Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Os irmãos Davenport, que neste momento atraem a atenção em tão alto grau, são dois jovens de vinte e quatro e vinte cinco anos, nascidos em Buffalo, no Estado de Nova Iorque e que se apresentam em público como médiuns. Contudo, sua faculdade é limitada a efeitos exclusivamente físicos, dos quais o mais notável consiste em se fazerem amarrar com cordas de maneira inextricável e a serem desatados instantaneamente por uma força invisível, a despeito de todas as precauções tomadas para verificar que são incapazes de fazê-lo por si próprios. A isto juntam outros fenômenos mais conhecidos, como o transporte de objetos pelo espaço, o toque espontâneo de instrumentos de música, a aparição de mãos luminosas, a apalpação por mãos invisíveis, etc.

Os Srs. Didier, editores do Livro dos Espíritos, acabam de publicar uma tradução de sua biografia, contendo o relato minucioso dos efeitos que produzem e que, salvo as cordas, têm numerosos pontos de semelhança com os do Sr. Home. A emoção que a presença deles causou na Inglaterra e em Paris dá a essa obra um forte interesse de atualidade. Seu biógrafo inglês, o Dr. Nichols, pois não foram eles que escreveram o livro, mas forneceram os documentos, limitou-se ao relato dos fatos sem explicações; mas os editores franceses tiveram a feliz ideia de juntar à sua publicação, para esclarecimento das pessoas estranhas ao Espiritismo, nossos dois opúsculos: Resumo da Lei dos Fenômenos Espíritas e O Espiritismo na sua Expressão mais Simples, com numerosas notas explicativas no corpo do texto[1]. Assim, nessa obra encontrar-se-ão os ensinamentos desejáveis sobre o caso desses senhores, em cujos detalhes não podemos entrar, pois temos que encarar a questão de outro ponto de vista.

Diremos apenas que sua aptidão para produzir esses fenômenos se revelou de maneira espontânea, desde a sua infância. Durante vários anos eles percorreram as principais cidades da América setentrional, onde adquiriram certa reputação. Em setembro de 1864 vieram à Inglaterra, onde produziram viva sensação. Alternativamente foram ali aclamados, denegridos, ridicularizados e até injuriados pela imprensa e pelo público. Notadamente em Liverpool foram objeto da mais insigne malevolência, a ponto de verem comprometida sua segurança pessoal. As opiniões sobre eles se dividiram: Segundo uns, não passavam de hábeis charlatães; segundo outros, eram de boa-fé e podia-se admitir uma causa oculta para seus fenômenos; mas, em suma, ali conquistaram muito poucos prosélitos à ideia espírita propriamente dita. Naquele país essencialmente religioso, o bom-senso natural repelia o pensamento que seres espirituais viessem revelar sua presença por exibições teatrais e demonstrações de força. Sendo ali pouco conhecida a filosofia espírita, o público confundiu Espiritismo com essas representações, e construiu opinião mais contrária do que favorável à doutrina.

É verdade que na França o Espiritismo começou pelas mesas girantes, mas em condições muito diferentes. Tendo-se revelado imediatamente a mediunidade em grande número de pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, e nas famílias mais respeitáveis, os fenômenos se produziram em condições que excluíam qualquer pensamento de charlatanismo; cada um pôde certificar-se por si mesmo, na intimidade, e por observações repetidas, da realidade dos fatos aos quais foi ligado um poderoso interesse quando, saindo dos efeitos puramente materiais que nada diziam à razão, viram as consequências morais e filosóficas deles decorrentes. Se, em vez disto, esse gênero de mediunidade primitiva tivesse sido privilégio de alguns indivíduos isoladas e tivesse sido preciso ir para a frente dos tablados comprar a fé, há muito não se falaria mais dos Espíritos. A fé nasce da impressão moral. Ora, tudo o que é de natureza a produzir uma impressão má, a repele em vez de provocá-la. Haveria hoje muito menos incrédulos, em relação ao Espiritismo, se os fenômenos sempre tivessem sido apresentados de maneira séria. O incrédulo, naturalmente disposto à troça, não pode ser levado a tomar a sério o que é cercado de circunstâncias que não impõem respeito nem confiança. A crítica, que não se dá ao trabalho de aprofundar, forma sua opinião sobre uma primeira aparência desfavorável e confunde o bom e o mau numa mesma reprovação. Muito poucas convicções se formaram em reuniões de caráter público, ao passo que a imensa maioria saiu das reuniões íntimas, onde a notória honorabilidade dos membros podia inspirar toda confiança e desafiar toda suspeita de fraude.

