Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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O nome do Espiritismo achou-se incidentalmente envolvido neste caso deplorável. Um dos acusados, o ervanário Joye, disse ter-se ocupado com o fato, e que interrogava os Espíritos. Isto prova que ele fosse espírita e que se possa algo inferir contra a Doutrina? Sem dúvida, os que querem desacreditá-la não deixarão de aí buscar um pretexto para acusação, mas, se as diatribes da malevolência até hoje não deram resultado, é que sempre foram falsas, como aqui é o caso. Para saber se o Espiritismo incorre numa responsabilidade qualquer nesta circunstância, o meio é muito simples; é inquirir-se, com boa-fé, não entre os adversários, mas na própria fonte, o que ele prescreve e o que ele condena. Não há nada secreto; seus ensinamentos estão à plena luz e cada um os pode controlar. Se, pois, os livros da Doutrina não encerram senão instruções de natureza a levar ao bem; se eles condenam de maneira explícita e formal todos os atos desse homem, as práticas a que ele se entregou, o papel ignóbil e ridículo que atribui aos Espíritos, é que ele não colheu as suas inspirações. Não há um homem imparcial que não concorde e não declare o Espiritismo fora de questão nesse episódio.

O Espiritismo só reconhece como adeptos aqueles que põem em prática os seus ensinamentos, isto é, que trabalham a sua própria melhora moral, porque é esse o sinal característico do verdadeiro espírita. Ele não é mais responsável pelos atos daqueles a quem agrada dizer-se espíritas, do que a verdadeira Ciência pelo charlatanismo dos escamoteadores que se intitulam professores de Física, e a sã religião pelos abusos cometidos em seu nome.

Diz a acusação, a propósito de Joye; “Foi encontrado em sua casa um registro que dá a ideia de seu caráter e de suas ocupações. Segundo ele, cada página teria sido escrita conforme o ditado dos Espíritos, e é cheio de ardentes suspiros por Jesus Cristo. Em cada página fala-se de Deus e os santos são invocados. Ao lado, por assim dizer, há notas que podem dar uma ideia das operações habituais do ervanário;

“Para espiritismo, 4,25 francos. ─ Doentes, 6 francos ─ Cartas, 2 francos ─

Malefícios, 10 francos ─ Exorcismos, 4 francos ─ Bagueta divinatória, 10 francos ─ Malefícios por tiragem da sorte, 60 francos” e muitas outras designações, entre as quais se encontram malefícios para náuseas, e que terminam por esta menção: “Em janeiro fiz 226 francos. Os outros meses foram menos frutuosos.”

Alguém já viu em obras da Doutrina Espírita a apologia de semelhantes práticas, bem como qualquer coisa que seja de natureza a provocá-las? Ao contrário, nelas não se vê que a Doutrina repudia toda solidariedade com a magia, a feitiçaria, as maquinações, os cartomantes, os adivinhos, os ledores do futuro, e todos os que fazem profissão do comércio com os Espíritos, pretendendo tê-los às suas ordens e a tanto por sessão?

Se Joye tivesse sido espírita, de início já teria olhado como uma profanação fazer intervirem os Espíritos em semelhantes circunstâncias. Ele teria sabido, além disso, que os Espíritos não estão às ordens de ninguém, e que eles não vêm nem em obediência a voz de comando, nem pela influência de qualquer sinal cabalístico; que os Espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra ou em outros mundos, nossos pais, nossos amigos, nossos contemporâneos ou nossos antepassados; que eles foram homens como nós, e que depois de nossa morte seremos Espíritos como eles; que os gnomos, duendes, trasgos, demônios, são criações de pura fantasia e só existem na imaginação; que os Espíritos são livres, mais livres que quando estavam encarnados, e que pretender submetê-los aos nossos caprichos e à nossa vontade, fazê-los agir e falar conforme nosso desejo, para o nosso divertimento ou por nosso interesse, é uma ideia quimérica; que eles vêm quando querem, da maneira que querem e a quem lhes convém; que o objetivo providencial das comunicações com os Espíritos é nossa instrução e nossa melhora moral, e não de ajudar-nos nas coisas materiais da vida, que podemos fazer ou encontrar por nós mesmos, e ainda menos de servir à cupidez; enfim, que, em razão de sua própria natureza e do respeito que devemos às almas dos que viveram, é tão irracional quanto imoral ter escritório de consulta e exibição dos Espíritos. Ignorar estas coisas é ignorar o á-bê-cê do Espiritismo, e quando a crítica o confunde com a cartomancia, a quiromancia, os exorcismos, as práticas de feitiçaria, os malefícios, os encantamentos, etc., ela prova que ignora todos os seus princípios. Ora, negar ou condenar uma doutrina que não se conhece, é faltar à lógica mais elementar; é emprestar-lhe ou fazê-la dizer precisamente o contrário do que ela diz; é calúnia ou parcialidade.

