Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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Apreciação do Jornal La Solidarite [1]

O jornal La Solidarité de 15 de janeiro de 1869 analisa a estatística do Espiritismo, que publicamos no nosso número precedente; se critica algumas de suas cifras, sentimo-nos feliz por sua adesão ao conjunto do trabalho, que aprecia nestes termos:

“Lamentamos não poder reproduzir, por falta de espaço, as reflexões muito sábias que o Sr. Allan Kardec acrescenta a essa estatística. Limitar-nos-emos a constatar com ele que há espíritas em todos os graus da escala social; que a grande maioria dos espíritas se acha entre pessoas esclarecidas e não entre os ignorantes; que o Espiritismo se propagou por toda parte, de alto a baixo na escala social; que a aflição e a infelicidade são os grandes recrutadores do Espiritismo, em consequência das consolações e das esperanças que ele dá aos que choram e lamentam; que o Espiritismo encontra mais fácil acesso entre os incrédulos em matéria religiosa que entre as pessoas que têm uma fé fixa; enfim, que, depois dos fanáticos, os mais refratários às ideias espíritas são as criaturas cujos pensamentos estão todos concentrados na posse e nos prazeres materiais, seja qual for a sua condição.”

É um fato de capital importância e que se constata por toda parte, que “a grande maioria dos espíritas se acha entre pessoas esclarecidas e não entre os ignorantes”. Em face deste fato material, como fica a acusação de estupidez, ignorância, loucura, inépcia, lançada tão esturdiamente contra os espíritas pela malevolência?

Propagando-se de alto a baixo da escala, o Espiritismo prova, além disso, que as classes favorecidas compreendem a influência moralizadora sobre as massas, porquanto elas se esforçam por nele penetrar. É que, com efeito, os exemplos que se tem sob os olhos, embora parciais e ainda isolados, demonstram de maneira peremptória que o espírito do proletariado seria muito outro se estivesse imbuído dos princípios da Doutrina Espírita.

A principal objeção do Solidarité, e ela é muito séria, refere-se ao número de espíritas do mundo inteiro. Eis o que ele diz a esse respeito:

“Engana-se muito a Revista Espírita quando estima em apenas seis ou sete milhões o número de espíritas para o mundo inteiro. Evidentemente ela se esquece de contar a Ásia.

“Se pelo termo espírita entendem-se as pessoas que creem na vida de alémtúmulo e nas relações dos vivos com a alma das pessoas mortas, há que contá-los por centenas de milhões. A crença nos Espíritos existe em todos os seguidores do budismo, e pode-se dizer que ela constitui o fundo de todas as religiões do extremo Oriente. Ela é geral sobretudo na China. As três antigas seitas que desde tanto tempo dividem as populações no Médio Império, creem nos manes, nos Espíritos, e professam o seu culto. ─ Pode-se mesmo dizer que este é para elas um terreno comum. Os adoradores do Tao e de Fo aí se encontram com os seguidores do filósofo Confúcio.

“Os sacerdotes da seita de Lao-Tseu, e particularmente os Tao-Tse, ou doutores da Razão, devem às práticas espíritas uma grande parte de sua influência sobre as populações. Esses religiosos interrogam os Espíritos e obtêm respostas escritas que não têm mais nem menos valor que as dos nossos médiuns. São conselhos e avisos considerados como dados aos vivos pelo Espírito de um morto. Aí se encontram revelações de segredos unicamente conhecidos por quem interroga, algumas vezes predições que se realizam ou não, mas que são de natureza a chocar os assistentes e estimular muito os seus desejos, para que se encarreguem de realizar, eles próprios, o oráculo.

“Essa correspondência é obtida por processos que não diferem muito dos processos dos nossos espíritas, mas que, entretanto, devem ser mais aperfeiçoados, se considerarmos a longa experiência dos operadores que os praticam tradicionalmente.

“Eis como nos são descritos por uma testemunha ocular, o Sr. D..., que mora na China há muito tempo e se familiarizou com a língua do país.