Na última primavera, depois de haver explorado a Inglaterra, os irmãos Davenport vieram a Paris. Algum tempo antes de sua chegada, uma pessoa veio vernos, da parte deles, para pedir que nós os apoiássemos, em nossa Revista. Mas sabese que não nos entusiasmamos facilmente, mesmo pelas coisas que conhecemos e, com mais forte razão, pelas que não conhecemos. Assim, não pudemos prometer um concurso antecipado, tendo por hábito só falar com conhecimento de causa. Na França, onde eles só eram conhecidos pelos relatos contraditórios dos jornais, a opinião, como na Inglaterra, estava dividida a seu respeito. Assim, não podíamos, prematuramente, formular uma censura, que poderia ter sido injusta, nem uma aprovação, da qual teriam podido prevalecer-se. Por isto nos abstivemos.

Em chegando, foram morar no pequeno castelo de Gennevilliers, perto de Paris, onde ficaram vários meses, sem dar ao público notícia de sua presença. Ignoramos o motivo dessa abstenção. Nos últimos dias eles fizeram algumas sessões particulares, de que os jornais deram notícia de um modo mais ou menos pitoresco. Enfim, foi anunciada sua primeira sessão pública para 12 de setembro na sala Hertz. Conhecese o desfecho deplorável dessa sessão que renovou, em escala menor, as cenas tumultuosas de Liverpool, na qual um dos espectadores, pulando para o estrado, quebrou o aparelho desses senhores e, mostrando uma tábua, exclamou: “Eis o truque!” Esse ato inqualificável num país civilizado, levou a confusão ao cúmulo. Não tendo terminado a sessão, devolveram o dinheiro ao público. Mas, como tinham sido doados muitos bilhetes, o caixa constatou um déficit de setecentos francos, ficando assim provado que setenta assistentes que entraram gratuitamente haviam saído com dez francos a mais no bolso, sem dúvida para se indenizarem dos gastos do passeio.

A polêmica que se estabeleceu a respeito dos irmãos Davenport oferece vários pontos instrutivos, que vamos examinar.

A primeira pergunta que os próprios espíritas se fizeram foi esta: Esses senhores são ou não são médiuns? Todos os fatos relatados em sua biografia entram no círculo das possibilidades mediúnicas, porque efeitos análogos, notoriamente autênticos, foram obtidos muitas vezes sob a influência de médiuns sérios. Se os fatos, por si mesmos, são admissíveis, as condições em que eles se produzem, temos que convir, ensejam a suspeita. A que choca logo à primeira vista é a necessidade da obscuridade, que evidentemente facilita a fraude. Mas isto não seria uma objeção sólida. Os efeitos mediúnicos absolutamente nada têm de sobrenatural; todos, sem exceção, são devidos à combinação dos fluidos próprios do Espírito e do médium; esses fluidos, embora imponderáveis, não deixam de ser matéria sutil. Há, pois, aí uma causa e um efeito de certo modo materiais, o que nos levou sempre a dizer que, sendo os fenômenos espíritas baseados nas leis da Natureza, eles nada têm de miraculosos. Como muitos outros fenômenos, eles só nos pareceram miraculosos porque não se conheciam suas leis. Hoje, conhecidas essas leis, desaparecem o sobrenatural e o maravilhoso, dando lugar à realidade. Assim, não há um só espírita que se atribua o dom dos milagres. É isto o que os críticos saberiam, se se dessem ao trabalho de estudar aquilo de que falam.

Para voltar à questão da obscuridade, sabe-se que em química há combinações que não se podem operar à luz; que ocorrem composições e decomposições sob a ação do fluido luminoso. Ora, sendo todos os fenômenos espíritas, como dissemos, o resultado de combinações fluídicas, e esses fluidos sendo da matéria, nada haveria de estranho que em certos casos o fluido luminoso fosse contrário a essa combinação.

