Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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Extraído dos jornais ingleses

Um dos nossos correspondentes de Londres nos transmite a seguinte notícia:

“O jornal inglês The Builder (O Construtor), órgão dos arquitetos, muito estimado por seu caráter prático e retidão de seus julgamentos, tratou incidentemente, em várias ocasiões, de questões atinentes ao Espiritismo. Em seus artigos ele aborda mesmo as manifestações de nossos dias, sobre as quais o autor faz uma apreciação do seu ponto de vista.

“O Espiritismo também foi abordado em algumas das últimas notícias da Revista Antropológica de Londres; aí se declara que o fato da intervenção ostensiva dos Espíritos, em certos fenômenos, é muito bem verificado para ser posto em dúvida. Aí se fala do envoltório corporal do homem como de uma grosseira vestimenta apropriada ao seu estado atual, que se considera como o mais baixo escalão do reino hominal; esse reino, apesar de ser o coroamento da animalidade do planeta, não é senão um esboço do corpo glorioso, leve, purificado e luminoso que a alma deve revestir no futuro, à medida que a raça humana se desenvolve e se aperfeiçoa.

“Ainda não é, acrescenta o correspondente, a doutrina homogênea e coerente da escola espírita francesa, mas dela muito se aproxima, e me pareceu interessante como indício do movimento das ideias no senso espírita deste lado do estreito. Entretanto, falta-lhes direção; eles navegam à deriva nesse mundo novo que se abre ante a Humanidade, e não é de admirar que nele a gente se perca por falta de um guia. Não temos dúvidas que, se as obras da Doutrina fossem traduzidas para o inglês, reuniriam numerosos partidários, firmando as ideias ainda incertas.

“A. BLACKWELL.”


CHARLES FOURIER

Numa obra intitulada: Charles Fourier, sua vida e suas obras, por Pellarin, encontra-se uma carta de Fourier ao Sr. Muiron, datada de 3 de dezembro de 1826, pela qual ele prevê os futuros fenômenos do Espiritismo.

Ela é assim concebida:

“Parece que os Srs. C. e P. renunciaram ao seu trabalho sobre o magnetismo. Eu apostaria que não fazem valer o argumento fundamental: é que, se tudo está ligado no universo, devem existir meios de comunicação entre as criaturas do outro mundo e deste; quero dizer: comunicações de faculdades, participação temporária ou acidental das faculdades dos extramundanos ou defuntos, e não comunicação com eles. Essa participação não se pode dar em vigília, mas apenas num estado misto, como o sono ou outro. Os magnetizadores encontraram esse estado? Eu o ignoro! Mas, em princípio, sei que deve existir.”

Fourier escrevia isto em 1826, a propósito dos fenômenos sonambúlicos; ele não podia ter qualquer ideia dos meios de comunicação direta descobertos vinte e cinco anos mais tarde, e não concebia a sua possibilidade senão num estado de desprendimento, que de certo modo aproximasse os dois mundos; mas nem por isso deixava de ter a convicção do fato principal, o da existência dessas relações.

Sua crença sobre um outro ponto capital, o da reencarnação na Terra, é ainda mais preciso quando ele diz: Um mau rico poderá voltar para mendigar à porta do castelo do qual foi proprietário. É o princípio da expiação terrena nas existências sucessivas, em tudo semelhante ao que ensina o Espiritismo, conforme os exemplos fornecidos por essas mesmas relações entre o mundo visível e o mundo invisível. Graças a tais relações, esse princípio de justiça, que não existia no pensamento de Fourier senão no estado de teoria ou de probabilidade tornou-se uma verdade patente.



PROFISSÃO DE FÉ DE UM FOURIERISTA


A seguinte passagem é extraída de uma nova obra intitulada Cartas a meu irmão sobre as minhas crenças religiosas, por Math. Briancourt: [1]

“Creio num só Deus todo-poderoso, justo e bom, tendo por corpo a luz, por membros a totalidade dos astros ordenados em série hierárquica.

“Creio que Deus designa a todos os seus membros, grandes e pequenos, uma função a cumprir no desenvolvimento da vida universal que é a sua vida, reservando a inteligência para aqueles membros que ele associa a si mesmo no governo do mundo.

“Creio que os membros inteligentes do último grau, as Humanidades, têm por tarefa a gestão dos astros que habitam e sobre os quais têm missão de fazer reinar a ordem, a paz e a justiça.

“Creio que as criaturas cumprem suas funções satisfazendo às suas necessidades que Deus adapta exatamente às exigências das funções; e como, em sua bondade, ele liga o prazer à satisfação das necessidades, creio que toda criatura, realizando a sua tarefa, é tão feliz quanto comporta a sua natureza, e que os sofrimentos são tanto mais vivos quanto mais ele se afasta da realização de sua tarefa.

“Creio que a Humanidade terrena em breve terá adquirido os conhecimentos e o material que lhe são indispensáveis para cumprir sua alta função, e que, em consequência, o dia da felicidade geral aqui na Terra não tardará muito a surgir.

“Creio que a inteligência dos seres racionais dispõe de dois corpos, um formado de substâncias visíveis aos nossos olhos, outro de matérias mais sutis e invisíveis chamadas aromas.

Creio que, com a morte de seu corpo visível, esses seres continuam a viver num mundo aromal, onde encontram a recompensa exata de suas obras boas ou más; em seguida, após um tempo mais ou menos longo, retomam um corpo material para abandoná-lo novamente à decomposição, e assim por diante.

“─ Creio que as inteligências que crescem cumprindo exatamente as suas funções vão animar seres cada vez mais elevados na divina hierarquia, até que entrem, no fim dos tempos, no seio de Deus, de onde saíram, que se unam à sua inteligência e partilhem de sua vida aromal.”

Com uma tal profissão de fé, compreende-se que os fourieristas e espíritas possam dar-se as mãos.


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[1] 1 vol. in-18. Livraria de Ciências Sociais.






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