Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Um dos nossos colegas transmitiu à Sociedade o resumo seguinte de um relatório lido na Academia de Medicina pelo Sr. Dr. H. Bouley, sobre os sintomas da raiva no cão.

“No período inicial da raiva e quando a doença está completamente declarada, nas intermitências dos acessos, há no cão uma espécie de delírio que poderia chamar-se delírio rábico, do qual o primeiro a falar foi Youatt, que o descreveu perfeitamente.

“Esse delírio se caracteriza por movimentos estranhos, que denotam que o animal doente vê objetos e ouve ruídos que só existem naquilo que se tem pleno direito de chamar a sua imaginação. Com efeito, ora o animal se mantém imóvel, atento, como se estivesse de emboscada; depois, de repente, atira-se e morde no ar, como faz, no estado de saúde, o cão que quer apanhar uma mosca no voo. Outras vezes atira-se, furioso e uivando, contra a parede, como se tivesse ouvido, do outro lado, ruídos ameaçadores.

“Raciocinando por analogia, somos autorizados a admitir que são sinais de verdadeira alucinação. Contudo, quem não estivesse prevenido não ligaria importância a esses sintomas, que são muito fugazes e, para que desapareçam, basta que se faça ouvir a voz do dono. Então vem um momento de repouso; os olhos se fecham lentamente, a cabeça pende, os membros dianteiros parecem desaparecer sob o corpo e o animal está prestes a cair. Mas de repente se ergue, e novamente fantasmas vêm cercá-lo; ele olha em torno de si com uma expressão selvagem, abocanha, como para pegar um objeto ao alcance dos dentes, e se lança até a extremidade da sua corrente, ao encontro de um inimigo que só existe em sua imaginação.”

Esse fenômeno, minuciosamente observado pelo autor da memória, como se vê, parece denotar que nesse momento o cão é atormentado pela visão de algo invisível para nós. É uma visão real ou uma criação fantástica de sua imaginação, por outras palavras, uma alucinação? Se for uma alucinação, certamente não é pelos olhos do corpo que ele vê, pois não são objetos reais; se forem seres fluídicos ou Espíritos, como não produzem, também, nenhuma impressão sobre os sentidos da visão, é, pois, por uma espécie de visão espiritual que ele os percebe. Num caso como no outro, ele gozaria de uma faculdade, até certo ponto análoga à que possui o homem. A Ciência ainda não se tinha aventurado a dar uma imaginação aos animais. Ora, da imaginação a um princípio independente da matéria a distância não é grande, a menos que se admita que a matéria bruta ─ a madeira, a pedra, etc., possa ter imaginação.

Todos os fenômenos de visões são atribuídos pela Ciência à imaginação superexcitada. Contudo, por vezes têm-se visto crianças em tenra idade, que ainda não falam, correr atrás de um ser invisível, sorrir-lhe, estender-lhe os braços e querer apanhá-lo. Em analogia com a raiva, este fato não tem uma grande semelhança com o do cão acima citado? O menino ainda não pode dizer o que vê, mas os que começam a falar dizem, positivamente, ver seres invisíveis para os assistentes. Nós os vimos descreverem seus avós mortos, que eles não conheceram. Compreende-se a superexcitação numa pessoa preocupada com uma ideia, mas certamente não é o caso de uma criancinha. A imaginação superexcitada poderá reavivar uma lembrança; o medo, a afeição, o entusiasmo, poderão criar imagens fantásticas, concordamos; sob o império de certas crenças, uma pessoa exaltada imaginará ver aparecer um ser que lhe é caro, a virgem ou os santos, ainda concordamos; mas como explicar, só por estas causas, o fato de uma criança de três a quatro anos descrever sua avó, que ela nunca viu? Certamente não pode ser o produto de uma lembrança, nem da preocupação, nem de uma crença qualquer.

Digamos, de passagem, e como corolário ao que precede, que a mediunidade vidente parece ser frequente, e mesmo geral, nas criancinhas. Nossos anjos de guarda viriam, assim, conduzir-nos, como que pela mão, até o limiar da vida, para facilitar-nos a entrada e mostrar-nos sua ligação com a vida espiritual, a fim de que a transição de uma à outra não seja muito brusca. À medida que a criança cresce e pode fazer uso de suas próprias forças, o anjo de guarda se vela à sua vista, para deixá-la ao seu livre-arbítrio. Parece dizer-lhe: “Vim acompanhar-te até o navio que te vai transportar pelo mar do mundo; agora, parte; voa com tuas próprias asas; mas, do alto do céu, velarei por ti; pensa em mim, e quando voltares lá estarei para receber-te.” Feliz aquele que, durante a travessia, não esquece seu anjo de guarda!