Uma objeção mais séria é a pontualidade com que se produzem os fenômenos, em dias e horas certas e à vontade. Esta submissão ao capricho de certos indivíduos é contrária a tudo quanto se sabe da natureza dos Espíritos, e a repetição facultativa de um fenômeno qualquer sempre foi considerada e em princípio deve ser considerada como legitimamente suspeita, mesmo em caso de desinteresse, e com mais forte razão quando se trata de exibições públicas feitas com objetivo de lucro, às quais repugna à razão pensar que Espíritos possam submeter-se.

A mediunidade é uma aptidão natural inerente ao médium, como a faculdade de produzir sons é inerente a um instrumento; mas, da mesma forma que para que um instrumento toque uma ária é preciso um músico, para que um médium produza efeitos mediúnicos são necessários os Espíritos. Os Espíritos vêm quando querem e quando podem, donde resulta que o médium melhor dotado por vezes nada obtém. Então, ele é como um instrumento sem músico. É o que se vê todos os dias; é o que acontecia ao Sr. Home, que muitas vezes ficava meses inteiros sem nada produzir, a despeito de seu desejo, ainda que em presença de um soberano.

Resulta, portanto, da própria essência da mediunidade, e se pode estabelecer como princípio ABSOLUTO, que um médium jamais está seguro de receber um efeito determinado qualquer, porque isso não depende dele. Afirmar o contrário seria provar completa ignorância dos mais elementares princípios da ciência espírita. Para prometer a produção de um fenômeno com hora marcada, é preciso ter à disposição meios materiais que não vêm dos Espíritos. É este o caso dos irmãos Davenport? Ignoramo-lo. O julgamento cabe aos que acompanharam as suas experiências.

Falaram de desafios, de apostas propostas a quem fizesse as melhores mágicas. Os Espíritos não são fazedores de peripécias e jamais um médium sério entrará em luta com alguém e, ainda menos, com um prestidigitador. Este dispõe de meios próprios; o outro é o instrumento passivo de uma vontade estranha, livre, independente e da qual ninguém pode dispor sem seu consentimento. Se o prestidigitador diz que faz mais que os médiuns, deixai-o dizer. Ele tem razão, pois age na certa; diverte o público: é seu propósito; gaba-se: é seu papel; faz a sua propaganda: é uma necessidade da posição. O médium sério, sabendo que não tem nenhum mérito pessoal no que faz, é modesto; não pode envaidecer-se do que não é produto de seu talento, nem prometer o que de si não depende.

Contudo, os médiuns fazem algo mais. Por seu intermédio os bons Espíritos inspiram a caridade e a benevolência para com todos; ensinam aos homens a se olharem como irmãos, sem distinção de castas nem de seitas; a perdoar aos que lhes dizem injúrias; a vencer as más inclinações; a suportar com paciência as misérias da vida; a olhar a morte sem medo, pela certeza da vida futura. Eles dão consolo aos aflitos, coragem aos fracos, esperança aos que não acreditavam, etc.

Eis o que não ensinam nem as mágicas dos prestidigitadores, nem as dos Srs. Davenport.

As condições inerentes à mediunidade não poderiam, assim, prestar-se à regularidade e à pontualidade, que são a condição indispensável das sessões a hora certa, onde, a qualquer preço, é preciso satisfazer o público. Se, entretanto, os Espíritos se prestassem a manifestações desse gênero, o que não seria radicalmente impossível, porquanto há Espíritos de todos os graus possíveis de adiantamento, eles não poderiam ser, em todo caso, senão Espíritos de baixa classe, porque seria soberanamente absurdo pensar que Espíritos, por pouco elevados que fossem, viessem divertir-se fazendo exibições. Mas, mesmo nesta hipótese, o médium não deixaria de estar à mercê de tais Espíritos, que pedem deixá-lo no momento em que sua presença fosse mais necessária e fazer falhar a representação ou a consulta. Ora, como antes de tudo é preciso contentar ao que paga, se os Espíritos não comparecerem, tratam de dispensá-los; com um pouco de habilidade é fácil fazer a mudança. É o que acontece muitas vezes a médiuns originariamente dotados de faculdades reais, mas insuficientes para o objetivo a que se propõem.

De todos os fenômenos espíritas, os que melhor se prestam à imitação são os efeitos físicos. Ora, se bem que as manifestações reais tenham um caráter distintivo e só se produzam em condições especiais bem determinadas, a imitação pode aproximá-las da realidade, a ponto de iludir as pessoas, sobretudo as que não conhecem as leis dos fenômenos verdadeiros. Mas pelo fato de poderem ser imitados, seria ilógico concluir que não existem, assim como ilógico seria pretender que não haja diamantes verdadeiros porque há diamantes artificiais.