Considerando-se que Joye misturava em seus processos o nome de Deus, de Jesus e a invocação dos santos, também podia muito bem a eles misturar o nome do Espiritismo, o que não depõe mais contra a Doutrina do que o seu simulacro de devoção depõe contra a sã religião. Portanto, ele não era mais espírita porque interrogava supostos Espíritos do que as mulheres Lamberte e Dye eram verdadeiramente piedosas porque queimavam velas para a Boa-Mãe, Nossa Senhora da Guarda, para o êxito de seus envenenamentos. Ademais, se ele fosse espírita, nem mesmo lhe teria tido a ideia de servir para a perpetração do mal por intermédio de uma doutrina cuja primeira lei é o amor ao próximo, e que tem por divisa: Fora da caridade não há salvação. Se se imputasse ao Espiritismo a incitação a semelhantes atos, poder-se-ia, sob a mesma justificativa, responsabilizar a religião.

A propósito, eis algumas reflexões da Opinion Nationale de 8 de dezembro:



O jornal Monde acusa o Siècle, os maus jornais, as más reuniões, os maus livros, de cumplicidade no caso das envenenadoras de Marselha.

“Lemos com dolorosa curiosidade os debates desse estranho caso, mas não vimos em parte alguma que o feiticeiro Joye ou a feiticeira Lamberte tenham sido assinantes do Siècle, do Avenir ou da Opinion. Um só jornal foi encontrado na casa de Joye; era um número do Diable, journal de l‘enfer. As viúvas que figuram nesse amável processo estão muito longe de ser livres-pensadoras. Elas acendem velas à boa Virgem, para obter de Nossa Senhora a graça de envenenar tranquilamente os seus maridos. Encontra-se nesse negócio toda a velha bagagem da Idade Média: ossos de defuntos colhidos no cemitério, disfarces que não passam de feitiços do tempo da rainha Margot. Todas essas senhoras foram educadas, não nas escolas Elisa Lemonnier, mas entre as boas irmãs. Juntai às superstições católicas as superstições modernas, espiritismo e outras charlatanices. Foi o absurdo que conduziu essas senhoras ao crime. É assim que na Espanha, perto da foz do Ebro, vê-se na montanha uma capela dedicada a Nossa Senhora dos Ladrões.

“Semeai a superstição e colhereis o crime. Por isto pedimos que se semeie a ciência. ‘Esclarecei a cabeça do povo, disse Victor Hugo, e não tereis mais necessidade de cortá-la’.

“J. Labbé.”

O argumento de que os acusados não eram assinantes de certos jornais não tem valor, pois se sabe que não é preciso ser assinante de um jornal para lê-lo, sobretudo nessa classe de indivíduos.

O Opinion Nationale poderia, pois, achar-se nas mãos de alguns dentre eles, sem que se pudesse nada concluir contra o jornal. O que teria ele dito se Joye tivesse pretendido ter-se inspirado nas doutrinas dessa folha? Teria respondido: Lede-a, e vede se nela encontrais uma única palavra própria a excitar as más paixões. O padre Verger certamente tinha o Evangelho em casa; ademais, por sua condição, ele devia estudá-lo. Pode-se dizer que foi o Evangelho que o impeliu a assassinar o Arcebispo de Paris? Foi o Evangelho que armou o braço de Ravaillac e o de Jacques Clément? Quem acendeu as fogueiras da Inquisição? E contudo, foi em nome do Evangelho que todos esses crimes foram cometidos.

