Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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UM ANJO DO CÉU NA TERRA (1)

Eis o relatório sobre a obra acima, feito na Sociedade Espírita de Paris por nosso colega Sr. Feyteau, advogado:

Sob este título, o Sr. Benjamin Mossé escreveu um livro cheio de poesia, no qual, sob duplo ponto de vista, a caridade é progressivamente ensinada pelos mais tocantes fatos. O assunto deste pequeno poema em prosa começa no Céu, desenvolve-se na Terra e termina no Céu, onde começou.

Os anjos, os arcanjos, os serafins, os ofanins, todos os seres sagrados, na expressão do Sr. Mossé, estão reunidos e cantam louvores ao Altíssimo, que os reuniu para lhes dar a missão de andar entre as almas da Terra, a fim de reconduzilas à via do bem, da qual as desviam incessantemente os apetites e as paixões terrenas.

Um desses anjos, o mais puro, foi o único a ficar após a partida de todos os outros. Esse anjo é Zadécia. Prosternada aos pés do trono do Eterno, ela implora para si o favor de uma exceção à regra geral imposta aos seus irmãos. Ela dizia, súplice: “Senhor, escuta a minha prece, antes que eu obedeça à tua voz! Vou descer à Terra, de acordo com a tua vontade. Subtraio-me, porquanto tu ordenas, à felicidade de que nos inundas; vou falar disto aos habitantes da morada inferior; vou inspirar-lhes a esperança, para sustentá-los em sua penosa caminhada. Mas digna-te conceder às minhas súplicas a graça que imploro! Permite, ó meu Deus, que afastada de teu palácio, jamais eu esqueça as suas delícias! Permite que o envoltório de que me vou revestir jamais seja obstáculo a meus voos para ti! Que eu fique sempre senhora de mim mesma; que jamais algo de impuro venha alterar minha nobreza! Permite, Senhor, que minha ausência da morada bem-aventurada não tenha longa duração! Permite que minha missão seja cumprida prontamente; que eu aqueça com minha chama um coração generoso; que eu cative com meus encantos esse coração já abençoado por tua mão; que meu amor o eleve, o aperfeiçoe, complete a sua virtude, a fim de que ele receba minhas inspirações, que ele aceite a minha mensagem, que ele se torne para a Humanidade uma consolação, uma luz, e que então eu possa, ó meu Deus, voltar à minha morada celeste, orgulhosa de deixar na Terra um nobre continuador de minha missão, animado por meu olhar, adorando minha imagem e sempre se elevando para mim, para buscar em meu seio a força para continuar sua obra, para cuja realização eu lhe prodigalizarei o encorajamento de meu amor, até a hora em que, por tua vontade, ele vier encontrar-me e receber em meus braços, aos pés do teu trono, tuas bênçãos eternas.”

─ “Acolho a tua prece, ó minha filha! respondeu-lhe a voz divina. Vai, vai sem medo, levar aos humanos os tesouros de tua chama. O fogo que te anima nada perderá de sua santidade na Terra, onde tua passagem será rápida, onde uma alma digna de ti já tomou um envoltório terrestre para cumprir a grande missão que lhe queres confiar. Tão ardentemente quão pura, ela enobrecer-se-á com teu amor. Ela será santificada por tua presença, pelos laços que a unirão ao teu destino imortal. Nessa união que abençoo antecipadamente, essa alma receberá tua missão, da qual se resgatará como tu mesma. Então regressarás a estas regiões supremas, de onde velarás sobre teu esposo bem-amado da Terra, que se tornará, ao terminar sua tarefa, teu bem-amado esposo no Céu!”

A estas palavras, Zadécia desceu radiosa das moradas infinitas para o meio dos humanos; depôs um beijo na fronte do menino que mais tarde deveria atrair a si pelo himeneu; depois, submetendo-se às condições necessárias da existência terrena, envolveu-se numa forma material na qual devia brilhar a sua beleza ou resplandecerem suas virtudes e encantos!!!

É nestas condições particularmente abençoadas que a alma de Zadécia empreende sua missão, cuja primeira fase é sua encarnação na criatura dada à luz dolorosamente por uma jovem e piedosa mãe. Na segunda fase de sua missão, Zadécia é um anjo de inocência, e sua beleza, que irradia como uma emanação divina, purifica tudo o que dela se aproxima. Na terceira fase, Zadécia é anjo de resignação pela paciência com que suporta os sofrimentos físicos. Na quarta, é anjo de piedade pelos exemplos de caridade e de abnegação que dá. Na quinta, é anjo de amor pela afeição simpática que se desenvolve entre ela e o jovem Azariel. Na sexta, é o anjo do amor conjugal por sua união com Azariel. Na sétima, ela é o anjo do amor maternal. A oitava fase, enfim, é sua volta ao Céu, deixando na Terra seu esposo e sua filha, para continuar sua obra de santificação.

Sem contradita, esses diversos quadros contêm exemplos edificantes e são de leitura atraente, mas o triunfo muito previsto de Zadécia sobre todas as provas a que sua encarnação está submetida lhes tira esse caráter de ensinamento útil que não pode resultar realmente senão dos esforços da luta. Essa condição em que se acha Zadécia, ao deixar o Céu, de conservar a pureza e a incorruptibilidade dos anjos, quase não permite interesse por ela além da atração que o autor deu, pela forma e pela expressão dos pensamentos, às etapas de sua viagem à Terra. Assim, depois de ter lido este livro e ter-lhe concedido o justo tributo de elogios que merecem o estilo e o conjunto realmente harmonioso do assunto, é forçoso lamentar que o autor pareça alheio aos princípios reais da natureza dos Espíritos, e jamais ter pensado em se dar conta da influência que eles exercem sobre as diversas condições sociais da Humanidade, pelo melhoramento progressivo que suas várias encarnações desenvolvem.

Há uma preocupação natural no homem sério. Quer perscrute ele, aos múltiplos clarões da filosofia, as peripécias da vida humana, quer sonde, com o facho das religiões, as misteriosas profundezas da morte, sua preocupação é chegar a uma conclusão que o esclareça sobre seu verdadeiro destino, mostrando-lhe o caminho que deve seguir. Sem dúvida esse caminho nem sempre é o verdadeiro, mas cada um segue o sulco traçado pela charrua da vontade no campo do pensamento, conforme tenha atrelado bons ou maus princípios. Para uns, sistemas preconcebidos tomam o lugar das verdades; deles fazem uma lei, esgotando-se em discussões para fazê-la prevalecer e impô-la. Para outros, é o próprio Deus que eles têm a pretensão de traduzir, interpretar e comentar de tantas maneiras e em tantos debates tempestuosos, quando não sangrentos, que os textos sagrados da palavra divina ficam enterrados sob os escombros de suas disputas.

O livro do Sr. Mossé, se não revela a preocupação que aí gostaríamos de ver sobre a natureza dos Espíritos, não revela nenhuma das que a excluem ou a combatem. Diremos até que mais se aproxima do que se afasta, e que, com um passo a mais, elas marchariam unidas, porque tendem para um fim comum: a prática da caridade como condição da vida bem-aventurada. É, pois, um bom livro que o Espiritismo deve acolher como um aliado que pode tornar-se irmão.

FEYTEAU
Advogado


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(1) Por BENJÂMIN Mossé. rabino de Avignon. — l rol. in-12; 3 ir. 50. — Em Avignon, Bonnet fils.



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