Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Um de nossos correspondentes escreve-nos o seguinte.

“Eis o que escrevi, há dois anos, ao Sr. Nefftzer, diretor do jornal le Temps:

“Eu era assinante de vosso jornal, cujas tendências e opiniões me eram simpáticas. Assim, é com pesar que cancelei minha assinatura. Permiti vos dê os motivos. Em vosso número de 3 de junho, vos esforçais em ridicularizar o Espiritismo e os espíritas, contando uma história mais ou menos autêntica, sem citar nomes nem data nem lugar, o que é cômodo. Procurais estabelecer, tema hoje obrigatório dos materialistas, incomodados enormemente pelo Espiritismo, que essa crença leva à loucura. Sem dúvida, espíritos fracos, já tendo tendências para um desarranjo das faculdades cerebrais, de fato perderam a cabeça ao se ocuparem do Espiritismo, como lhes teria acontecido sem isto, e como acontece aos que se ocupam de Química, de Física ou de Astronomia, e mesmo a escritores que não acreditam em Espíritos. Também não nego que haja charlatães que exploram o Espiritismo, pois qual é a ciência que está livre do charlatanismo? Não temos charlatães literários, industriais, agrícolas, militares, políticos, sobretudo destes últimos? Mas concluir daí contra o Espiritismo em geral é pouco lógico e pouco sensato. Antes de lançar uma acusação dessa natureza, seria preciso, ao menos, conhecer a coisa de que se fala, mas essa muitas vezes é a menor preocupação de quem escreve. Cortam e decidem a torto e a direito, o que é mais cômodo do que aprofundar e compreender.

“Se já experimentardes grandes desgraças, vivas dores, crede-me, senhor, estudai o Espiritismo; somente nele encontrareis a consolação e as verdades que vos farão suportar vossas mágoas, vossos prejuízos e vossos desesperos, o que valerá mais que o suicídio. O que teríeis a oferecer-nos, melhor do que essa bela e consoladora filosofia cristã? O culto dos interesses materiais, do bezerro de ouro? É talvez o que convém ao temperamento da generalidade dos felizes de hoje, mas outra coisa é necessária para aqueles que não mais querem o fanatismo, a superstição, as práticas ridículas e grosseiras da Idade Média, o ateísmo, o panteísmo e a incredulidade sistemática dos séculos dezoito e dezenove. “Permiti-me, senhor, aconselhar-vos a ser mais prudente em vossas diatribes contra o Espiritismo, porque elas se dirigem hoje, só na França, a cerca de trezentas ou quatrocentas mil pessoas.

“BLANC DE LALÉSIE “Proprietário em Genouilly, perto de Joncy (Saône-et-Loire)”


“Os jornais nos informaram, há poucos dias, da morte do filho único do Sr. Nefftzer. Não sei se essa desgraça o terá feito lembrar-se de minha carta.

“Acabo de dirigir ao Sr. Émile Aucante, administrador do jornal Univers Illustré, a carta seguinte:

“Há dezoito meses sou assinante do Univers Illustré, e desde essa época, quase não há edições em que o vosso cronista, sob o pseudônimo de Gérôme, não tenha julgado útil ocupar sua pena com troças em todos os tons, sobre o Espiritismo e os espíritas. Até agora, esse divertimento, um pouco fastidioso por sua frequência, é muito inocente: o Espiritismo não vai mal por isto. Mas o Sr. Gérôme, sem dúvida percebendo que pouco se inquietam com suas piadas, muda de linguagem e, na edição de 7 de outubro, trata todos os espíritas, em massa, de idiotas. Da piada ele passa à injúria, e não teme insultar milhares de pessoas tão instruídas, tão esclarecidas e tão inteligentes quanto ele, porque elas creem ter uma alma imortal e pensam que essa alma, numa outra vida, será recompensada ou punida, conforme seus méritos ou deméritos. O Sr. Gérôme não tem tais preconceitos. Irra! Sem dúvida ele crê que come, bebe, reproduz sua espécie, nem mais nem menos que meu cachorro ou meu cavalo. Rendo-lhe meus cumprimentos!