Aqui não fazemos qualquer aplicação pessoal. Damos os princípios fundados na experiência e na razão, de onde tiramos esta consequência: que um exame escrupuloso, feito com perfeito conhecimento dos fenômenos espíritas, é o único que permite distinguir a trapaça da mediunidade real. E acrescentamos que a melhor de todas as garantias é o respeito e a consideração que se ligam à pessoa do médium, sua moralidade, sua notória honorabilidade, seu desinteresse absoluto, material e moral. Ninguém discordaria que em tais circunstâncias as qualidades do indivíduo não constituam um precedente que impressiona favoravelmente, porque afastam até a suspeita de fraude.

Não julgamos os Srs. Davenport, e longe de nós pôr em dúvida a sua honorabilidade. Mas, à parte as qualidades morais, das quais não temos nenhum motivo de suspeita, é preciso confessar que eles se apresentam em condições pouco favoráveis para atestar seu título de médiuns, e que é no mínimo com grande leviandade que certos críticos se apressaram em qualificá-los de apóstolos e sumo sacerdotes da Doutrina. O objetivo de sua viagem à Europa está claramente definido nesta passagem de sua biografia:

“Creio, sem cometer erro, que foi a 27 de agosto que os irmãos Davenport deixaram Nova Iorque, trazendo consigo, por causa de uma debilidade sobrevinda ao Sr. William Davenport, um ajudante na pessoa do Sr. William Fay, que não deve ser confundido com o Sr. H. Melleville Fay que, segundo não sei que gênero de autoridade, ao que se diz, foi descoberto no Canadá, tentando produzir manifestações semelhantes, ou pelo menos parecidas. Eles estavam acompanhados pelo Sr. Palmer, muito conhecido como empresário e agente de negócios no mundo dramático e lírico, e a quem, graças à sua experiência, foi confiada a parte material e econômica do empreendimento.”

Está, pois, constatado que foi um empreendimento conduzido por um empresário e agente de negócios dramáticos. Os fatos relatados na biografia estão, ao que nos disseram, nas possibilidades mediúnicas; a idade e as circunstâncias em que começaram a se manifestar afastam o pensamento de charlatanice. Tudo tende, pois, a provar que esses jovens eram realmente médiuns de efeitos físicos, como se encontram muitos em seu país, onde a exploração dessa faculdade tornou-se hábito e nada tem de chocante para a opinião pública. Se eles ampliaram as suas faculdades naturais, como o fizeram outros médiuns exploradores, para aumentar o seu prestígio e suprir a falta de flexibilidade dessas mesmas faculdades, é o que não afirmamos, pois não temos qualquer prova. Mas, admitindo a integridade dessas faculdades, diremos que se iludiram quanto ao acolhimento do público europeu, pois foram apresentadas sob a forma de espetáculo de curiosidade e em condições tão contrárias aos princípios do Espiritismo filosófico, moral e religioso. Os espíritas sinceros e esclarecidos, que aqui são numerosos, sobretudo na França, não podiam aclamá-los em tais condições, nem considerá-los como apóstolos, mesmo supondo uma perfeita sinceridade da parte deles. Quanto aos incrédulos, cujo número é tão grande e que ainda dominam na imprensa, a ocasião de exercer sua veia trocista era muito bela para que a deixassem escapar. Aqueles senhores ofereceram, assim, o flanco à mais larga crítica e lhes deram o direito que cada um compra na bilheteria de um espetáculo qualquer. Ninguém duvida que, se se tivessem apresentado em condições mais sérias, teriam tido outra acolhida; teriam fechado a boca dos detratores. Um médium é forte quando pode dizer corajosamente: “Quanto vos custou vir aqui, e quem vos obrigou a vir? Deus me deu uma faculdade que me pode retirar quando lhe aprouver, como me pode retirar a visão ou a palavra. Só a utilizo para o bem, no interesse da verdade e não para satisfazer a curiosidade ou servir aos meus interesses. Dela só recolho o trabalho do devotamento; nem mesmo procuro a satisfação do amor-próprio, porque ela não depende de mim. Considero-a como uma coisa santa, porque me põe em relação com o mundo espiritual e me permite dar a fé aos incrédulos e consolo aos aflitos. Eu consideraria como um sacrilégio traficar com ela, porque não me julgo com o direito de vender a assistência dos Espíritos, que vêm gratuitamente. Tendo em vista que dela não tiro qualquer proveito, não tenho nenhum interesse em vos enganar.” O médium que assim pode falar é forte, repetimo-lo. É uma resposta sem réplica e que sempre impõe respeito.

