Revista Espírita - Jornal de estudos psicológicos - 1869

Allan Kardec

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Extraído do Jornal le Voyageur de Commerce de 22 de novembro de 1868[1]

Algumas páginas sinceras sobre o Espiritismo, escritas por um homem de boafé, não poderiam ser inúteis nesta época, e talvez seja tempo de se fazer justiça e luz sobre uma questão que, embora contando hoje no mundo inteligente adeptos numerosos, não tem sido menos relegada ao domínio do absurdo e do impossível por espíritos levianos, imprudentes e pouco preocupados com o desmentido que o futuro lhes pode dar.

Seria curioso interrogar hoje esses pretensos sábios que, do alto de seu orgulho e de sua ignorância decretavam, ainda há pouco, com um soberbo desdém, a loucura desses homens gigantes que procuravam novas aplicações para o vapor e a eletricidade. Felizmente a morte lhes poupou essas humilhações.

Para fixar claramente a nossa situação, faremos ao leitor uma profissão de fé em algumas linhas:

Espírita, Avatar, Paul d’Apremont provam-nos incontestavelmente o talento de Théophile Gautier, esse poeta a quem o maravilhoso sempre atraiu; estes livros encantadores são pura imaginação e seria erro neles procurar outra coisa; o Sr. Home era um prestidigitador hábil;os irmãos Davenport, chantagistas desajeitados.

Todos aqueles que quiseram fazer do Espiritismo um negócio de especulação dependem, em nossa opinião, da polícia correcional ou do tribunal de justiça, e eis por quê: Se o Espiritismo não existe, são impostores passíveis da penalidade infringida pelo abuso de confiança; ao contrário, se ele existe, é com a condição de ser a coisa sagrada por excelência, a mais majestosa manifestação da divindade. Se admitíssemos que o homem, passando sobre o túmulo, pudesse de pé firme penetrar na outra vida, corresponder-se com os mortos e ter assim a única prova irrecusável ─ porque seria material ─ da imortalidade da alma, não seria um sacrilégio entregar a charlatães o direito de profanar o mais santo dos mistérios e violar, sob a proteção dos magistrados, o segredo eterno dos túmulos? O bom-senso, a moral, a própria segurança dos cidadãos exigem imperiosamente que esses novos ladrões sejam expulsos do templo, e que nossos teatros e nossas praças públicas sejam fechados a esses falsos profetas que lançam nos espíritos fracos um terror de que a loucura muitas vezes é a consequência.

Isto posto, entremos no âmago da questão.

Ao ver as escolas modernas, que fazem tumulto em torno de certos princípios fundamentais e de certezas conquistadas, é fácil compreender que o século da dúvida e do desencorajamento em que vivemos está presa de vertigem e cegueira.

Entre todos esses dogmas, o mais agitado foi, sem contestação, o da imortalidade da alma.

Com efeito, tudo se resume nisto: é a questão por excelência, é o homem todo inteiro, é o seu presente, é o seu futuro; é a sanção da vida, é a esperança da morte; é a ela que vêm ligar-se todos os grandes princípios da existência de Deus, da alma, da religião revelada.

Admitida esta verdade, não é mais a vida que nos deve inquietar, mas o termo da vida; os prazeres se apagam para dar lugar ao dever; o corpo não é mais nada, a alma é tudo; o homem desaparece e só Deus brilha em sua eterna imensidade.

Então, a grande palavra da vida, a única, é a morte, ou melhor, a nossa transformação. Sendo chamados a passar pela Terra como fantasmas, é para esse horizonte que se entreabre do outro lado que devemos lançar o olhar; viajantes de alguns dias, é ao partir que convém nos informemos sobre o objetivo de nossa peregrinação, que perguntemos à vida o segredo da eternidade, que assentemos as balizas do nosso caminho e que, passageiros da morte à vida, sustentemos com mão firme o fio que atravessa o abismo.

Disse Pascal; “A imortalidade da alma é uma coisa que nos importa tanto e que nos toca tão profundamente, que é preciso haver perdido todo o sentimento para não nos interessarmos em saber o que ela é. Todas as nossas ações, todos os nossos pensamentos devem tomar caminhos tão diferentes, conforme houver ou não bens eternos a esperar, que é impossível fazer uma manobra com senso e raciocínio se não nos pautarmos pela visão desse plano, que deve ser o nosso primeiro objetivo.”

