou favores que não sejam o preço do mérito. Tudo é medido pelos critérios da estrita justiça. As mais importantes missões não são confiadas senão àqueles que são reconhecidamente capazes de desempenhá-las e incapazes de falhar ou de comprometê-las. Enquanto sob os olhos do próprio Deus os mais dignos compõem o conselho supremo, a chefes superiores é confiada a direção de um turbilhão planetário; a outros é confiada a de um mundo especial. Vêm a seguir, na ordem de adiantamento e de subordinação hierárquica, as atribuições mais restritas dos que são prepostos à marcha dos povos, à proteção das famílias e dos indivíduos, ao impulso de cada ramo do progresso, às diversas operações da Natureza, até aos mínimos detalhes da criação. Nesse vasto e harmonioso conjunto, há ocupação para todas as capacidades, todas as aptidões, todas as boas-vontades, ocupações aceitas com alegria, solicitadas com ardor, porque é um meio de adiantamento para os Espíritos que aspiram elevarse.

A encarnação é inerente à inferioridade dos Espíritos. Ela deixa de ser necessária para aqueles que transpuseram o seu limite e que progridem no estado espiritual, ou em existências corporais em mundos superiores que nada mais têm da materialidade terrestre. Para esses ela é voluntária, com vistas a exercer sobre os encarnados uma ação direta, para a realização da missão de que estão encarregados junto daqueles. Eles aceitam as suas vicissitudes e os sofrimentos por devotamento.

Ao lado das grandes missões confiadas aos Espíritos superiores, há outras de todos os graus de importância, confiadas aos de todas as ordens, pelo que pode-se dizer que cada encarnado tem a sua, isto é, deveres a cumprir para o bem de seus semelhantes, desde o pai de família, a quem incumbe o cuidado de fazer os filhos progredirem, até o homem de gênio, que lança na Sociedade novos elementos de progresso. É nessas missões secundárias que muitas vezes se encontram fracassos, prevaricações, renúncias, mas que só prejudicam o indivíduo, e não o conjunto.

Todas as inteligências concorrem, pois, para a obra geral, seja qual for o grau que tenham atingido, e cada uma na medida de suas forças, umas no estado de encarnação, outras no de Espírito. Por toda parte a atividade, de baixo ao alto da escala, todas se instruindo, se entreajudando, se prestando mútuo apoio, se dando as mãos para chegarem ao topo.

Assim se estabelece a solidariedade entre o mundo espiritual e o mundo corporal, isto é, entre os homens e os Espíritos, entre os Espíritos livres e os Espíritos cativos. Assim se perpetuam e se consolidam, pela depuração e pela continuidade das relações, as verdadeiras simpatias, as afeições santas.

Por toda parte, pois, há vida e movimento. Nenhum recanto do espaço infinito que não esteja povoado; nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por inumeráveis legiões de seres radiosos, invisíveis para os sentidos grosseiros dos encarnados, mas cuja vista deslumbra de admiração e de alegria as almas desprendidas da matéria. Por toda parte, enfim, há uma felicidade relativa para todos os progressos, para todos os deveres cumpridos. Cada um leva consigo os elementos de sua felicidade, na razão da categoria onde o coloca seu grau de adiantamento.

A felicidade depende das qualidades próprias dos indivíduos e não o estado material do meio em que se acham; está, pois, em toda parte onde haja Espíritos capazes de ser felizes; nenhum lugar circunscrito lhes é determinado no Universo. Em qualquer lugar onde se encontrem, os puros Espíritos podem contemplar a majestade divina, porque Deus está em toda parte.

Entretanto, a felicidade não é pessoal. Se a encontrássemos apenas em nós mesmos, sem poder compartilhá-la com os outros, ela seria egoísta e triste. Ela está também na comunhão de pensamentos que une os seres simpáticos. Os Espíritos felizes, atraídos uns para os outros pela similitude das ideias, dos gostos, dos sentimentos, formam vastos grupos ou famílias homogêneas, no seio das quais cada individualidade irradia suas próprias qualidades e se penetra dos eflúvios serenos e benéficos que emanam do conjunto, cujos membros tanto se dispersam para se entregarem às suas missões, quanto se reúnem num ponto qualquer do espaço para compartilhar o resultado de seus trabalhos, ou se reúnem em torno de um Espírito de ordem mais elevada, para receber conselhos e instruções.