Diz o autor do artigo: “Semeai a superstição e colhereis o crime.” Ele tem razão, mas o que está errado é confundir o abuso de uma coisa com a própria coisa. Se quiséssemos suprimir tudo aquilo de que se pode abusar, muito pouco escaparia à proscrição, sem excetuar a imprensa. Certos reformadores assemelham-se aos homens que desejam cortar uma boa árvore porque tem alguns frutos bichados.

Ele acrescenta: “É por isto que pedimos que se semeie a Ciência.” Ele ainda tem razão, porque a Ciência é um elemento de progresso, mas ela basta para a moralização completa? Não se veem homens porem o seu saber a serviço de suas más paixões? Lapommeraie não era um homem instruído, um médico diplomado, desfrutando um certo crédito e, ademais, um homem da Sociedade? Dava-se o mesmo com Castaing e tantos outros. Pode-se, pois, abusar da Ciência. Há que se concluir daí que a Ciência é coisa má? E porque um médico falhou, a falta deve estender-se sobre todo o corpo médico? Por que, pois, imputar ao Espiritismo a de um homem a quem aprouve dizer-se espírita e não era? A primeira coisa, antes de lançar um argumento qualquer, era inquirir se ele teria encontrado na Doutrina Espírita máximas de natureza a justificar os seus atos. Por que a Ciência Médica não é solidária com o crime de Lapommeraie? Porque ele não colheu nos princípios dessa Ciência a iniciação ao crime. Ele empregou para o mal os recursos que ela fornece para o bem. Entretanto, ele era mais médico do que Joye era espírita. É o caso de aplicar o ditado: “Quando se quer matar seu cão, diz-se que está com raiva.”

A instrução é indispensável, ninguém o contesta, mas sem a moralização, não é senão um instrumento muitas vezes improdutivo para aquele que não sabe regular o seu uso para o bem. Instruir as massas sem moralizá-las é pôr em suas mãos uma ferramenta sem ensinar a utilizá-la, porque a moralização que se dirige ao coração não segue necessariamente a instrução que só se dirige à inteligência. Aí está a experiência para prová-lo. Mas como moralizar as massas? É o de que menos se ocuparam, e não será certamente nutrindo-as com a ideia de que não há Deus, nem alma, nem esperança, porque nem todos os sofismas do mundo demonstrarão que o homem que crê que para ele tudo começa e acaba com o corpo tenha mais fortes razões para esforçar-se por se melhorar, do que aquele que compreende a solidariedade que existe entre o passado, o presente e o futuro. Entretanto, é essa crença no niilismo que uma certa escola de supostos reformadores pretende impor à Humanidade como o elemento por excelência do progresso moral.

Citando Victor Hugo, o autor esquece, ou melhor, nem mesmo imagina que este tenha muitas vezes afirmado sua crença nos princípios espíritas fundamentais. É verdade que não é Espiritismo à maneira de Joye, mas quando não se sabe, é fácil confundir-se.

Por mais lamentável que seja o abuso que foi feito do nome do Espiritismo neste assunto, nenhum espírita se abalou com o que pudesse resultar para a Doutrina. É que, com efeito, sendo sua moral inatacável, ela não podia ser atingida. A experiência prova, ao contrário, que não há uma só das circunstâncias que envolveram o nome do Espiritismo que não tenha sido em seu proveito, aumentando-lhe o número de adeptos, porque o exame que a repercussão provoca só lhe pode ser vantajoso. É de notar, não obstante, que neste caso, com poucas exceções, a imprensa se absteve de qualquer comentário a respeito do Espiritismo. Há alguns anos ela teria aberto colunas por dois meses e não teria deixado de apresentar Joye como um dos grandes sacerdotes da Doutrina. Igualmente pudemos notar que nem o presidente da Corte, nem o procurador geral, no seu requisitório, insistiram sobre essa circunstância e dela não tiraram qualquer indução. Só o advogado de Joye fez seu papel de defensor como pôde.

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