Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Não dizemos nada de novo aos nossos irmãos em crença, nem aos adversários, dizendo que o Espiritismo invade todas as camadas da Sociedade. As duas cartas aqui citadas têm por objetivo principal pôr em relevo a similitude de sentimentos que a doutrina suscita nos polos extremos da escala social, em indivíduos que não têm nenhum contacto, que jamais vimos e que, nada obstante, se encontram no mesmo terreno, sem outro guia a não ser a leitura das obras. Um é um dignitário do império russo, e o outro um simples pastor da Touraine.

Eis a primeira carta:

Senhor,

Desde 23 de outubro último formou-se em nossa cidade um grupo espírita sob a proteção do apóstolo São Pedro. Considerando-vos, senhor, como nosso mestre em Espiritismo, julgo um dever, como presidente deste grupo, vos dar esta informação.

O objetivo principal que nos propomos é o alívio dos Espíritos sofredores, encarnados e desencarnados. Temos duas reuniões por semana. Procuramos atingir a unidade de pensamento, e para alcançá-la, cada um dos assistentes, durante toda a sessão, guarda o mais recolhido silêncio, e quando a pergunta aos Espíritos é lida em voz alta, cada um de nós mentalmente pede a seu anjo protetor a ajuda a fim de obter uma resposta verdadeira. Em nossas evocações, lidando o mais das vezes com Espíritos de ordem inferior, com Espíritos obsessores, e conhecendo, pela experiência, a eficácia da prece em comum, a ela quase sempre recorremos para esclarecer e aliviar esses infelizes. Nosso grupo possui muitos médiuns, mas ordinariamente só dois ou três escrevem em cada sessão. Temos, além disso, um médium auditivo e vidente, e um magnetizador. Prometem-nos um médium desenhista, mas, nunca o tendo visto, não posso apreciar sua faculdade. Nosso grupo já se compõe de quarenta membros.

Há várias outras reuniões espíritas em São Petersburgo, mas não possuem regulamentos. Nosso grupo é o primeiro regularmente organizado e esperamos que, com a ajuda de Deus, nosso exemplo seja seguido.

Tenho satisfação em poder dizer-vos que enfim apareceu a primeira brochura espírita na Rússia, impressa em São Petersburgo, com autorização da censura. É a minha resposta a um artigo que o arcipreste Sr. Debolsky inseriu no jornal Radougaf (O Arco-íris). Até agora nossa censura não permitia publicar artigos senão contra, mas nunca a favor Espiritismo. Pensei que a melhor refutação fosse a tradução de vossa brochura O Espiritismo em sua Expressão mais Simples, que fiz inserir naquele jornal.

Me permitis, senhor, que vos remeta as comunicações mais importantes que pudermos obter, sobretudo as que vierem em apoio à verdade e à sublimidade de nossa doutrina?

Tende a bondade de aceitar, etc.

General A. de B...


A atitude desse grupo, o objetivo todo de caridade a que se propõe, são as melhores provas que o Espiritismo ali é compreendido em sua verdadeira essência e encarado por seu lado mais sério e mais eminentemente prático. Nada, ali, de curiosidade, de pedidos fúteis, mas a aplicação da doutrina no que ela tem de mais elevado. Uma pessoa que assistiu a muitas dessas reuniões nos disse que as pessoas ficam edificadas com a seriedade, o recolhimento e o sentimento de verdadeira piedade que ali imperam.

A carta que segue não foi escrita para nós, mas para o presidente de um dos grupos espíritas de Tours. Transcrevemo-la literalmente, salvo a ortografia, que foi corrigida.

Caro senhor Rebondin e irmão em Deus,

Perdoai, caro senhor, se tomo a liberdade de vos escrever. Já há muito tempo tinha a intenção de fazê-lo, para vos agradecer a boa acolhida que me deste no ano passado, proporcionando-me o prazer de assistir duas vezes às vossas sessões. Sem dúvida não vos lembrais de mim, mas vou dizer-vos quem sou. Fui ver-vos com meu antigo patrão, Sr. T... Eu era seu pastor há onze anos. Hoje ele acaba de se casar e os parentes da esposa, percebendo que eu me ocupava de Espiritismo que, segundo eles, é um estudo diabólico, fizeram tanto que ele teve que nos despedir. Sofri muito com esta separação, caro senhor, mas quero seguir as máximas de nossa santa doutrina; meu dever é orar por todos os infelizes que ofendem o divino Mestre de todos.

Faço todos os meus esforços, desde que conheci a doutrina, para fazer adeptos. Se encontrei obstáculos, tive a satisfação de ter conduzido muitas pessoas ao conhecimento do Espiritismo, que explica todas as provações que sofremos nesta terra de amarguras e misérias. Oh! Como é doce ser espírita e praticar suas virtudes! Para mim é minha única felicidade. Vós, caro senhor, o mais devotado à santa causa, espero não me recusareis um lugar em vosso coração. Sou feliz por vos conhecer, acolhestes-me tão bem! Eis que duas vezes fui a Tours, com meus dois amigos que estudam o Espiritismo, com intenção de assistir às vossas sessões, mas soube que as sessões não mais se realizam aos domingos. Tende a bondade de me dizer se vos reunis sempre nesse dia e permitir que me reúna a vós, com os meus amigos, a fim de participarmos em nosso benefício espiritual. Dar-nos-eis uma felicidade muito grande. Conto com a vossa amizade e continuo esperando o dia em que terei a felicidade de estarmos reunidos para praticarmos o amor e a caridade.

Vosso amigo que vos ama, saúda fraternalmente,

PIERRE HOUDÉE, Pastor.


Vê-se que não é preciso um diploma para compreender a doutrina. É que, malgrado seu alto alcance, ela é tão clara e tão lógica que chega sem esforço a todas inteligências, condição sem a qual nenhuma ideia pode popularizar-se. Ela toca o coração: eis o seu maior segredo, e há um coração no peito do operário, como no do grão-senhor. O grande, como o pequeno, tem suas dores, suas amarguras, suas feridas morais, para as quais pede bálsamo e consolações que, um e outro, encontram na certeza do futuro, porque um e outro são iguais perante a dor e diante da morte, que tanto ferem o rico quanto o pobre. Duvidamos muito que se chegue a dar à doutrina do demônio e das chamas eternas atrativos suficientes para suplantála. Esse mesmo pastor fazia muitas vezes, após o seu dia de trabalho, duas léguas para ir a Tours assistir a uma reunião espírita, e outras duas para voltar. Quando falamos do alto alcance da doutrina e das consolações que ela proporciona, falamos uma linguagem incompreendida para os que julgam que o Espiritismo está inteiramente nas mesas girantes, ou num fenômeno mais ou menos autêntico que reúne curiosos, mas que é perfeitamente entendido por quem quer que não se tenha detido na superfície e não se tenha deixado envolver por boatos, cujo número é grande.

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