Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Jamais uma doutrina filosófica dos tempos modernos causou tanta emoção quanto o Espiritismo. Jamais qualquer uma foi atacada com tanto encarniçamento. É a prova evidente de que lhe reconhecem mais vitalidade e raízes mais profundas que nas outras, pois não se toma de uma picareta para arrancar um capinzinho. Longe de se apavorar, os espíritas devem alegrar-se com isso, pois é prova da importância e da verdade da doutrina. Se ela não passasse de uma ideia efêmera e sem consistência, de uma mosca que voa, não a atacariam com tamanha violência; se fosse falsa, atacá-la-iam com argumentos sólidos que já teriam triunfado sobre ela. Entretanto, como nenhum dos argumentos que lhe opõem pôde detê-la, é que ninguém encontrou falha na couraça. Contudo, não faltaram nem boa vontade nem talento aos seus antagonistas.

Nesse vasto torneio de ideias, onde o passado entra em liça com o futuro, e que tem por campo fechado o mundo inteiro, o grande júri é a opinião pública. Ela escuta o pró e o contra; ela julga o valor dos meios de ataque e de defesa e se pronuncia a favor de quem dá as melhores razões. Se um dos dois campeões emprega armas desleais, é condenado por antecipação. Ora, haverá armas mais desleais que a mentira, a calúnia e a traição? Recorrer a semelhantes meios é confessar-se vencido pela lógica, e a causa que se reduz a tais expedientes é uma causa perdida; não será um homem, nem serão alguns homens que pronunciarão a sua sentença: será a Humanidade, que a força das coisas e a consciência do bem arrastam para o que é mais justo e mais racional.

Vede, na história do mundo, se uma só ideia grande e verdadeira não triunfou sempre sobre qualquer coisa que tenham feito para entravá-la. A esse respeito, o Espiritismo nos apresenta um fato inaudito: é o da rapidez de propagação sem paralelo. Essa rapidez é tal que seus próprios adversários ficam aturdidos; assim, atacam com o cego furor dos combatentes que perdem o sangue frio e se aferram às suas próprias armas.

Entretanto, a luta está longe de chegar ao fim. É preciso, ao contrário, esperar que ela adquira maiores proporções e um outro caráter. Seria demasiado prodigioso e incompatível com o estado atual da Humanidade que uma doutrina que leva em si o germe de toda uma renovação se estabelecesse pacificamente em alguns anos. Ainda uma vez, não nos lamentemos. Quanto mais rude for a luta, mais brilhante será o triunfo. Ninguém duvida que o Espiritismo cresceu pela oposição que lhe fizeram. Deixemos, pois, essa oposição esgotar os seus recursos. Ele crescerá ainda mais quando ela tiver revelado sua própria fraqueza aos olhos de todos. O campo de combate do Cristianismo nascente era circunscrito; o do Espiritismo se estende por toda a face da Terra. O Cristianismo não pôde ser abafado sob ondas de sangue; ele cresceu por seus mártires, como a liberdade dos povos, porque era uma verdade. O Espiritismo, que é o Cristianismo apropriado ao desenvolvimento da inteligência e livre dos abusos, crescerá do mesmo modo sob a perseguição, porque também ele é uma verdade.

A força bruta é reconhecidamente impotente contra a ideia espírita, mesmo nos países onde ela é aplicada com toda a liberdade. Aí está a experiência para atestá-lo. Comprimindo a ideia num ponto, fazem-na surgir de todos os lados. Uma compressão geral produzirá uma explosão. Contudo, nossos adversários não renunciaram. Enquanto esperam, recorrem a outra tática, a das manobras surdas.

Muitas vezes já tentaram, e tentarão de novo, comprometer a doutrina, impelindo-a por uma via perigosa ou ridícula para desacreditá-la. Hoje, semeando de forma sub-reptícia a divisão e lançando fachos de discórdia, eles esperam lançar a dúvida e a incerteza nos espíritos, provocar o desânimo verdadeiro ou simulado e fomentar a perturbação entre os adeptos. Mas não são adversários confessos que assim agiriam. O Espiritismo, cujos princípios têm tantos pontos de semelhança com os do Cristianismo, também deve ter os seus Judas, para que tenha a glória de sair vitorioso dessa nova prova. Por vezes o dinheiro é o argumento que substitui a lógica. Não se viu uma mulher confessar ter recebido 50 francos para simular loucura depois de haver assistido a uma única reunião espírita?

