Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Começa a acalmar-se a agitação causada pelos irmãos Davenport. Após a bordoada lançada pela imprensa contra eles e o Espiritismo, restam apenas alguns atiradores que, aqui e ali, queimam os últimos cartuchos, à espera de outro assunto que venha alimentar a curiosidade pública. De quem foi a vitória? O Espiritismo está morto? É o que não tardarão a saber. Suponhamos que a crítica tivesse matado os Srs. Davenport, o que não é de nossa conta. O que teria resultado? O que dissemos no artigo precedente. Em sua ignorância do que é o Espiritismo, ela atirou naqueles senhores, exatamente como um caçador que atira num gato pensando atirar numa lebre: o gato morreu, mas a lebre continua correndo.

Assim acontece com o Espiritismo, que não foi nem podia ser atingido pelos golpes dão em seus flancos. Então a crítica enganou-se, o que teria evitado facilmente se tivesse observado a etiqueta. Entretanto não lhe faltaram avisos. Alguns escritores até confessaram a influência das refutações que lhes chegavam de todos os lados, e isto da parte das mais honradas pessoas. Isto não lhes deveria ter aberto os olhos? Mas não, eles se haviam metido por um caminho e não queriam recuar; era preciso ter razão a todo o custo. Muitas dessas refutações nos foram enviadas. Todas se distinguiam por uma moderação que contrasta com a linguagem dos nossos adversários e, na maior parte, são de perfeita justeza de apreciação. Certamente ninguém pretendeu impor a opinião àqueles senhores, mas constitui um dever da imparcialidade admitir as retificações para pôr o público em condições de julgar os prós e os contras. Ora, como é mais cômodo ter razão quando se fala sozinho, muito poucas dessas retificações viram a luz da publicidade. Quem sabe, até, se a maior parte delas foi lida? Então é preciso ser grato aos jornais que se mostraram menos exclusivos. Entre eles está o Journal des Pyrénées-Orientales que, em seu número de 8 de outubro, publica a seguinte carta:

“Perpignan, 5 de outubro de 1865.

“Senhor Gerente,

“Não me venho lançar na polêmica; apenas solicito vossa equidade de me permitir, uma vez única, responder aos vivos ataques contidos na carta parisiense, publicada no último número de vosso jornal, contra os espíritas e o Espiritismo.

“Como os verdadeiros católicos, os verdadeiros espíritas não dão espetáculo público. Eles estão penetrados do respeito de sua fé, aspiram ao progresso moral de todos, e sabem que não é no palco que fazem prosélitos.

“Eis o que concerne aos irmãos Davenport.

“Haveria muito a dizer para refutar os erros do autor desses ataques irônicos. Apenas direi que, tendo Deus dado o livre-arbítrio ao homem, atentar contra a sua liberdade de crer, de pensar, é colocar-se acima de Deus, por consequência um enorme pecado do orgulho.

“Dizer que esta nova ciência fez imensos progressos e que muitas cidades contam com grande número de adeptos; que têm suas sedes, seus presidentes, e que suas reuniões contêm homens cultos, eminentes por sua posição na sociedade civil e militar, na advocacia, na magistratura, não é confessar que o Espiritismo está baseado na verdade?

“Se o Espiritismo é apenas um erro, por que ocupar-se tanto com ele? O erro tem apenas uma duração efêmera, é um fogo-fátuo que dura algumas horas e desaparece. Se, ao contrário, é uma verdade, por mais que façais não podereis destruí-lo nem detê-lo. A verdade é como a luz: só os cegos lhe negam a beleza.

“Também dizem que o Espiritismo provocou casos de alienação mental. Direi isto: O Espiritismo não ocasionou a loucura, tanto quanto o Cristianismo ou os outros cultos não são responsáveis pelos casos de idiotia que se encontram muitas vezes entre os praticantes das diversas religiões. Os espíritos mal conformados estão sujeitos à exaltação e aos desarranjos. Deixemos, pois, de uma vez por todas, esse último argumento no arsenal com as armas fora de uso.

“Termino esta resposta dizendo que o Espiritismo nada vem destruir a não ser a crença nos castigos eternos. Ele nos fortalece na fé em Deus; torna evidente que a alma é imortal e que o Espírito se depura e progride pelas reencarnações; prova-nos que as diferentes posições sociais têm a sua razão de ser; ensina-nos a suportar nossas provações, sejam quais forem; enfim, demonstra-nos que um só caminho nos conduz a Deus: o amor ao bem, a caridade!

“Recebei, senhor Gerente, meus agradecimentos e minhas respeitosas saudações.

“Tenho a honra de ser o vosso servidor.

“Breux.”

Todas as refutações que temos sob os olhos, e que foram dirigidas aos jornais, protestam contra a confusão que fizeram entre o Espiritismo e as sessões dos Srs. Davenport. Se, pois, a crítica persiste em torná-los solidários, é porque ela o quer.


NOTA: Num artigo que por falta de espaço temos que adiar para o próximo número, examinaremos as mais importantes proposições que ressaltam da polêmica suscitada a propósito dos Srs. Davenport.

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