Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

Voltar ao Menu
Extraído de Minhas Prisões, por Sílvio Pellico, Cap. XLV e XLVI.

“Semelhante estado era uma verdadeira doença. Não sei se devo dizer uma espécie de sonambulismo. Parecia-me que havia em mim dois homens: um que queria escrever continuadamente, outro que queria fazer outra coisa...

“Durante essas noites horríveis, por vezes minha imaginação se exaltava a tal ponto que, bem desperto, me parecia ouvir, em minha prisão, ora gemidos, ora risos abafados. Desde a infância jamais tinha acreditado em feiticeiros nem em Espíritos, e agora esses gemidos e esses risos me espantavam. Eu não sabia como explicá-los; era forçado a duvidar se eu não era joguete de alguma força desconhecida e malfazeja.

“Várias vezes, trêmulo, tomei da luz e verifiquei se alguém não estaria escondido debaixo da cama para se divertir comigo. Quando estava à mesa, ora me parecia que alguém me puxava pela roupa, ora que mexiam num livro que caía no chão, ora também pensava que uma pessoa, atrás de mim, soprava para apagar a luz. Então, erguendo-me precipitadamente, eu olhava em meu redor; andava desconfiado e perguntava para mim mesmo se eu estava louco ou em plena razão, porque, em meio a tudo quanto experimentava, eu não sabia mais distinguir a realidade da ilusão, e exclamava com angústia; Deus meus, Deus meus, ut quid dereliquisti me?

“Uma vez, havendo me deitado antes da aurora, estava certo de haver posto o lenço debaixo do travesseiro. Depois de um momento de apatia, despertei como de costume e pareceu-me que me estrangulavam. Senti meu pescoço bem apertado. Coisa estranha! Ele estava envolto no meu lenço, fortemente amarrado por vários nós! Eu teria jurado não haver dado esses nós, nem mesmo haver tocado no lenço desde que o pusera sob o travesseiro. Era preciso que o tivesse feito sonhando ou num acesso de delírio, sem guardar a mínima lembrança. Mas eu não podia crê-lo, e, a partir de então, todas as noites temia ser estrangulado.”

Se alguns destes fatos podem ser atribuídos a uma imaginação superexcitada pelo sofrimento, outros há que realmente parecem provocados por agentes invisíveis, e não se deve esquecer que Sílvio Pellico não acreditava nisso. Essa causa não lhe podia vir à mente e, na impossibilidade de entendê-la, o que se passava à sua volta enchia-o de terror. Hoje que seu Espírito está desprendido do véu da matéria, ele percebe as causas, não só desses fatos, mas das diversas peripécias de sua vida; ele reconhece como justo o que antes lhe parecia injusto. Deu a sua explicação na comunicação seguinte, solicitada a propósito.

(Sociedade de Paris, 18 de outubro de 1867.)


Como é grande e poderoso esse Deus que os humanos apequenam sem cessar querendo defini-lo, e como as mesquinhas paixões que lhe atribuímos para compreendê-lo são uma prova de nossa fraqueza e de nosso pouco adiantamento! Um Deus vingador! Um Deus juiz! Um Deus carrasco! Não, tudo isto só existe na imaginação humana, incapaz de compreender o infinito. Que louca temeridade querer definir Deus! Ele é o incompreensível e o indefinível, e nós só podemos inclinar-nos sob sua mão poderosa, sem procurar compreender e analisar sua natureza. Os fatos aí estão para provar que ele existe! Estudemos os fatos e, por meio deles, remontemos de causa em causa tão longe quanto possamos ir, mas não nos lancemos à causa das causas senão quando possuirmos inteiramente as causas secundárias e quando compreendermos todos os efeitos!...

Sim, as leis do Eterno são imutáveis! Hoje elas ferem o culpado, como sempre o feriram, conforme a natureza das faltas cometidas e proporcionalmente a essas faltas. Elas ferem de maneira inexorável, e são seguidas de consequências morais, não fatais, mas inevitáveis. A pena de talião é um fato e a palavra da antiga lei: “Olho por olho, dente por dente”, cumpre-se em todo o seu rigor. Não só o orgulhoso é humilhado, mas ele é ferido em seu orgulho da mesma maneira que feriu os outros. O juiz iníquo se vê condenar injustamente; o déspota torna-se oprimido!

Sim, eu governei os homens. Fi-los dobrar-se sob um jugo de ferro; eu os feri em suas afeições e em sua liberdade, e mais tarde, por minha vez, tive que me dobrar ao opressor; fui privado de minhas afeições e de minha liberdade!

Mas como o opressor da véspera pode tornar-se o liberal de amanhã? A coisa é das mais simples e a observação dos fatos que se passam aos vossos olhos deveria vos dar a chave. Não vedes, no curso de uma só existência, uma mesma personalidade, alternadamente dominadora e dominada? E não acontece que, se ela governa despoticamente no primeiro caso, é, no segundo, uma das que mais energicamente lutam contra o despotismo?

A mesma coisa acontece de uma existência a outra. Isto não é uma regra sem exceção, mas geralmente os que são, em aparência, os mais convictos liberais, foram outrora os mais ardentes partidários do poder, e isto se compreende, porque é lógico que os que longamente estavam habituados a reinar sem contestação e a satisfazer sem entraves os seus menores caprichos, sejam os que mais sofram a opressão, e os mais ardentes para sacudir o jugo.

O despotismo e os seus excessos, por uma consequência admirável das leis de Deus, arrastam necessariamente aqueles que os exercem a um amor imoderado da liberdade, e esses dois excessos, gastando-se reciprocamente, trazem inevitavelmente a calma e a moderação.

Tais são, a propósito do desejo que exprimistes, as explicações que creio útil vos dar. Ficarei feliz se elas forem de natureza a vos satisfazer.

SILVIO PELLICO.

TEXTOS RELACIONADOS

Mostrar itens relacionados
Aguarde, carregando...