Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1865

Allan Kardec

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Jovem camponesa - Médium inconsciente

É um fato constatado pela experiência que os Espíritos agem sobre as pessoas mais alheias às ideias espíritas, malgrado seu. Já citamos vários exemplos nesta revista. Não conhecemos um único gênero de mediunidade que não se tenha revelado espontaneamente, mesmo o da escrita. Como aqueles que atribuem todas essas manifestações ao efeito da imaginação ou da charlatanice explicarão o fato seguinte?

A pequena aldeia de E..., no departamento de Aube, até os últimos tempos tinha sido muito favorecida, neste tempo de epidemia moral, por ser preservada do flagelo do Espiritismo. O próprio nome dessa obra satânica jamais havia ferido o ouvido de seus pacíficos habitantes, sem dúvida porque o cura do lugar não tinha decidido pregar contra. Mas quem conta sem seu hóspede conta duas vezes; ele não devia contar com a ausência dos Espíritos, que não precisam de licença. Eis o que aconteceu, há uns quatro meses.

Na aldeia há uma jovem de dezessete anos, quase iletrada, filha de um pobre e honesto cultivador e que, ela própria, vai diariamente trabalhar nos campos. Um dia, voltando à sua cabana, foi tomada de completa perturbação; depois, ela que não escrevia desde que saíra da escola, teve a ideia de escrever. Escrever o que? Não sabia nada, mas queria escrever. Uma outra ideia, não menos bizarra, lhe veio à mente, a de procurar um lápis, embora bem soubesse que não havia nenhum em sua cabana, não mais que a menor folha de papel.

Enquanto procurava se dar conta da incoerência de suas ideias e se esforçava por descartá-las, avistou na lareira um tição apagado; sentiu-se irresistivelmente atraída para apanhá-lo, depois guiada por uma força invisível para a parede caiada. De repente o braço ergueu-se maquinalmente e traçou na parede, em caracteres bem legíveis, esta frase: “Arranja papel e penas e deles te servirás para te corresponderes com os Espíritos.”

Coisa singular, embora jamais tivesse ouvido falar de manifestações de Espíritos, não ficou surpreendida com o que acabava de se passar. Deu conhecimento a seu pai, que falou com um de seus amigos, humilde camponês como ele, mas dotado de grande perspicácia. Esse amigo veio com prudência verificar o fato; depois, como um espírita experimentado, embora tão ignorante do assunto quanto a moça, ele fez perguntas ao Espírito que se tinha manifestado e que assina o nome de um general russo. Este último os convidou a se dirigirem aos espíritas de Troyes para obter instruções mais completas, o que fizeram. Desde então a moça é médium escrevente, e além disso obtém efeitos físicos muito notáveis. Formou-se um grupo espírita na aldeia, e eis como o Espiritismo vem, queiram ou não queiram, sem ser procurado.

A carta de nosso correspondente relatando este fato termina dizendo: “Não poderíamos dizer que quanto mais os trocistas se empenham em enganar a si próprios, tanto mais a Providência, como que para confundi-los, faz diariamente jorrarem as manifestações que desafiam todas as negações e todas a interpretações da incredulidade?”

A Sociedade de Paris recebeu, a respeito, a comunicação seguinte:

(Sociedade de Paris, 27 de novembro de 1865 – Médium Sr. Morin)

O poder de Deus é infinito e se serve de todos os meios para fazer triunfar uma doutrina que está em tudo. Passou-se aqui um duplo fenômeno cuja explicação tentarei dar-vos.

A jovem camponesa foi subitamente envolvida por um fluido poderoso que a levou a abandonar momentaneamente as suas ocupações diárias. Antes da manifestação do fenômeno, houve a preparação da paciente, que foi magnetizada e trazida, pela vontade do Espírito, a procurar um instrumento que sabia que não existia em sua casa. Quando se curvava na lareira, para retirar um carvão que devia substituir o lápis ausente, ela apenas executava um movimento que lhe era suscitado pelo Espírito. Não era o seu instinto nem a sua inteligência que agia, mas o próprio Espírito que se servia da jovem como de um instrumento adequado ao seu fluido. Até aí ela não era, a bem dizer, médium; só depois do primeiro aviso escrito por ela é que ela tornou-se realmente médium, e não foi mais dominada pelo Espírito que a forçava a agir. A partir desse momento, a mediunidade tornou-se semi-mecânica, isto é, ela sabia e compreendia o que escrevia, mas não teria podido explicá-lo verbalmente. Além disto, os efeitos físicos se mostraram com tal força, que toda ideia de charlatanice devia ser afastada. Nada tinha vindo demonstrar essa aptidão para os efeitos físicos, antes dos primeiros fenômenos. Se esses efeitos tivessem sido os primeiros a revelar a mediunidade, poderiam ter sido desnaturados pela superstição. O homem que, como um espírita consumado, fazia as perguntas ao Espírito era, ele próprio, conduzido por uma força da mesma natureza daquela que impelia o médium a escrever. Essa força, cuja origem ele não podia compreender, duplicava o seu poder evocador, unindo ao seu desejo de saber a lembrança das baladas supersticiosas que faziam falar e aparecer as almas dos mortos. Só um estudo sério dos princípios da Doutrina pode dar a compreender a esses novos adeptos o lado real, positivo e natural da coisa, afastando o que aí pudessem ver de sobrenatural e maravilhoso.

Eis, pois, os dois principais atores desses fatos, que malgrado seu, representaram o seu papel. No que se passou, eles serviram de instrumentos tanto mais poderosos quanto mais ignorantes e mais isentos de ideias preconcebidas.

Vedes, meus amigos, que tudo concorre para fazer resplandecer a luz, e que os mais iletrados podem dar lições aos mais sábios.

O GUIA DO MÉDIUM

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