Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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(Sociedade de Paris, 31 de março de 1865 - Médium: Sr. Diesliens)

Sem dúvida os leitores se lembram dos interessantes estudos sobre o Espírito de pessoas vivas, publicado na Revista de janeiro e março de 1860, e aos quais se haviam submetido o Sr. Conde de R... e o Sr. Dr. Vignal. Este último, afastado há vários anos, faleceu a 25 de março último. Na véspera do enterro, perguntamos a um sonâmbulo muito lúcido, que via bem os Espíritos, se o via. Disse ele: “Vejo um cadáver, no qual se opera um trabalho extraordinário. Dir-se-ia uma massa que se agita e como algo que faz esforços para se desprender dela, mas que apenas tem que vencer a resistência. Não distingo forma de Espírito bem determinada.” A 31 de março ele foi evocado na Sociedade de Paris. O mesmo sonâmbulo assistia à sessão, adormecido, durante a evocação. Ele o viu e o descreveu perfeitamente, enquanto se comunicava pelo médium de sua escolha.

Dizemos de sua escolha, porque a experiência demonstra o inconveniente de impor um médium ao Espírito, que pode não encontrar nele as condições necessárias para se comunicar livremente. Quando se faz pela primeira vez a evocação de um Espírito, convém que todos os médiuns presentes se ponham à sua disposição e esperem que ele se manifeste por um deles. Nessa sessão havia onze médiuns.

Pergunta. ─ Caro Sr. Vignal, todos os vossos antigos colegas da Sociedade de Paris conservaram de vós a melhor lembrança, e eu, em particular, a das excelentes relações que não se descontinuaram entre nós. Chamando-vos ao nosso meio, para começar temos por objetivo dar-vos um testemunho de simpatia e ficaremos muito feliz se tiverdes a bondade, ou se puderdes vir comunicar-vos conosco.

Resposta. ─ Caro amigo e digno mestre, vossa boa lembrança e vossos testemunhos de simpatia me são muito gratos. Se hoje posso vir a vós e assistir, livre e desprendido, a esta reunião de todos os nossos bons amigos e irmãos espíritas, é graças ao vosso bom pensamento e à assistência que vossas preces me trouxeram. Como dizia com justeza meu jovem secretário, eu estava muito impaciente para me comunicar. Desde o começo desta noite, empreguei todas as minhas forças espirituais para dominar esse desejo. Vossas conversas e as graves questões que debatestes, interessando-me vivamente, tornaram minha espera menos penosa. Perdoai, caro amigo, mas o meu reconhecimento precisava manifestar-se.

NOTA: Logo que percebeu tratar-se do Sr. Vignal, o médium sentiu, realmente, a influência desse Espírito que desejava por ele comunicar-se.

P. ─ Para começar, tende a bondade de dizer como vos achais no mundo dos Espíritos. Ao mesmo tempo, fazei o favor de descrever o trabalho da separação, vossas sensações nesse momento e dizer ao cabo de quanto tempo vós vos reconhecestes.

R. ─ Estou tão feliz quanto se pode ser, quando se vê confirmarem-se plenamente todos os pensamentos secretos que se pode ter emitido sobre uma doutrina consoladora e reparadora. Sou feliz! Sim, sou, porque agora vejo sem nenhum obstáculo desdobrar-se à minha frente o futuro da ciência e da filosofia espíritas.

Mas afastemos por hoje essas digressões inoportunas. Voltarei a conversar convosco sobre esse assunto, sabendo que minha presença vos dará tanto prazer quanto eu mesmo experimento vos visitando.

O desligamento foi muito rápido, mais rápido do que meu pouco mérito me permitia esperar. Fui ajudado poderosamente por vosso concurso, e vosso sonâmbulo vos deu uma ideia muito clara do fenômeno da separação, para que eu deva insistir sobre ele. Era uma espécie de oscilação descontínua, ou arrastamento em dois sentidos opostos. O Espírito triunfou, pois que aqui estou. Não deixei o corpo completamente senão no momento em que ele foi depositado na terra. Voltei convosco.

P. ─ Que pensais do serviço que foi feito nos vossos funerais? Julguei-me no dever de estar presente. Naquele momento estáveis bastante desprendido para vê-lo, e as preces que eu disse por vós, naturalmente não ostensivas, foram até vós?

R. ─ Sim. Como vos disse, vossa assistência tudo fez parcialmente, e eu vim convosco, abandonando completamente minha velha crisálida. As coisas materiais pouco me tocam, aliás, vós o sabeis. Eu só pensava na alma e em Deus.

P. ─ Lembrai-vos que, a pedido vosso, há cinco anos, em fevereiro de 1860, fizemos um estudo sobre vós, estando ainda vivo? Naquele momento vosso Espírito desprendeu-se para vir conversar conosco. Podeis descrever-nos, tanto quanto possível, a diferença que existe entre o vosso desprendimento atual e o de então?

R. ─ Sim, por certo. Eu me lembro. Mas que diferença entre o meu estado de então e o de hoje! Então a matéria ainda me constringia com seu sistema inflexível; eu queria desprender-me de maneira mais absoluta e não podia. Hoje estou livre. Um vasto campo, o do desconhecido, abre-se à minha frente, e eu espero, com a vossa ajuda e a dos bons Espíritos, aos quais me recomendo, avançar e me penetrar o mais rapidamente possível dos sentimentos que devo experimentar e dos atos que devo realizar para subir o caminho da prova e merecer o mundo das recompensas. Que majestade! Que grandeza! É quase um sentimento de espanto que domina quando, fracos como somos, queremos fixar as sublimes claridades.

P. ─ De outra vez teremos prazer de continuar esta conversa, quando quiserdes voltar até nós.

R. ─ Respondi sucintamente e sem ordem às vossas diversas perguntas. Não espereis ainda muito de vosso fiel discípulo, pois não estou inteiramente livre. Conversar, conversar mais, seria minha felicidade. Meu guia modera meu entusiasmo e já apreciei bastante a sua bondade e sua justiça para me submeter inteiramente à sua decisão, por mais pesar que eu experimente em ser interrompido. Consolo-me pensando que poderei vir muitas vezes assistir incógnito às vossas reuniões. Falar-vos-ei algumas vezes; amo-vos e quero prová-lo. Mas outros Espíritos mais adiantados que eu reclamam a prioridade, e eu deveria apagar-me ante os que tiveram a bondade de permitir ao meu Espírito dar livre curso à torrente de pensamentos que havia acumulado.

Deixo-vos, amigos, e devo agradecer duplamente, não só a vós, espíritas, que me chamastes, mas também a este Espírito que permitiu que eu tomasse o seu lugar e que, em vida, trazia o nome ilustre de Pascal.

Aquele que foi e será sempre o mais dedicado de vossos adeptos.

Dr. Vignal.


NOTA: Com efeito, o Espírito de Pascal deu a seguir a comunicação publicada adiante, sob o título de O progresso intelectual.

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