“Uma vara de pescar de 50 a 60 centímetros é sustentada pelas extremidades por duas pessoas, das quais uma é o médium e a outra o interrogante. No meio dessa haste é lacrada ou amarrada uma pequena bagueta da mesma madeira, muito parecida com um lápis, pelo tamanho e grossura. Abaixo desse pequeno aparelho é espalhada uma camada de areia, ou uma caixa com milho miúdo. Deslizando maquinalmente sobre a areia ou o milho, a bagueta traça caracteres. À medida que se formam, esses caracteres são lidos e reproduzidos imediatamente num papel, por um letrado presente à sessão. Daí resultam frases e escritos mais ou menos longos, mais ou menos interessantes, mas tendo sempre um valor lógico.

“Se se acredita nos Tao-Tse, esses processos vêm do próprio Lao-Tseu. Ora, se, segundo a História, Lao-Tseu viveu no sexto século antes de Jesus Cristo, é bom lembrar que, conforme a lenda, ele é como o Verbo dos cristãos, anterior ao começo e contemporâneo da grande não-entidade, como se exprimem os doutores da Razão.

“Vê-se que o Espiritismo remonta a uma belíssima antiguidade.

“Isto não prova que ele é verdadeiro? ─ Não, sem dúvida, mas se basta que uma crença seja antiga para ser venerável, e ser forte pelo número de seus partidários para ser respeitada, não conheço outra que tenha mais títulos ao respeito e à veneração dos meus contemporâneos.”

Desnecessário dizer que aderimos completamente a essa retificação, e nos sentimos feliz que ela emane de uma fonte estranha, porque isto prova que não procuramos carregar as tintas do quadro. Nossos leitores apreciarão, como nós, a maneira pela qual esse jornal, que se recomenda por seu caráter sério, encara o Espiritismo. Vê-se que, de sua parte, é uma apreciação que tem fundamento. Sabíamos que as ideias espíritas estão muito espalhadas nos povos do extremo Oriente, e se não as tínhamos feito entrar nas estatísticas, é que, em nossa avaliação, não nos propusemos apresentar, conforme dissemos, senão o movimento do Espiritismo moderno, reservando-nos para fazer mais tarde um estudo especial sobre a anterioridade dessas ideias. Agradecemos muito sinceramente ao autor do artigo por nos haver precedido.

Em outro momento ele diz:

“Cremos que esta incerteza (sobre o número real dos espíritas, sobretudo na França) inicialmente se deve à ausência de declarações positivas por parte dos adeptos; depois ao estado flutuante das crenças. Existe ─ e poderíamos citar em Paris numerosos exemplos ─ uma multidão de pessoas que creem no Espiritismo e que não se gabam disso.”

Isto é perfeitamente justo; assim, só falamos dos espíritas de fato, porquanto, como dissemos, se considerássemos os espíritas por intuição, somente na França eles se contariam por milhões, mas preferimos ficar abaixo e não acima da verdade, para não sermos tachados de exagero. Contudo, é preciso que o acréscimo seja muito sensível, para que certos adversários o tenham levado a cifras hiperbólicas, como o autor da brochura Le Budget du Spiritisme, que vendo sem dúvida os espíritas com lente de aumento, em 1863 os avaliava em vinte milhões apenas na França. (Revista Espírita de junho de 1863).

A propósito da proporção dos sábios oficiais, na categoria do grau de instrução, diz o autor: “Gostaríamos muito de ver a olho nu esses 4% de sábios oficiais; 40.000 para a Europa e 24.000 só para a França. São muitos sábios, e ainda oficiais. 6% de iletrados não é nada.”

A crítica seria fundada se, como supõe o autor, se tratasse de 4% sobre o número aproximado de 600.000 espíritas na França, o que, efetivamente, faria 24.000. Com efeito seria muito, pois se teria dificuldade em encontrar essa cifra de sábios oficiais em toda a população da França. Em tal base, o cálculo evidentemente seria ridículo e o mesmo poder-se-ia dizer dos iletrados. Essa avaliação, portanto, não tem o objetivo de estabelecer o número efetivo dos sábios oficiais espíritas, mas a proporção relativa em que se encontram em relação aos diversos graus de instrução, entre os quais eles estão em minoria. Em outras categorias limitamo-nos a uma simples classificação, sem avaliação numérica em porcentagem. Quando empregamos este último processo, foi para tornar mais evidente a proporção.