Em todas as épocas o homem teve por patrimônio comum a noção da imortalidade da alma e procurou apoiar em provas essa ideia consoladora. Ele acreditou achá-la nos usos e costumes dos diversos povos, nos relatos dos historiadores, nos cantos dos poetas. Sendo anterior a todo sacerdote, a todo legislador, a todo escritor, não tendo saído de nenhuma seita, de nenhuma escola, e existindo nos povos bárbaros como nas nações civilizadas, de onde viria ela senão de Deus, que é a verdade?

Ah! Essas provas que o medo do nada criou não são senão esperanças de um futuro construído sobre um areal incerto, sobre areia movediça, e as deduções da lógica mais cerrada jamais chegarão à altura de uma demonstração matemática.

Esta prova material, irrecusável, justa como um princípio divino e como uma adição ao mesmo tempo, acha-se inteira no Espiritismo e não poderia encontrar-se alhures. Considerando-a deste ponto de vista elevado, como uma âncora de misericórdia, como a suprema tábua de salvação, compreende-se facilmente o número de adeptos que este novo altar plenamente católico agrupou em torno de seus degraus, porque não há que se enganar, é aí e não alhures que se deve procurar a origem do sucesso que essas novas doutrinas criaram junto a homens que brilham no primeiro plano da eloquência sagrada ou profana, e cujos nomes têm uma merecida notoriedade nas ciências e nas letras.

Que é, pois, o Espiritismo?

Na sua definição mais ampla, o Espiritismo é a facilidade que possuem certos indivíduos de entrar em relação, através de um intermediário, ou médium, que não passa de um instrumento em suas mãos, com o Espírito de pessoas mortas que habitam um outro mundo. Esse sistema, que se apoia, dizem os crentes, num grande número de testemunhos, oferece uma singular sedução, menos pelos resultados do que por suas promessas.

Nesta ordem de ideias, o sobrenatural não é mais um limite, a morte não é mais uma barreira, o corpo não é mais um obstáculo à alma, que dele se desembaraça após a vida, como, durante a vida, dela se desembaraça momentaneamente, no sonho. Na morte, o Espírito está livre; se for puro, eleva-se para as esferas que nos são desconhecidas; se impuro, erra em volta da Terra, põe-se em comunicação com o homem, que trai, engana e corrompe. Os espíritas não creem nos bons Espíritos. O clero, de acordo com o texto da Bíblia, não crê igualmente senão nos maus, e os encontra nesta passagem. “Tomai cuidado, porque o demônio ronda em torno de vós e vos espreita como um leão buscando sua presa, quaerens quem devoret.”

Assim, o Espiritismo não é uma descoberta moderna. Jesus expulsava os demônios do corpo dos possessos, e Diodoro de Sicília fala dos fantasmas; os deuses lares dos romanos, seus Espíritos familiares, que eram, pois?

Mas, então, por que repelir com prevenção e sem exame um sistema, certamente perigoso do ponto de vista da razão humana, mas cheio de esperanças e consolações? A brucínia sabiamente administrada é um dos nossos mais poderosos remédios; por que é um violento veneno em mãos inábeis, há uma razão para proscrevê-la do Códex?

O Sr. Baguenault de Puchesse, um filósofo e um cristão, de cujo livro faço numerosos empréstimos, porque suas ideias são as minhas, diz, no seu belo livro Immortalité, a propósito do Espiritismo: “Suas práticas inauguram um sistema completo que compreende o presente e o futuro, que traça os destinos do homem, abre-lhe as portas da outra vida e o introduz no mundo sobrenatural. A alma sobrevive ao corpo, pois aparece e se mostra após a dissolução dos elementos que o compõem. O princípio espiritual se desprende, persiste e, por seus atos, afirma sua existência. A partir daí o materialismo é condenado pelos fatos; a vida de alémtúmulo se torna um fato certo e como que palpável; o sobrenatural assim se impõe à Ciência e, submetendo-se ao seu exame, não lhe permite mais repeli-lo teoricamente e declará-lo, em princípio, impossível.”