Voltemos ao assunto principal que nos conduziu a esta digressão. Desde que admitamos uma imaginação no cão, poderíamos dizer que a doença da raiva o superexcita a ponto de lhe produzir alucinações. Mas numerosos exemplos tendem a provar que o fenômeno das visões ocorre em certos animais, no estado mais normal, sobretudo no cão e no cavalo. Pelo menos é nestes que temos podido observar mais. Raciocinando por analogia, podemos supor que assim seja com o elefante e com animais que, por sua inteligência, mais se aproximam do homem. É certo que o cão sonha; nós o vemos, por vezes, durante o sono, fazer movimentos que simulam a corrida; gemer ou manifestar contentamento. Seu pensamento está, pois, ativo, livre e independente do instinto propriamente dito. O que faz ele? O que vê? Em que pensa nos seus sonhos? É o que, infelizmente, não nos pode dizer; mas o fato aí está.

Até agora nós nos tínhamos pouco preocupado com o princípio inteligente dos animais, e ainda menos com sua afinidade com a espécie humana, a não ser do ponto de vista exclusivo do organismo material. Hoje procura-se conciliar seu estado e seu destino com a justiça de Deus; mas a esse respeito apenas foram construídos sistemas mais ou menos lógicos, que nem sempre estão de acordo com os fatos. Se a questão ficou tanto tempo indefinida, é que nos faltavam, como para muitas outras, elementos necessários à sua compreensão. O Espiritismo, que dá a chave de tantos fenômenos não compreendidos, mal observados ou despercebidos, não pode deixar de facilitar a solução desse grave problema, ao qual não dedicamos toda a atenção que ele merece, porque é uma solução de continuidade nos anéis da cadeia que liga todos os seres e no conjunto harmonioso da criação.

Por que, pois, o Espiritismo não solucionou imediatamente a questão? Seria o mesmo que perguntar a um professor de Física por que ele não ensina aos alunos, desde a primeira lição, as leis da eletricidade e da óptica. Ele começa pelos princípios fundamentais da Ciência, pelos que devem servir de base para a compreensão dos outros princípios, e reserva para mais tarde a explicação das leis subsequentes. Assim procedem os grandes Espíritos que dirigem o Movimento Espírita; em boa lógica, eles começam pelo começo e esperam que estejamos instruídos num ponto, antes de abordar outro. Ora, qual devia ser o ponto de partida de seu ensino? A alma humana. Cabe-nos convencer de sua existência e de sua imortalidade. Cabe a nós dar a conhecer seus verdadeiros atributos e o destino que, de saída, era preciso a ela ligar. Numa palavra, precisávamos compreender nossa alma, antes de procurar compreender a dos animais. O Espiritismo já nos ensinou bastante sobre a alma e suas faculdades; cada dia mais nos ensina e lança luz sobre algum ponto novo. Mas quanto ainda resta a explorar!

À medida que o homem avança no conhecimento de seu estado espiritual, sua atenção é despertada para todas as questões que a ele se ligam, de perto ou de longe, e a dos animais não é das que menos interessam. Ele apreende melhor as analogias e as diferenças; busca compreender o que vê; tira consequências; ensaia teorias, uma após outra desmentidas ou confirmadas por novas observações. É assim que, pelos esforços de sua própria inteligência, ele pouco a pouco se aproxima do objetivo. Nisto, como em todas as coisas, os Espíritos não nos vêm libertar do trabalho das pesquisas, porque o homem deve usar suas faculdades: eles o ajudam, dirigem-no, o que já é muito, mas não lhe dão a ciência acabada. Desde que esteja no caminho da verdade, então lha vêm revelar claramente, para fazer calar as incertezas e aniquilar os falsos sistemas. Mas, enquanto espera, seu espírito foi preparado para melhor compreendê-la e aceitá-la, e quando ela se mostra, não o surpreende, pois já estava no fundo do pensamento.

Vede o caminho que o Espiritismo trilhou. Veio ele colher os homens de improviso? Certamente não, sem falar nos fatos que se produziram em todas as épocas, porque ele está em a Natureza. Como a eletricidade, do ponto de vista do princípio, há um século ele havia preparado seu aparecimento; Swedenborg, SaintMartin, os teósofos, Charles Fourier, Jean Reynaud e tantos outros, sem esquecer Mesmer, que deu a conhecer a força fluídica, de Puységur, o primeiro a observar o sonambulismo, todos levantaram uma ponta do véu da vida espiritual; todos giraram em torno da verdadeira luz e dela se aproximaram mais ou menos; todosprepararam os caminhos e dispuseram os espíritos, de sorte que, por assim dizer, o Espiritismo apenas teve que completar o que havia sido esboçado. Eis por que ele conquistou quase que instantaneamente tão numerosas simpatias. Não falamos das outras causas múltiplas que lhe vieram em auxílio, provando que certas ideias não mais estavam no nível do progresso humano, e fizeram pressentir o surgimento de uma nova ordem de coisas, porque a Humanidade não pode ficar estacionária. Dá-se o mesmo a em todas as grandes ideias que mudaram a face do mundo. Nenhuma veio deslumbrá-lo, como um relâmpago. Cinco séculos antes do Cristo, Sócrates e Platão já não haviam lançado a semente das ideias cristãs?