Nesta circunstância, a crítica foi mais que malévola; foi injusta e injuriosa e englobou na mesma reprovação todos os espíritas e todos os médiuns, aos quais não poupou os mais ultrajantes epítetos, sem pensar até que altura feria, e que atingia as mais respeitáveis famílias. Não repetiremos expressões que só desonram aos que as proferem. Todas as convicções sinceras são respeitáveis, e vós todos que incessantemente proclamais a liberdade de consciência como um direito natural, pelo menos respeitai-a nos outros. Discuti as opiniões, pois é um direito vosso, mas a injúria sempre foi o pior dos argumentos e jamais é o da boa causa.

Nem toda a imprensa é solidária com esses desvios do decoro; entre os críticos, em relação aos irmãos Davenport, uns há cujo caráter não exclui nem as conveniências nem a moderação, e que são justos. A que vamos citar ressalta precisamente o lado fraco de que falamos. É tirada do Courrier de Paris du Monde Illustré, de 16 de setembro de 1865, com a assinatura de Neuter.

“Uma primeira objeção parecia-me bastar para demonstrar que os bons rapazes que deram uma sessão pública na sala Hertz eram hábeis para os exercícios aos quais os mundos superiores ficavam completamente estranhos. Esta objeção eu a tiro da própria regularidade com que exploravam seu pretenso poder miraculoso. Como garantiam que eram Espíritos que vinha manifestar-se em público em seu proveito, e eis que os irmãos Davenport tratavam esses Espíritos, que afinal de contas não são seus empregados, com tanta liberdade quanto um diretor de teatro ditando regras às suas coristas! Sem perguntar aos seus comparsas sobre-humanos se o dia lhes convinha, se estavam fatigados, se o calor não os incomodava, eles marcavam para uma data fixa, para um hora determinada, e era preciso que os seres fluídicos não se indispusessem naquela data, entrassem em cena naquela hora, executassem sua brincadeiras musicais com a precisão de um músico a quem o seu café concerto concede um cachê de um franco!

“Francamente, era fazer do mundo espírita uma ideia muito mesquinha, no-lo apresentar assim como povoado de gênios comandados, de duendes comissários que iam à cidade a um sinal do patrão. Ora! Jamais um descanso para esses figurantes supra-terrestres! Quando a fluxão do mais humilde cabotino lhe dá o direito de mudar o espetáculo, as almas do bando Davenport eram escravos a quem era interdito tirar um instante de folga. É bem duro morar em planetas fantásticos para ficar reduzido a esse grau de escravidão.

“E para que tarefa convocavam essas infelizes almas de além-túmulo! Para fazer passar suas mãos ─ mãos de almas!!! ─ através das fendas de um armário! Para rebaixá-las até a exibições de saltimbancos! Para obrigá-las a brincar com violões, esses instrumentos grotescos que nem mais querem os trovadores que arrulham nos pátios, de olho em moedas de cinco centavos!...”

Com efeito, não é pôr o dedo na ferida? Se o Sr. Neuter tivesse sabido que o Espiritismo diz precisamente a mesma coisa, embora de maneira menos espirituosa, ele não teria dito: “Mas isto não é Espiritismo!” absolutamente como, ao ver um charlatão, diz: “Isto não é medicina.” Ora, assim como nem a Ciência nem a Religião são solidárias com os que delas abusam, também o Espiritismo não o é com aqueles que lhe tomam o nome. A má impressão do autor vem, pois, não da pessoa dos irmãos Davenport, mas das condições nas quais se colocam perante o público e da ideia ridícula que dão do mundo espiritual as experiências feitas em tais condições, que a própria incredulidade fica chocada por ver explorar e arrastar sobre o tablado. Esta foi a impressão da crítica em geral, que a traduziu em termos mais ou menos polidos. Ela será a mesma sempre que os médiuns não estiverem em condições de natureza a fazer respeitar a crença que professam.