“Se o Sr. Gérôme se dignasse receber um conselho, eu me permitiria convidá-lo a só falar de coisas que conhece e a calar-se em relação às que não conhece, ou, ao menos, estudá-las, o que seria fácil com sua alta e incontestável inteligência. Ele aprenderia coisas das quais não faz a menor ideia, como o fato de que o Espiritismo não é senão o Cristianismo desenvolvido, e que as manifestações dos Espíritos, que existiram em todos os tempos, nada acrescentam à doutrina, que não deixa de existir, com ou sem manifestações.

“Mas por que falo de Espíritos a um homem que só acredita no seu, e que talvez ignore se tem uma alma?! Enfim, que o Sr. Gérôme seja envolto na bandeira do materialismo, do panteísmo ou do paganismo ─ este último seria melhor, porque nele ao menos se acreditava na existência da alma e na vida futura ─ pouco importa! Mas que ele saiba, respeitando-se a si mesmo, respeitar a crença de seus leitores. É evidente que não me seria possível continuar dando meu dinheiro para me fazer insultar, e se essas injúrias devessem continuar, eu teria o pesar de deixar de ser vosso assinante...”

O Sr. Lalésie é modesto ao avaliar o número dos espíritas da França em trezentos ou quatrocentos mil. Teria podido dobrar a cifra sem exagero e ainda estaria muito abaixo dos cálculos do autor de uma brochura que pretendia pulverizar-nos e a elevava a 20 milhões. Aliás, um recenseamento exato dos espíritas é coisa impossível, porque eles não estão arregimentados, não formam uma corporação, nem uma filiação, nem uma congregação cujos membros são registrados e podem ser contados.

O Espiritismo é uma crença. Quem quer que creia na existência e na sobrevivência das almas e na possibilidade de relações entre os homens e o mundo espiritual, é espírita, e muitos o são intuitivamente, sem jamais terem ouvido falar de Espiritismo nem de médiuns. É-se espírita por convicção, como outros são incrédulos, por isto, absolutamente não é necessário fazer parte de uma sociedade, e a prova é que nem a milésima parte dos adeptos frequenta reuniões. Para fazer a sua contagem não há nenhum registro a consultar. Seria preciso fazer um inquérito junto a cada indivíduo e lhe perguntar o que pensa. Todos os dias, na conversa, descobrem-se pessoas simpáticas à ideia e que, por isto só, são espíritas, sem que haja necessidade de diploma ou de um ato público qualquer. Seu número cresce diariamente. O fato é constatado por nossos adversários, que reconhecem com pavor que esta crença invade todas as camadas da Sociedade, de alto a baixo da escala. É, pois, uma opinião que hoje deve ser levada em consideração, e que tem de particular que não é circunscrita a uma classe, nem a uma casta ou seita, nem a uma nação ou partido político. Ela tem representantes em toda parte, nas letras, nas artes, nas ciências, na medicina, na magistratura, no fórum, no exército, no comércio, etc.

Na França, o número de espíritas seguramente ultrapassa em muito o dos assinantes de todos os jornais de Paris. É evidente que eles constituem uma parte considerável desses assinantes. É, pois, a esses que lhes pagam que os senhores jornalistas dizem injúrias. Ora, como diz com razão o Sr. de Lalésie, não é agradável dar seu dinheiro para ser ridicularizado e injuriado. Por isso cortou a assinatura dos jornais onde se via maltratado em sua crença, e ninguém deixará de achar lógica sua maneira de agir.

Isto significa que para agradar aos espíritas os jornais devam adotar suas ideias? De modo algum. Todos os dias eles discutem opiniões que não compartilham, mas não injuriam os que as professam. Esses escritores não são judeus, no entanto não se permitem lançar o anátema e o desprezo sobre os judeus em geral, nem a submeter sua crença ao ridículo. Por que isto? Porque, dizem, há que respeitar a liberdade de consciência. Por que, então, não existiria essa liberdade para os espíritas? Não são eles cidadãos como todo mundo? Reclamam eles isenções e privilégios? Eles só pedem uma coisa: o direito de pensar como entenderem. Aqueles que inscrevem em sua bandeira: “Liberdade, igualdade, fraternidade” quereriam então criar na França uma classe de párias?

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