Um outro motivo tinha feito adiar a solução relativa aos animais. Essa questão toca em preconceitos longamente arraigados, e que teria sido imprudente atacar de frente, razão pela qual os Espíritos não o fizeram. A questão é hoje abordada; agitase em diversos pontos, mesmo fora do Espiritismo; os desencarnados nela tomam parte, cada um de acordo com suas ideias pessoais; essas várias teorias são discutidas, examinadas; uma porção de fatos, como, por exemplo, o de que trata este artigo, e que outrora teriam passado despercebidos, hoje chamam a atenção, em razão mesmo dos estudos preliminares que têm sido feitos. Sem adotar esta ou aquela opinião, a gente se familiariza com a ideia de um ponto de contacto entre a animalidade e a humanidade, e quando vier a solução definitiva, seja qual for o sentido em que vier, ela deverá apoiar-se em argumentos peremptórios, que não darão lugar a qualquer dúvida. Se a ideia for verdadeira, terá sido pressentida; se for falsa, é que teremos encontrado algo de mais lógico para substituí-la.

Tudo se liga, tudo se encadeia, tudo se harmoniza em a Natureza. O Espiritismo veio dar uma idéia-mãe, e pode ver-se quão fecunda é essa ideia. Antes da luz que ele lançou sobre a Psicologia, teríamos dificuldade em crer que tantas considerações pudessem surgir a propósito de um cão raivoso.

Lido na Sociedade de Paris o resumo acima do relatório do Sr. Bouley, um Espírito deu a respeito a seguinte comunicação.


(Sociedade Espírita de Paris, 30 de junho de 1865 – Médium: Sr. Desliens)

Existe a visão no cão e nalguns outros animais, nos quais fenômenos semelhantes aos descritos pelo Sr. Bouley podem produzir-se? Para mim, não há sombra de dúvida sobre a questão. Sim, o cão e o cavalo veem ou sentem os Espíritos. Nunca testemunhastes a repugnância que manifestam, por vezes, esses animais, de passar por um lugar onde ignoravam que um corpo humano tivesse sido enterrado? Certamente direis que seus sentidos podem ser despertados pelo odor particular dos corpos em putrefação. Então por que passam indiferentes ao lado do cadáver enterrado de outro animal? Por que se diz que o cão sente a morte? Jamais ouvistes cães uivando sob à janela de uma pessoa agonizante, quando esta lhe era desconhecida? Não vedes, também, fora da superexcitação da raiva, diversos animais se recusarem a obedecer à voz do dono, recuar com medo ante um obstáculo invisível, que parece barrar-lhes a passagem, e se encolerizarem, e depois passarem tranquilamente pelo mesmo lugar que lhes inspirava tão grande terror, como se o obstáculo tivesse desaparecido? Têm-se visto animais salvarem seus donos de um perigo iminente, recusando percorrer o caminho onde estes poderiam ter sucumbido.

Os fatos de visões nos animais se encontram na Antiguidade e na Idade Média, assim como em nossos dias.

Assim, sem dúvida os animais veem os Espíritos. Aliás, dizer que eles têm imaginação não é conceder-lhes um ponto de semelhança com o espírito humano, e o instinto não é neles a inteligência rudimentar apropriada às suas necessidades, antes que tenha passado pelos cadinhos modificadores que devem transformá-la e lhe dar novas faculdades? O homem também tem instintos que o fazem agir de maneira inconsciente, no interesse de sua conservação. Mas, à medida que nele se desenvolvem a inteligência e o livre-arbítrio, o instinto se enfraquece, para dar lugar à razão, porque o guia cego lhe é menos necessário.

O instinto, que tem toda a sua força no animal, perpetuando-se no homem, onde se perde pouco a pouco, certamente é um traço de união entre as duas espécies. A sutileza dos sentidos no animal, como no selvagem e no homem primitivo, substituindo nuns e noutros a ausência ou insuficiência do senso moral, é outro ponto de contacto. Enfim, a visão espiritual, que muito evidentemente lhes é comum, embora em graus muito diferentes, também vem diminuir a distância que parecia erguer uma barreira intransponível. Contudo, nada concluais de modo absoluto, mas observai atentamente os fatos, porque somente dessa observação um dia surgirá para vós a verdade.

MOKI


OBSERVAÇÃO: Este conselho é muito sábio, pois evidentemente apenas nos fatos é que se pode assentar uma teoria sólida. Fora disto só haverá opiniões e sistemas. Os fatos são argumentos sem réplica, cujas consequências, mais cedo ou mais tarde, quando constatadas, terão que ser aceitas. Foi este princípio que serviu de base à Doutrina Espírita, o que nos leva a dizer que ela é uma ciência de observação.

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