O livro que assim fala do Espiritismo é dedicado a uma das luzes da Igreja, a um dos mestres da Academia Francesa, um dos luminares das letras contemporâneas, que respondeu:

“Um belo livro, sobre um grande assunto, publicado pelo presidente de nossa Academia de Santa Cruz, será uma honra para vós e para toda a nossa Academia. Talvez não possais escolher uma questão mais alta nem mais importante a estudar na hora presente... Permiti-me, pois, senhor e muito caro amigo, vos oferecer, pelo belo livro que dedicais à nossa Academia e pelo bom exemplo que nos dais, todas as minhas felicitações e todos os meus agradecimentos, com a homenagem de meu religioso e profundo devotamento.

“FÉLIX, Bispo de Orléans.

“Orléans, 28 de março de 1864”


O artigo é assinado por Robert de Salles.

Evidentemente o autor não conhece o Espiritismo senão de maneira incompleta, como o provam certas passagens de seu artigo, entretanto, considera-o como coisa muito séria e, salvo poucas exceções, os espíritas não poderão senão aplaudir o conjunto de suas reflexões. Ele está em erro sobretudo ao dizer que os espíritas não creem nos bons Espíritos, e também na definição que dá como a mais ampla expressão do Espiritismo. É, diz ele, a faculdade que possuem certos indivíduos, de entrar em relação com o Espírito de pessoas mortas.

A mediunidade, ou faculdade de comunicar-se com os Espíritos não constitui o fundo do Espiritismo, sem o que, para ser espírita, seria preciso ser médium. A mediunidade não passa de um acessório, um meio de observação, e não a ciência, que está toda inteira na doutrina filosófica. O Espiritismo não está mais enfeudado na mediunidade do que a Astronomia numa luneta, e a prova disto é que se pode fazer Espiritismo sem médiuns, como se fez Astronomia muito tempo antes de haver telescópios. A diferença consiste em que, no primeiro caso, se faz ciência teórica, ao passo que a mediunidade é o instrumento que permite assentar a teoria sobre a experiência. Se o Espiritismo estivesse circunscrito à faculdade mediúnica, sua importância seria singularmente diminuída e, para muita gente, reduzir-se-ia a fatos mais ou menos curiosos.

Lendo esse artigo, pergunta-se se o autor crê ou não no Espiritismo, porquanto ele não o expõe, de certo modo, senão como uma hipótese, mas como uma hipótese digna da mais séria atenção. Se for uma verdade, diz ele, é uma coisa sagrada por excelência, que não deve ser tratada senão com respeito, e cuja exploração não poderia ser desrespeitada e perseguida com muita severidade.

Não é a primeira vez que esta ideia é emitida, mesmo pelos adversários do Espiritismo, e é de notar que é sempre o lado pelo qual a crítica julgou pôr a Doutrina em erro, atendo-se aos abusos do tráfico a que deu ocasião; é que ela sente que este seria o lado vulnerável, pelo qual poderia acusá-la de charlatanismo, motivo pelo qual a malevolência se encarniça em ligá-la aos charlatães, ledores da sorte e outros exploradores da mesma espécie, esperando, por esse meio, ludibriar e lhe tirar o caráter de dignidade e de gravidade que constitui a sua força. O ataque aos Davenport, que tinham julgado poder impunemente pôr os Espíritos em desfile nos palcos, prestou um imenso serviço. Em sua ignorância do verdadeiro caráter do Espiritismo, a crítica de então julgou feri-lo de morte, ao passo que não desacreditou senão os abusos contra os quais todos os espíritas sinceros sempre protestaram.

Seja qual for a crença do autor, e malgrado os erros contidos em seu artigo, devemos felicitar-nos por nele ver a questão tratada com a gravidade que o assunto comporta. A imprensa raramente tem ouvido falar dele num sentido tão sério, mas há começo para tudo.



[1] Le Voyageur de Commerce sai todos os domingos. - Escritório; bairro Saint-Honoré, 3. Preço: 22 francos por ano; 12 francos por semestre; 6,50 francos por trimestre. Pelo fato de ter publicado o artigo que será lido, que é a expressão do pensamento do autor, nada prejulgamos quanto às simpatias pelo Espiritismo, porquanto só o conhecemos por este número que tiveram a bondade de nos enviar.


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