Assim, não é sem razão que, na Revista de março de 1863, publicamos o artigo sobre os falsos irmãos. O artigo não agradou a todo mundo, e mais de um queria que víssemos mais claro e que abríssemos os olhos dos outros, apertando-nos a mão em sinal de aprovação, como se fôssemos a vítima. Mas que importa! Nosso dever é premunir os espíritas sinceros contra as armadilhas que lhes preparam.

Quanto àqueles que nos hostilizaram, para os quais esses princípios, como vários outros, eram muito rigorosos, é que sua simpatia era superficial e não do fundo do coração, e nós não temos nenhuma razão para a eles nos atermos. Temos que nos ocupar de coisas mais importantes que a sua boa ou má vontade a nosso respeito. O presente é fugidio e amanhã não existirá mais. Para nós ele nada é. O futuro é tudo e é para o futuro que trabalhamos. Sabemos que as simpatias verdadeiras nos seguirão, e aquelas que estão à mercê de um interesse material ilusório ou de um amor-próprio não satisfeito, não merecem este nome.

Quem quer que ponha o seu ponto de vista fora da estreita esfera do presente não mais é perturbado pelas mesquinhas intrigas que se agitam ao seu redor. É o que nos esforçamos por fazer, e é o que aconselhamos aos que querem ter a paz da alma neste mundo. (O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. II, item 15).

Como todas as ideias novas, a ideia espírita não podia deixar de ser explorada por gente que não tendo tido êxito em nada, por conduta errada ou por incapacidade, está em busca do que é novo, na esperança de aí encontrar uma mina mais produtiva e mais fácil. Se o sucesso não corresponde à sua expectativa, eles não assumem a responsabilidade, mas atribuem o insucesso à coisa, que declaram má. Essas pessoas têm apenas o nome de espíritas. Melhor do que qualquer outro, pudemos ver essa manobra, tendo sido muitas vezes o alvo dessas explorações, com as quais não quisemos compactuar, o que não nos valeu amigos.

Voltemos ao nosso assunto. O Espiritismo, repetimo-lo, ainda tem que passar por rudes provas e é aí que Deus reconhecerá seus verdadeiros servidores, por sua coragem, por sua firmeza e por sua perseverança. Aqueles que se abalarem pelo medo ou por uma decepção, são como esses soldados que só têm coragem nos tempos de paz e fogem ao primeiro tiro. A maior prova não será, entretanto, a perseguição, mas o conflito das ideias que será suscitado e com cujo auxílio esperam romper a falange dos adeptos e à admirável unidade que se faz na doutrina.

Esse conflito, embora provocado com má intenção, quer venha ele de homens, quer de maus Espíritos, é, contudo, necessário e deve trazer uma perturbação momentânea nalgumas consciências fracas, e mesmo que cause uma perturbação momentânea em algumas, terá como resultado definitivo a consolidação da unidade. Em todas as coisas não se devem julgar pontos isolados, mas ver o conjunto. É útil que todas as ideias, mesmo as mais contraditórias e as mais excêntricas, venham à luz; elas provocam o exame e o julgamento, e se forem falsas, o bom-senso lhes fará justiça: elas cairão forçosamente ante a prova decisiva do controle universal, como já caíram tantas outras. Foi esse grande critério que fez a unidade atual; será ele que a concluirá, porque é o crivo que deve separar o bom do mau grão, e a verdade será mais brilhante quando sair do cadinho, livre de todas as escórias. O Espiritismo ainda está em ebulição; deixemos pois a espuma subir à tona e se derramar e ele apenas ficará mais depurado. Deixemos aos adversários a alegria maligna e pueril de soprar o fogo para provocar essa ebulição porque, sem querer, eles apressam sua depuração e seu triunfo, e eles próprios queimar-se-ão no fogo que acendem. Deus quer que tudo seja útil à causa, mesmo aquilo que é feito com a intenção de prejudicá-la.

