Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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Vários jornais reproduziram o seguinte fato:

A aldeia de Saint-Urbain, nos limites de Loire e do Ardèche, está toda inquieta. Escrevem-nos que ali se passam coisas estranhas. Uns as imputam ao diabo, outros aí veem o dedo de Deus, marcando com o selo da predestinação uma de suas criaturas privilegiadas.

Eis, em duas palavras, de que se trata, diz o Memorial de la Loire:

“Há uns quinze dias nasceu nesta aldeia uma criança que desde a sua entrada no mundo manifestou as mais admiráveis virtudes, as mais singulares propriedades, diriam os sábios. Logo depois de batizada, tornou-se impalpável e intangível! Intangível, não como a sensitiva, mas à maneira de uma garrafa de Leyde carregada de eletricidade, que não se pode tocar sem sentir uma viva comoção. Além do mais, ela é luminosa! De todas as suas extremidades se desprendem, por momentos, eflúvios brilhantes, que a fazem assemelhar-se a uma lucíola.

“À medida que o bebê se desenvolve e se fortalece, esses curiosos fenômenos se acentuam com mais energia e intensidade. Até se produzem novos. Conta-se, por exemplo, que em certos dias, quando se aproxima das mãos e dos pés do menino algum objeto de pequeno volume, como uma colher, uma faca, uma taça, mesmo um prato, os utensílios são tomados de um frêmito e de uma vibração sutis, que nada pode explicar.

“É particularmente à tarde e à noite que esses fatos extraordinários se acentuam, quer em estado de sono, quer em vigília. Por vezes, então ─ e aqui está um prodígio ─ o berço parece encher-se de uma claridade esbranquiçada, semelhante a essas belas fosforescências que tomam as águas do mar na esteira dos navios, e que a Ciência ainda não explicou perfeitamente.

“Contudo, o menino não parece absolutamente incomodado com as manifestações de que sua minúscula pessoa é o misterioso teatro. Ele mama, dorme, passa muito bem e nem é menos chorão nem mais impaciente do que os seus semelhantes. Ele tem dois irmãozinhos de quatro a cinco anos, que nasceram e vivem à maneira dos mais vulgares pequerruchos.

“Acrescentemos que os pais, valentes agricultores, o marido chegando aos quarenta e a mulher aos trinta, são os esposos menos elétricos e luminosos do mundo. Eles só brilham pela honestidade e pelo cuidado com que criam sua pequena família.

“Chamaram o cura da comuna vizinha, que declarou, após um longo exame, não compreender absolutamente nada disso; depois o cirurgião, que apalpou, reapalpou, tocou de novo, auscultou e percutiu o paciente, sem querer pronunciar-se claramente sobre o caso, mas que prepara um relatório científico à Academia, do qual se falará no mundo médico.

“Um malandro da região, e os há em toda a parte, farejando uma boa especulaçãozinha, propôs alugar o menino à razão de 200 francos por mês, ‘para mostrá-lo nas feiras’. É um belo negócio para os pais. Mas naturalmente o pai e a mãe querem acompanhar um filho tão precioso ─ a 2 francos por dia ─ e esta condição ainda impede a conclusão do negócio.

“O correspondente que nos dá esses estranhos detalhes nos certifica, ‘sob palavra de honra’, que eles são a mais exata expressão da verdade e que ele teve o cuidado de fazer subscrever sua carta ‘pelos quatro maiores proprietários da região.’”

Certamente nenhum Espírita verá neste fato algo de sobrenatural nem miraculoso. É um fenômeno puramente físico, uma variante, quanto à forma, do que apresentam as pessoas ditas elétricas. Sabe-se que certos animais, como o peixeelétrico e o gimnoto, têm propriedades análogas.

Eis a instrução dada a respeito por um dos guias instrutores da Sociedade de Paris:

“Como vos temos dito com frequência, os mais singulares fenômenos se multiplicam dia a dia, para atrair a atenção da Ciência. O menino em questão é, pois, um instrumento, mas não foi escolhido para esse efeito senão em razão da situação criada em seu passado. Por excêntrico que seja, em aparência, um fenômeno qualquer, produzido num encarnado, tem sempre como causa imediata a situação intelectual e moral desse encarnado e uma relação com seus antecedentes, pois todas as existências são solidárias. Sem dúvida é um assunto de estudo para os que o testemunham, mas secundariamente. É sobretudo para aquele que dele é objeto, uma provação ou uma expiação. Há, pois, o fato material, que é do campo da Ciência, e a causa moral, que pertence ao Espiritismo.

“Mas, perguntareis, como semelhante estado pode ser uma provação para um menino dessa idade? Para o menino, certamente não, mas para o Espírito, que não tem idade, a provação é certa.

“Achando-se, como encarnado, numa situação excepcional, cercado de uma auréola física que não passa de uma máscara, mas que pode passar aos olhos de certa gente por um sinal de santidade ou de predestinação, o Espírito, desprendido durante o sono, se orgulha da impressão que produz. Era um taumaturgo de uma espécie particular que passou sua última existência a brincar de pessoa santa, em meio aos prodígios que se tinha exercitado a realizar, e que quis continuar seu papel nesta existência. Para atrair o respeito e a veneração, ele quis nascer, como menino, em condições excepcionais. Se viver, será um falso profeta do futuro, e não será o único.

“Quanto ao fenômeno em si mesmo, é certo que terá pouca duração. A Ciência deve, pois, apressar-se, se quiser estudá-lo de visu. Mas ela nada fará, temerosa de encontrar dificuldades embaraçosas. Ela contentar-se-á em considerar o menino como um peixe-elétrico humano.”

Dr. MOREL LAVALLÉE.

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