O revés dos irmãos Davenport é uma sorte para os adversários do Espiritismo, que entretanto se afobam para cantar vitória e ridicularizam como podem os seus adeptos, gritando-lhes que ele está mortalmente ferido, como se o Espiritismo estivesse encarnado nos irmãos Davenport. O Espiritismo não está encarnado em ninguém; está na Natureza, e não cabe a ninguém deter-lhe a marcha, porque os que tentam fazê-lo trabalham pelo seu avanço. O Espiritismo não consiste em se fazer amarrar por cordas, nem nesta ou naquela experiência física. Jamais tendo tomado esses senhores sob o seu patrocínio e jamais os tendo apresentado como colunas da Doutrina, que eles nem mesmo conhecem, não recebe nenhum desmentido de sua desventura. Seu fracasso não é um revés para o Espiritismo, mas para os exploradores do Espiritismo.

De duas uma: ou são hábeis prestidigitadores, ou são verdadeiros médiuns. Se são charlatães, devemos ser gratos a todos os que ajudam a desmascará-los; a tal respeito, devemos agradecimentos especiais ao Sr. Robin, porque no caso presta um grande serviço ao Espiritismo, que só poderia ter sofrido caso houvessem acreditado em suas fraudes. Todas as vezes que a imprensa assinalou abusos, explorações ou manobras de natureza a comprometer a Doutrina, os Espíritos sinceros, longe de se lamentarem por isto, aplaudiram. Se são médiuns verdadeiros, as condições em que se apresentam, sendo de natureza a produzir uma impressão desfavorável, não podem servir utilmente à causa. Num caso como no outro, o Espiritismo não tem nenhum interesse em tomar partido a seu favor.

Agora, qual será o resultado de todo este barulho? Ei-lo:

A crônica, que nestes dias de calor tropical passava fome, com isto ganha um assunto que se apressa em segurar, para encher suas colunas carentes de casos políticos e de notícias teatrais ou de salões.

O Sr. Robin aí encontra, para o seu teatro de prestidigitação, uma excelente publicidade que ele explorou com muita habilidade, que lhe desejamos seja muito fecunda, porque todos os dias ele aí fala dos espíritas e do Espiritismo.

Com isto a crítica perde um pouco de consideração, pela excentricidade e pela incivilidade de sua polêmica.

Falando materialmente, talvez os menos beneficiados sejam os Srs. Davenport, cuja especulação se acha singularmente comprometida.

Quanto ao Espiritismo, evidentemente é ele que mais lucrará. Seus adeptos o compreendem tão bem que absolutamente não se emocionam com o que se passa e esperam o resultado com confiança. No interior, onde são, ainda mais que do em Paris, vítimas das troças dos adversários, eles se contentam em lhes responder:

Esperai, e em pouco tempo vereis quem estará morto e enterrado.

Com isto, a princípio o Espiritismo ganhará uma imensa popularidade e tornarse-á conhecido, pelo menos de nome, por uma multidão que dele não tinha ouvido falar. Mas, entre esses, muitos não se contentam com o nome. Sua curiosidade é excitada pelo ardor dos ataques; querem saber o que há com essa doutrina, que dizem tão ridícula; irão à fonte, e quando virem que apenas lhe deram uma paródia, dirão, de si para si, que ela não é uma coisa tão má. Assim, pois, o Espiritismo ganhará por ser melhor compreendido, melhor julgado e melhor apreciado.

Ainda ganhará pondo em evidência os adeptos sinceros e devotados com os quais se pode contar, e distingui-los dos adeptos de nome, que não tomam da doutrina senão as aparências ou a superfície. Seus adversários não deixarão de explorar a circunstância para suscitar divisões ou defecções reais ou simuladas, com cuja ajuda esperam arruinar o Espiritismo. Depois de haverem fracassado por todos os outros meios, aí está a sua suprema e última saída, mas que não lhes dará melhor êxito, porque não destacarão do tronco senão os galhos mortos, que não produziam nenhuma seiva, e o tronco, privado dos ramos parasitas, será revigorado.

Estes resultados, e vários outros que nos abstemos de enumerar, são inevitáveis, e não nos surpreenderíamos de saber que foram os bons Espíritos que provocaram todo esse reboliço para atingirem esse objetivo mais prontamente.



[1] Vide boletim bibliográfico




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