Não esqueçamos que o Espiritismo não está acabado. Ele ainda não fez senão plantar balizas, mas, para avançar com segurança, deve fazê-lo gradualmente, à medida que o terreno esteja preparado para recebê-lo e bastante consolidado para nele pôr o pé com segurança. Os impacientes, que não sabem esperar o momento propício, comprometem a colheita, como comprometem a sorte das batalhas.

Entre os impacientes há, sem dúvida, aqueles de muito boa-fé; quereriam ver as coisas irem ainda mais depressa, mas assemelham-se a essas criaturas que julgam adiantar o tempo adiantando o relógio. Outros, não menos sinceros, são levados pelo amor-próprio a chegar primeiro; semeiam antes da estação e só colhem frutos abortados. Ao lado desses, outros há, infelizmente, que empurram o carro por trás, esperando vê-lo tombar.

Compreende-se que certos indivíduos que gostariam de ter sido os primeiros, nos censurem por termos ido tão depressa; que outros, por motivos contrários, nos censurem por avançarmos devagar; mas o que é menos explicável é, por vezes, ver essa dupla censura feita pelo mesmo indivíduo, o que não é prova de muita lógica. Se formos aguilhoados por andarmos pela direita ou pela esquerda, nem por isso avançaremos menos, como temos feito até aqui, na linha que nos é traçada, ao fim da qual está o objetivo que queremos atingir. Iremos para a frente ou esperaremos; apressar-nos-emos ou nos retardaremos conforme as circunstâncias, e não segundo a opinião deste ou daquele.

O Espiritismo marcha a despeito de seus adversários numerosos que não tendo podido tomá-lo pela força, tentam tomá-lo pela astúcia; eles se insinuam por toda parte, sob todas as máscaras e até nas reuniões íntimas, na esperança de aí flagrar um fato ou uma palavra que muitas vezes terão provocado e que esperam explorar em seu proveito. Comprometer o Espiritismo e torná-lo ridículo, tal é a tática com cujo auxílio esperam desacreditá-lo a princípio, para mais tarde terem um pretexto para interditar, se possível, o seu exercício público. É a cilada contra a qual é preciso manter-se em guarda, porque está armada por todos os lados, e à qual, sem querer, dão a mão os que se deixam levar pelas sugestões dos Espíritos enganadores e mistificadores.

O meio de evitar essas maquinações é seguir o mais exatamente possível a linha de conduta traçada pela doutrina; sua moral, que é a sua parte essencial, é inatacável; praticando-a, não se dá ensejo a nenhuma crítica fundada e a agressão se torna mais odiosa. Apanhar os espíritas em falta e em contradição com os seus princípios seria uma grande sorte para os seus adversários; assim, vede como se empenham em acusar o Espiritismo de todas as aberrações e de todas as excentricidades pelas quais não podia ser responsável. A doutrina não é ambígua em nenhuma de suas partes; ela é clara, precisa, categórica nos mínimos detalhes; só a ignorância e a má-fé podem enganar-se sobre o que ela aprova ou condena. É, pois, um dever de todos os espíritas sinceros e devotados repudiar e desautorizar abertamente, em seu nome, os abusos de todo gênero que pudessem comprometê-la, a fim de não lhes assumir a responsabilidade; pactuar com os abusos seria tornar-se cúmplice e fornecer armas aos nossos adversários.

Os períodos de transição são sempre difíceis de passar. O Espiritismo está nesse período; atravessá-lo-á com tanto menos dificuldade quanto mais os seus adeptos forem prudentes. Estamos em guerra; aí está o inimigo que espia, prestes a explorar o menor passo em falso em seu proveito e prestes a fazê-lo meter o pé na lama, se puder.

Contudo, não nos apressemos em atirar pedras ou em levantar a suspeita muito levianamente, e em aparências que poderiam ser enganosas. Aliás, a caridade torna a moderação um dever, mesmo para com aqueles que estão contra nós. Contudo, a sinceridade, mesmo em seus erros, tem atitudes de franqueza, com as quais não é possível equívoco, e que a falsidade jamais simulará completamente, porque mais cedo ou mais tarde põe as unhas de fora. Deus e os bons Espíritos permitem que ela se traia por seus próprios atos. Se uma dúvida atravessa o espírito, deve ser apenas um motivo para se manter em reserva, o que pode ser feito sem faltar às conveniências.

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