Embora estejam os Espíritos por toda parte, os mundos são os lugares onde de preferência se reúnem, em razão da analogia que existe entre eles e aqueles que os habitam. Em torno dos mundos adiantados abundam os Espíritos superiores; em torno dos atrasados pululam os Espíritos inferiores. A Terra é ainda um destes últimos. Cada globo, pois, de certo modo, tem sua população própria de Espíritos encarnados e desencarnados, que se realimenta, em sua maioria, pela encarnação e desencarnação dos mesmos Espíritos. Essa população é mais estável nos mundos inferiores, onde os Espíritos são mais ligados à matéria, e mais flutuante nos mundos superiores. Mas, dos mundos que são focos de luz e de felicidade, destacam-se Espíritos para mundos inferiores, a fim de ali semearem os germes do progresso e para ali levarem a consolação e a esperança; para ali levantarem os ânimos abatidos pelas provações da vida. Por vezes eles aí se encarnam para cumprir sua missão com mais eficácia.

Nessa imensidão sem limites, onde, pois, está o Céu? Por toda parte. Nenhum muro o limita. Os mundos felizes são as últimas estações que a ele conduzem. As virtudes abrem o seu caminho e os vícios barram o seu acesso.

Ao lado deste quadro grandioso, que povoa todos os recantos do Universo, que dá a todos os objetos da criação um objetivo e uma razão de ser, como é pequena e mesquinha a doutrina que circunscreve a Humanidade a um imperceptível ponto do espaço; que no-la mostra começando num dado instante, para terminar igualmente num dia, com o mundo que a leva, não abarcando, assim, senão um minuto na Eternidade! Como é triste, fria, glacial, quando nos mostra o resto do Universo antes, durante e depois da Humanidade terrena, sem vida, sem movimento, como um imenso deserto mergulhado no silêncio! Como é desesperadora, pelo quadro que apresenta do pequeno número dos eleitos votados à perpétua contemplação, enquanto a maioria das criaturas é condenada a sofrimentos sem fim! Como é pungente para os corações amantes, pela barreira que põe entre os vivos e os mortos! Dizem que as almas felizes só pensam em sua felicidade e as infelizes em suas dores. É de espantar que o egoísmo reine na Terra, quando o mostram no Céu? Assim, quão estreita é a ideia que ela dá da grandeza, do poder e da bondade do Criador!

Ao contrário, quão sublime é a que o Espiritismo apresenta! Como sua doutrina amplia as ideias e alarga o pensamento! ─ Mas quem diz que ele é verdadeiro? Primeiro a razão, depois a revelação, e finalmente a concordância com o progresso da Ciência. Entre duas doutrinas das quais uma apequena e a outra amplia os atributos de Deus; das quais uma está em desacordo e a outra em harmonia com o progresso; das quais uma fica para trás e a outra avança, diz o bom-senso de que lado está a verdade. Que em presença das duas, cada um, em seu foro íntimo, interrogue as suas aspirações, e uma voz íntima lhe responderá. As aspirações são a voz de Deus, que não pode enganar os homens.

Mas, então, por que, desde o princípio, Deus não lhes revelou toda a verdade? Pela mesma razão pela qual não se ensina à criança o que se lhe ensina na idade madura. A revelação restrita era suficiente durante um certo período da Humanidade. Deus a concede na medida das forças do Espírito. Os que hoje recebem uma revelação mais completa são os mesmos Espíritos que noutros tempos receberam apenas uma parcela, mas que depois cresceram em inteligência. Antes que a Ciência lhes tivesse revelado as forças vivas da Natureza, a constituição dos astros, o verdadeiro papel e a formação da Terra, teriam eles compreendido a imensidade do espaço e a pluralidade dos mundos? Teriam podido identificar-se com a vida espiritual? Teriam podido conceber, depois da morte, uma vida feliz ou infeliz, a não ser num lugar circunscrito e sob uma forma material? Não!Compreendendo mais pelos sentidos do que pelo pensamento, o Universo era demasiado vasto para seu cérebro. Era preciso reduzi-lo a menores proporções, para adequá-lo ao seu ponto de vista, com a possibilidade de ampliá-lo mais tarde. Então, uma revelação parcial tinha sua utilidade. Era sábia. Hoje é insuficiente. O erro é daqueles que, não levando em conta o progresso das ideias, creem poder governar homens maduros com as andadeiras da infância.

A.K.


NOTA: Este artigo, bem como o do número precedente, sobre o temor da morte, são extraídos da nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente.

Os dois fatos seguintes vêm confirmar este quadro do Céu.



[1] Ptolomeu viveu em Alexandria, Egito, no 2.º século da era cristã.


[2] Do grego pur ou pyr, fogo.


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