Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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Numa cidadezinha da antiga Borgonha, que nos abstemos de citar, mas que, se necessário, poderíamos declinar, existe um pobre velho que a fé espírita sustenta em sua miséria, vivendo minguadamente da venda ambulante de bugigangas pelas localidades vizinhas. É um homem bom, compassivo, que presta serviços sempre que se oferece ocasião, e certamente acima de sua posição pela elevação de seus pensamentos. O Espiritismo lhe deu a fé em Deus e na imortalidade, a coragem e a resignação.

Um dia, num de seus giros, encontrou uma jovem viúva, mãe de várias crianças que, após a morte de seu marido que ela adorava, perdida de desespero e vendo-se sem recursos, perdeu a razão completamente. Atraído pela simpatia para essa grande dor, ele procurou ver essa mulher infeliz, a fim de julgar se o seu estado era irremediável. A miséria em que a encontrou redobrou sua compaixão. Entretanto, também ele pobre, só lhe podia dar consolo.

A um de nossos colegas da Sociedade de Paris que o conhecia e tinha ido vê-lo, disse ele:

“Eu a vi várias vezes; um dia eu lhe disse, em tom de persuasão, que aquele que ela lamentava não estava irremediavelmente perdido; que ele estava perto dela, embora ela não o visse, e que eu podia, se ela quisesse, fazê-lo conversar com ela. A estas palavras, seu rosto pareceu abrir-se e um raio de esperança brilhou em seus olhos apagados.

“─ Não me enganais? perguntou ela. Ah! Se isto pudesse ser verdade!

“Sendo bom médium escrevente, obtive na sessão uma curta comunicação de seu marido, que lhe causou suave satisfação. Vim vê-la várias vezes, e todas as vezes seu marido conversava com ela por meu intermédio. Ela o interrogava e ele respondia de maneira a não lhe deixar nenhuma dúvida sobre a sua presença, porque lhe falava de coisas que eu mesmo ignorava; ele a encorajava, a exortava à resignação e lhe assegurava que um dia iriam encontrar-se.

“Pouco a pouco, sob o império dessa doce emoção e desses pensamentos consoladores, a calma voltou à sua alma, sua razão lhe voltava a olhos vistos e, ao cabo de alguns meses, ela estava completamente curada e pôde entregar-se ao trabalho, que deveria alimentá-la e aos seus filhos.

“Essa cura fez grande sensação entre os camponeses da aldeia. Assim, tudo ia bem. Agradeci a Deus por me haver permitido tirar essa infeliz das garras do desespero; também agradeci aos bons Espíritos por sua assistência, pois todo mundo sabia que essa cura tinha sido produzida pelo Espiritismo, e eu me alegrava. Mas eu tinha o cuidado de lhes dizer que nisso nada havia de sobrenatural, e lhes explicava o melhor que podia os princípios da sublime Doutrina que dá tanta consolação e que já fez tão grande número de pessoas felizes.

“Essa cura inesperada perturbou vivamente o padre da região. Ele visitou a viúva, que tinha abandonado completamente a partir do início da sua moléstia. Ele soube, por ela, como e por intermédio de quem haviam ela e os filhos recuperado a saúde; que agora tinha a certeza que não estava separada do marido; que a alegria que sentia, a confiança que isto lhe dava na bondade de Deus, a fé em que estava animada tinham sido a principal causa de seu restabelecimento.

“Ai de mim! Todo o bem no qual eu havia posto tanta perseverança em produzir ia ser destruído. O cura fez a infeliz viúva ir à sacristia; começou por lançar a dúvida em sua alma; depois a fez crer que eu era um súdito de Satã; que eu não agia senão em seu nome, e que ela estava agora em seu poder. Agiu tão bem que a pobre mulher, que teria tido necessidade dos maiores cuidados, enfraquecida por tantas emoções, recaiu num estado pior que da primeira vez. Hoje por toda parte ela só vê diabos, demônios e o inferno. Sua loucura é completa e devem levá-la a um hospício de alienados.”

O que havia causado a primeira loucura daquela mulher? O desespero. O que lhe havia restaurado a razão? As consolações do Espiritismo. O que a fez recair numa loucura incurável? O fanatismo, o medo do diabo e do inferno. Este fato dispensa qualquer comentário. Como se vê, o clero fez mal em pretender, como tem feito em muitos escritos e sermões, que o Espiritismo leva à loucura, quando, com justiça, se lhe pode devolver o argumento. Alias, aí estão as estatísticas oficiais para provar que a exaltação das ideias religiosas entram em parte notável nos casos de loucura. Antes de jogar pedra em alguém, seria prudente ver se ela não poderá cair sobre si mesmo.

Que impressão esse fato deve produzir na população daquela aldeia? Certamente não será em favor da causa sustentada pelo senhor cura, porque o resultado material é evidente. Se ele pensa em recrutar prosélitos pela crença no diabo, engana-se redondamente, e é triste ver a Igreja fazer dessa crença uma pedra angular da fé. (Ver A Gênese segundo o Espiritismo, cap. XVII, 27).

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