Para melhor definir o nosso pensamento, diremos que por sábios oficiais não entendemos todos aqueles cujo saber é constatado por um diploma, mas unicamente os que ocupam posição oficial, como membros de Academias, professores de Faculdades, etc., que assim se acham em mais evidência, e cujos nomes, por esse motivo, os fazem autoridades nas ciências. Sob este ponto de vista, um doutor em Medicina pode ser muito sábio, sem ser um sábio oficial.

A posição oficial influi muito sobre a maneira de encarar certas coisas. Como prova disto citaremos o exemplo de um distinto médico falecido há vários anos, que conhecemos pessoalmente. Ele era, então, grande partidário do Magnetismo, sobre o qual havia escrito, e foi isto que nos pôs em contato com ele. Aumentando a sua reputação, ele conquistou sucessivamente várias posições oficiais. À medida que subia, baixava seu fervor pelo Magnetismo, tanto que, ao chegar ao topo da escala, ele caiu abaixo de zero, pois renegou abertamente suas antigas convicções. Considerações da mesma natureza podem explicar a posição de certas classes no que concerne ao Espiritismo.

As categorias dos aflitos, das criaturas sem inquietude, dos felizes do mundo, dos sensualistas, fornecem ao autor do artigo a seguinte reflexão:

“É pena que isto seja pura fantasia. Nada de sensualistas, compreende-se; Espiritismo e materialismo se excluem. Sessenta aflitos em cem espíritas ainda se compreende. É para estes que choram que as relações com um mundo melhor são preciosas. Mas trinta pessoas sem inquietude em cem, é demais! Se o Espiritismo operasse tais milagres, faria muitas outras conquistas. Fá-las-ia sobretudo entre os felizes do mundo, que são também, quase sempre, os mais inquietos e os mais atormentados.”

Há aqui um erro manifesto, pois pareceria que esse resultado é devido ao Espiritismo, ao passo que é ele que colhe, nessas categorias, mais ou menos adeptos, conforme as predisposições que aí encontra. Estas cifras significam apenas que ele encontra mais adeptos entre os aflitos; um pouco menos entre as pessoas sem inquietude, mas ainda menos entre os felizes do mundo, e nenhum entre os sensualistas.

Inicialmente é preciso entender-se quanto às palavras. Materialismo e sensualismo não são sinônimos e nem sempre caminham lado a lado, pois se veem pessoas, espiritualistas por profissão e por dever, que são muito sensuais, ao passo que há materialistas muito moderados em sua maneira de viver. O materialismo muitas vezes não é para eles senão uma opinião que abraçaram em falta de outra mais racional. Eis por que, quando reconhecem que o Espiritismo enche o vazio feito em sua consciência pela incredulidade, aceitam-no felizes. Ao contrário, os sensualistas são os mais refratários.

Uma coisa muito bizarra é que o Espiritismo encontra mais resistência entre os panteístas em geral do que entre os que são francamente materialistas. Sem dúvida isto é devido a que o panteísta quase sempre cria um sistema, possui algo, ao passo que o materialista nada tem, e esse vazio o inquieta.

Por felizes do mundo entendemos os que passam como tais aos olhos da multidão, porque se podem permitir largamente todos os gozos da vida. É verdade que muitas vezes são eles os mais inquietos e os mais atormentados. Mas por quê? Pelas preocupações que lhes causam a fortuna e a ambição. Ao lado dessas preocupações incessantes, das ansiedades da perda ou do ganho, da confusão dos negócios para uns, dos prazeres para outros, resta-lhes muito pouco tempo para se ocupar com o futuro. Não podendo ter paz de alma senão com a condição de renunciar ao que constitui o objetivo de sua cobiça, o Espiritismo pouco os afeta, filosoficamente falando. Com exceção das penas do coração, que não poupam a ninguém, a não ser os egoístas, os tormentos da vida estão quase sempre, para aqueles, nas decepções da vaidade, do desejo de possuir, de brilhar, de mandar. Assim, pode-se dizer que eles se atormentam a si mesmos.

A calma, a tranquilidade, ao contrário, encontram-se mais particularmente nas posições modestas, quando assegurado o bem-estar da vida. Aí há muito pouca ou nenhuma ambição; contentam-se com o que têm, sem se atormentarem por enriquecer, correndo os riscos aleatórios da agiotagem ou da especulação. É a esses que denominamos sem inquietude, relativamente falando; por menor que seja a elevação de seu pensamento, de boa vontade eles se ocupam de coisas sérias; o Espiritismo lhes oferece um atraente assunto de meditação, e eles o aceitam mais facilmente do que aqueles a quem o turbilhão do mundo suscita uma febre contínua.

Tais são os motivos dessa classificação que, como se vê, não é tão fantasista quanto supõe o autor do artigo. Nós lhe agradecemos por nos ter fornecido ocasião de apontar erros que outros poderiam ter cometido, por não termos sido bastante explícito.

Em nossa estatística, omitimos duas funções importantes por sua natureza, e porque contam um número bastante grande de adeptos sinceros e devotados. São os prefeitos e os juízes de paz, que estão na quinta classe, com os meirinhos e os comissários de polícia.

Uma outra omissão, contra a qual reclamaram com justiça e que insistem para que a reparemos, é a dos poloneses, na categoria dos povos. Ela é perfeitamente fundada, porquanto o Espiritismo conta, nessa nação, numerosos e fervorosos adeptos, desde o início. Como classe, a Polônia vem em quinto lugar, entre a Rússia e a Alemanha.

Para completar a nomenclatura, teria sido preciso incluir outros países, como, por exemplo, a Holanda, que viria após a Inglaterra; Portugal, depois da Grécia; as Províncias danubianas, onde há muitos espíritas, mas sobre as quais não temos dados bastante positivos para lhes assinalar a classe. Quanto à Turquia, a quase totalidade dos adeptos é composta de franceses, italianos e gregos.

Uma classificação mais racional e mais exata do que pelas regiões territoriais, seria pelas raças ou nacionalidades, que não estão confinadas por limites circunscritos e levam a toda parte por onde se espalham, sua maior ou menor aptidão para assimilar as ideias espíritas. Deste ponto de vista, numa mesma região, por vezes, haveria que fazer diversas distinções.

A comunicação seguinte foi dada num grupo de Paris, a propósito da classe que ocupam os alfaiates entre as profissões industriais.

(Paris, 6 de janeiro de 1869. Grupo Desliens. Médium: Sr. Leymarie)

Criastes categorias, caro mestre, à frente das quais colocastes certas profissões. Sabeis o que, em nossa opinião, arrasta certas pessoas a se fazerem espíritas? São as mil perseguições que elas sofrem em suas profissões. Os primeiros de que falais devem ter ordem, economia, cuidado, gosto, ser um pouco artistas, e depois ainda ser pacientes, saber esperar, escutar, sorrir e saudar com certa elegância; mas, após todas essas pequenas convenções, mais sérias do que se pensa, ainda é preciso calcular, organizar seu caixa pelas dívidas e haveres, e sofrer, sofrer continuamente.

Em contato com homens de todas as classes, comentando os lamentos, as confidências, os enganos, os rostos falsos, eles aprendem muito! Levando essa vida múltipla, sua inteligência se abre por comparação; seu espírito se fortalece pela decepção e pelo sofrimento, e eis por que certas corporações compreendem e aplaudem todos os progressos. Elas gostam do teatro francês, da bela arquitetura, do desenho, da Filosofia; amam a liberdade e todas as suas consequências. Sempre à frente e na mira do que consola e faz esperar, elas se dão ao Espiritismo, que para elas é uma força, uma promessa ardente, uma verdade que engrandece o sacrifício e, mais do que acreditais, a parte cotada como a nº 1 vive de sacrifícios.

SONNET.


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[1] La Solidarité sai duas vezes por mês. Preço; 10 francos por ano. Paris. Livraria das Ciências Sociais, Rua des Saint-Pères, 13.


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